A Revista Palavra & Arte que tem como intuito dar a conhecer, ensinar, divulgar, animar e analisar tanto a literatura como os mais diferentes tipos de artes (cênicas, plásticas, visuais), bem como as pessoas que as fazem, traz em Outros Passos, a sua rubrica que engloba a arte dançante, o bailarino angolano José Pita.

Vamos entrar um pouco na sua cabeça e desvendar o que pensa sobre a dança e os bailarinos angolanos, que tipo de mudanças, se houver, precisam ser feitas e, em sua opinião, que passos precisam ser dados para que se alcance um outro patamar nessa forma de expressão artística.

José Luelo Miguel Alves Pita (Zeca) tem 26 anos de idade e é natural de Luanda. O seu estilo predominante é o Hip Hop L. A. Recém-casado com uma brasileira, encontra-se, desde ano de 2015, no Rio de Janeiro onde decidiu morar e trabalhar.

Zeca, como é normalmente conhecido dentro e fora dos palcos, iniciou-se na dança com apenas 10 anos de idade e, sem professor algum, foi aprendendo os passos nas ruas da cidade, passando pelo kuduro e break dance, até chegar ao estilo em que se encontra actualmente. Em 2003, ano em que começou a ver a dança com outros olhos, fundou o grupo de hip-hop Black Boyz e foi aí que decidiu que seguiria esse caminho.

Palavra e Arte: Zeca, para início de conversa, quais foram as suas inspirações para ingressar no mundo da dança?

Zeca: Uma das minhas inspirações foi o meu irmão, Avelino, que já dançava kuduro underground com o seu grupo, e eu gostava muito de vê-los a dançar. Mais tarde, com o aumento do gosto pela dança, comecei a assistir vídeos norte-americanos e filmes de dança. Nos videoclips, via muito o Jun Quemado, um dançarino e coreógrafo americano que ajudou-me muito a crescer e a ver a dança com seriedade.

 Que espaço a dança ocupa na sua vida?

Eu sempre digo que a dança é a minha vida. Ela faz parte de mim. Toda vez que me sinto triste ou mal por alguma razão, eu coloco uma música e deixo o meu corpo mover, aí sinto que sou a dança. A dança faz bem à alma, e é por essa razão que dançarei até não poder mais.

José Pita [Zeca]

Já pensou em desistir?

Sim. Não é fácil viver da dança, há muitas barreiras a serem ultrapassadas. Comecei com pessoas que hoje já não pensam em voltar, mas, com a graça de Deus, eu continuo aqui e talvez pare apenas quando ferrar o joelho (risos).

 Fale-nos um pouco do seu percurso. Que tipo de trabalhos já fez, em que está a trabalhar e o que pensa fazer a seguir?

 Trabalhei com alguns cantores como a Yola Araújo, Big Nelo, Adi Cudz, Pérola, Coréon Dú e muito mais. Com o Black Boyz, venci um concurso de hip hop em Luanda, o Street Dance Cuca. Participei da terceira edição do concurso de dança Bounce, da qual fui um dos vencedores, e isso levou-me ao Rio de Janeiro para uma formação. Tive a grande oportunidade de trabalhar com a renomada coreógrafa Débora Colker na comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense, no carnaval do corrente ano. Fiz algumas apresentações tanto em Angola como no Brasil e muitos outros trabalhos. Actualmente, preparo-me para dançar na abertura dos jogos olímpicos, que vai acontecer este ano no Rio de Janeiro. É um evento gigantesco e sempre admirei. Quando o via na TV, não imaginava que um dia faria parte dele e agora faço. Está a ser uma grande experiência.

 Que honra! O seu trajecto na dança, até à abertura dos Jogos Olímpicos, é uma prova de que o Zeca é um excelente artista. E assim sendo, como vê o cenário da dança em Angola?

É complicado falar sobre isso, porque Angola é um país onde muitas coisas não são valorizadas, e uma delas é a dança. Há muitos bailarinos talentosos, mas também há muitos sem foco, que pouco se dedicam ao estilo, faltando-lhes responsabilidade e disciplina, pesquisa, estudo e história. Muitos deles fazem aula hoje e não fazem amanhã, não investem e vivem da aparência. Penso que falta amadurecimento também. Por exemplo, se um de nós decidir fazer um espetáculo, os primeiros a criticar serão os próprios que se dizem ‘bailarinos’. Não apoiam o movimento e se tornam rivais. Outra dificuldade é fazer as pessoas se interessarem. Mesmo quando se faz um espetáculo aberto, a sala não enche, diferente de outros países em que as pessoas se interessam em ver algo novo; isso me dá a entender que, de uma maneira geral, precisamos de mais cultura, mais do que só entretenimento; você pode aprender, ver algo que nunca viu antes, algo novo. É triste, mas o movimento da dança em Angola está muito fraco. Eu sei que um dia vai mudar, mas não sei quando.

A dança é a minha vida. Ela faz parte de mim. Toda vez que me sinto triste ou mal por alguma razão, eu coloco uma música e deixo o meu corpo mover, aí sinto que sou a dança

Como acredita que isso pode mudar?

Com união. Se os bailarinos angolanos se unirem e trabalharem juntos pela mesma causa, dedicados a fazer esse movimento crescer e criando projetos, as pessoas e o governo olharão diferente, e talvez criem leis de incentivo à cultura, criem editais e plataformas de apoio. Mas, para que isso aconteça, precisamos trabalhar duro, ter responsabilidade e precisamos que acreditem no nosso trabalho, investindo em nós do mesmo jeito que investem na música hoje.

 Diria que qualquer pessoa pode dançar?

Todo mundo pode aprender a dançar, sozinho, na rua ou até mesmo com professor. Eu diria apenas que há corpos mais preparados, ou com mais facilidade, para aprender um estilo do que outros, mas todo corpo é vivo e pode dançar, e nunca é tarde para começar.

 Vale a pena estudar conscientemente o corpo? Vale a pena estudar a dança?

Vale a pena e é muito importante que se faça isso. No meu caso, quando estava em Angola não tinha noção do corpo, nem de como devia cuidar dele, fazia os movimentos sem pensar e me jogava de um jeito que hoje me poderia causar uma lesão que me impossibilitasse de continuar a dançar. Meu corpo é o meu instrumento de trabalho e eu tenho de ter consciência de tudo o que faço com ele, para me prevenir de lesões. Mais importante ainda é que, se eu for professor, eu teria uma responsabilidade com os alunos e teria de guiá-los do jeito mais seguro que puder.

José Pita [Zeca]

 Existem esses professores especializados em Angola?

Existem, mas são poucos. Há muitos que sabem e aprenderam a dançar muito bem, mas não sabem como formar um bailarino, porque não têm a pedagogia e esquecem-se que, se não souberem ensinar correctamente os seus alunos, esses mesmos alunos podem passar a mesma experiência a outros. Como disse, é uma questão de responsabilidade.

Há espaços para os bailarinos trabalharem com os seus grupos e fazerem as suas apresentações?

Não há. É tudo muito fechado. Não há lugares abertos para ensaios, e, muitas vezes, arrendar se torna muito difícil. Os lugares para espectáculos são na sua maioria privados e pouco apoiam o movimento.

 E agora? Morando no Rio de Janeiro, casado e a trabalhar. Pensa em voltar?

Agora que tenho uma esposa, a Elisa, que é a mulher que amo e que me dá muita força, sou um homem muito feliz e sinto-me bem a viver aqui, no Brasil. A vida vai seguindo desse jeito, depois vamos ver no que dá.

 Uma mensagem ou um conselho para os bailarinos angolanos.

Não parem de sonhar, continuem a lutar. Sei que não é fácil dançar, não é fácil montar projetos, pedir patrocínios, arranjar espaços, etc. Mas não parem. Pois, nunca é tarde para se alcançar os objetivos.

 Zeca, agradecemos pela oportunidade que nos deu e esperamos continuar a vê-lo em palco fazendo belos movimentos e grandes passos.

Sou eu quem agradece, por ser o primeiro a mostrar, fora dos palcos, os meus “Outros Passos”.