Já estávamos de saída do campo santo, após deixarmos o nosso ente querido no seu eterno descanso sepulcral quando vimos entrar uma grandiosa caravana fúnebre cujos integrantes usavam t-shirts brancas com os seguintes dizeres escritos em letras garrafais:

“Adeus Julho, que a tua alma descanse em paz”

Visto aquilo, esqueci-me do pranto que me rodeava. Dei um grande suspiro de alegria. Gostei de saber que o mês de Julho tinha morrido.

“Gosta muito de me castigar com o seu frio forte” – pensei.

Infelizmente, a minha alegria foi efémera, pois me lembrara de que foi por meio dele que o mundo conheceu o vagido da minha primogénita.

“Eh! Assim, sem mês, ela não fará mais anos, logo, não poderá crescer!” – divaguei.

A grandiosa caravana fúnebre foi avançando, eram muitos  os seus integrantes. Pareceu-me que eram todos nativos do defunto mês, por isso, o acompanhavam à sua última morada. Os gritos e os choros eram grandes, muito grandes.

Então, também comecei a me condoer, pensando na minha primogénita que merecia estar aí naquela grandiosa caravana fúnebre a se despedir do seu, agora finado, mês nativo, tal como faziam os outros.

Apossado pelo pranto, fiquei devaneando, até que me lembrei de que com a sua morte o ano ficaria com onze meses e, por arrasto, ficaríamos sem um salário. Seguidamente, uni-me à caravana fúnebre. Não o fazia pela minha primogénita. Fazia-o por mim que, sem um salário, ficaria mais pobre e insolvente do que já era. As lágrimas começaram a escorrer-me o rosto. Chorava, enquanto isso, desconfiava que nem todos os integrantes daquela caravana fúnebre eram seus nativos. Entretanto, choravam amargamente por causa do salário que perderiam e, tal como eu, ficariam mais insolventes do que já eram.

Meu choro cresceu.  Perdi o norte. Tornei-me irreconhecível.

“Chorarranhava” inconsolavelmente e, ao mesmo tempo, vociferava:

“Ó Julho! Ó Julho! Quem te fez isso, ó Julho!!

Que ingratidão é esta, ó Julho! Julhuê!!

Julho, podes voltar, ó Julho! Teu frio nunca me matou, ó Julho, Julhuê!!!”

Chorava perdidamente. Estava muito comiserado por mim mesmo, porque tinha plena consciência do que se transformaria a minha vida com menos um salário.

Um dos integrantes da caravana fúnebre apiedou-se de mim. Encostou-me, abraçou-me e, também envolto de grande pranto, questionou-me:

– Senhor, você é colega do Júlio da escola ou do serviço?

– Júlio? Qual Júlio, senhor?! – indaguei completamente abismado.

O homem virou-se para mim e mostrou-me a fotografia do falecido, Júlio, estampada na parte frontal da t-shirt fúnebre.

“Caraças!! só estava a ler na parte traseira da t-shirt. Não vi essa fotografia. Afinal,  o mês de Julho não morreu, Que alívio! É um homem que morreu e chamava-se Júlio” – pensei eu.

– Sim, fomos colegas da escola, mas no ensino primário – menti.

Todo aquele pranto desapareceu, senti-me envergonhado no meio daquela caravana constituída por gente que desconhecia. E mais, estava a vozear no campo santo por um morto que não conhecera e nunca o tinha visto em toda a minha vida!

Aos poucos, afastava-me da caravana até que consegui sair dela. Sacudi-me, limpei as lágrimas e mudei o semblante.

“Foi apenas uma cacografia fúnebre. Caraças!!! Foi um falso alarme. Que falso alarme, hein!! Estes homens não têm noção do estrago que me causariam. Perder um mês de salário, nem morto aceitaria isso! Como se não bastasse, queriam deixar a minha primogénita sem o seu mês nativo. Tamarrado!” – divagava enquanto saía do campo santo.