Coitada de Nhanguita!

Mal encostou o mutuelo na urna, a boda começou. Dois dias antes, Nhanguita se queixava ainda das dores do corpo e não tinha dado o último suspiro. Lá no hospital Maria Pia, os médicos diziam não haver cura para a sua doença. Não havendo nada mais a fazer, a sua ansiosa e estimada família preparou o cenário para o tão esperado e aplaudido tambi. Até que numa tarde de 15 de Maio ela gesticulou, esperneou e bateu a cassuleta. Tinha fechado os olhos ao mundo e aberto a Deus. Kalunga silenciou o seu sofrimento e levou-a a descansar. O corpo faria três dias na morgue para, no quarto dia, ir a enterrar no cemitério do catorze ou do Benfica de acordo as possibilidades do pacato. Neste intervalo entre o congelamento e o enterro da defunta, começou o baile. Os fatos novos, sapatos do último grito saíam dos caixotes e das maletas. Há quem ainda tenha comprado roupa nova para o desfile. Havia manequins das agências fúnebres que desfilavam nuas no óbito.

Havia músicas altas que davam cor e vida à morte. Faltou mesmo chamar disc Joker para misturar branco no preto ou um cantor que bate na nguimbi. Nos seus olhos não se via dor nenhuma, ninguém sentia dor. Um bando de mulheres que ainda tinha um pouco de compaixão pela amiga do arreou-arreou chorava. Um outro bando mandou-as calar dizendo que o óbito era de gente modernizada e que fizessem pouco barulho.

Era mesmo só uiua, cerveja até na yona, risos aqui, risos acolá. Faltou, naquele meio, tarrachinha, kuduro ou mole para contrariar os louvores da irmã Sófia e companhia.

Mas no mesmo dia um vizinho de Nhanguita viciado em músicas altas dava uma daquelas festanças de arrasar com todo o mundo ao redor. As pessoas do tambi hipnotizadas pela música e pela bebida abandonaram o óbito para ir dar uns toques de caixas.

A coitada deixara duas crianças gémeas que tinham apenas sete anitos. Ela, sacrificadamente. Sustentava-as a custo zero, por vezes, vendendo água fresca, ginguba torrada ou peles de vaca. Não havia negócio que resistisse a tão dura pobreza. As crianças não conseguiam chorar a mãe e, se o fizessem, tinham de se esconder a um cantinho e chorar baixinho com medo de serem repudiadas.

Uma velha conservadora e respeitadora das tradições que distribuía, gentilmente, cola, gengibre e kissangua foi questionada por um grupo de jovens mal informados dos costumes da nossa terra:

   — De onde vem estas águas sujas que nos mandam beber com estas porras de tubérculos ou sei lá o quê!?

A velha ainda pediu que fizessem uma fumaça no quarto da falecida para expulsar os maus espíritos. Mas um outro grupo de senhoras cologlobalizadas de culturas transeuropeias, cheio de capanguismo cultural, cochichando diziam que a coroa com estes trâmites espiritualistas mostrava suas façanhas de bruxa — filhas da nguingui — e que queria dali tirar os seus dividendos.

 [O angolano nega a sua essência por amor ao alheio parece mesmo que morrer é tornar-se excremento. Não há o mínimo respeito por aqueles que partem para o além para aquém!]

A velha olhou com ira e deixou escapar:

— Kufua kutoba[1]!

            [A velha tinha lá sua razão, morrer é mesmo humilhante.]

No quarto dia, em que o corpo seria depositado na sua última moradia, dando a terra o que é de terra, tudo se tornou alucinado. O corpo mal pousou naquela mesa adornada de ramos de flores, os familiares desfizeram-se às pressas dele. Meteram-no no carro, e o motorista desapareceu no olhar deixando um arco-íris de poeira. Parecia uma manada de bois saindo do curral. O Nduta andava a 260Km/h, embora o seu carro só corresse 160 km/h. Os outros não maiaram,seguiram-no…

Uaue ua ngive[2]! — gritou a velhota que ficara com os panos esvoaçando ao sul do desespero. A velha mesmo na sua ignorância do mato sabia que aquilo já não era um cortejo fúnebre, mas — um curida! — como ela mesmo pronunciou.

No cemitério, a multidão invadiu-se, pisavam em tudo que era campa sem o mínimo respeito, arrancavam flores e caveiras — [Porra! porque o faziam? que culpa tinham eles de terem morrido!? Porque não respeitavam os mortos!?] — Aquilo era um atropelo aos princípios que os nossos antepassados protegeram e se bateram com dentes e garras.

Enquanto os aerófitos tomavam de assalto o cemitério, outros ficaram na retaguarda gritando e abusando da sua sorte de viventes:

— Quem morre é burro!! Burro, burro e meio! Quem morre é burro, burro, burro e meio!

As bebidas vinham de todas as direcções. Era só frescar, é só frescar, frescar é frescar. As cervejas acabaram e a kitandeira que dicombalava avisou faltar álcool etílico:

Se já não há cerveja, pronto! Nós não bebemos marcas! Tragam vinho, whisky, katrungungo, 8 PM ou outra porcaria! Hoje vamos nos embebedar! Limite é no cemitério…!

— Ei! Vira essa boca pra lá!!!  — disse um medroso.

[Continuo a dizer: (…) aquilo não era um funeral, era uma brincadeira destas que apregoámos ser de mau gosto. Não podia ser Nhanguita que tinha todos por irmãos. Talvez fosse uma boneca de pano. A minha irmã quando criança enterrava monte delas no quintal. Os choros eram fingidos, os soluços eram mais alegres que triste (…)]

Dona Gigi, irmã mais velha de Nhanguita, jogou-se no buraco. Alguns que ainda tinham bom coração julgaram que era a dor de perder uma irmã, mas estavam redondamente errados. Dona Gigi tinha ingerido álcool e este fazia já o seu efeito.

[Ai meu Deus! O que se passa com esta gente? Eh! Responda-me?!]

O enterro decorria, e em casa já havia abarrotamento de bebidas: barris, térmicas, tambores, bacias e outros reservatórios abastecidos de líquidos imoralistas.

O lugar da kanjica, dos kotas, do café das noites e das velhas pareceram-lhes antiquados. Assim, substituíram por frangos, lagostas, costeletas de porco ou de cão, sei lá, e outros alimentos que a guerra veio trazer em nossas bandas.

 [Será que é fome!? Não têm mais coração!? E a sensibilidade!? Onde e em qual canto a empurraram!?]

O enterro foi despachado, até porque o pastor benzeu e disse:

— O corpo está entregue à terra de onde veio! — O que podiam mais esperar aqueles “sem vergonha, filhos da p… deixa!”.

Todos embriagados, todos alegres, cantavam todos satisfeitos como galos empoleirados no cimo dos galhos das árvores. Os carros estavam atestados do pé à cabeça, até nos trepais ia pessoas. Faz-me lembrar em 1992 quando fugíamos a tirania e os chimpas que guerreavam por futilidades.

Os motoristas etilizados, com aquelas cartas compradas, não respeitavam por nada qualquer sinal que aparecesse em frente. Ultrapassavam à torta e à direita, mudavam de faixa quando lhes dava na tola, nem mesmo o agente de trânsito respeitavam quando tentasse se fixar na estrada para manda-los parar; tinha de fugir aos pulos porque seria atropelado.

Nhanguita não merecia tudo isso, porque, até no seu óbito, vieram pessoas que ela mesma só viu uma vez quando criança. Outras, que nunca chegou a conhecer. Estavam todos ali com Smoking, cheios de ombreiras, armados em boss da família, mas que nunca conseguiram ajudar esta pobre mulher que morreu indiferente à realidade do mundo.

Nhanguita vivia num quartito, num canto do seu bairro, que nunca chamou a atenção de ninguém, nem mesmo da ENDE ou da EPAL. Vivia a lutar com a dor de ser ninguém. Vivia como escória. Era isso o resultado do ódio e cobiça dos homens. Esses que albergavam nas suas almas multiplicidade de tudo. Os que tinham dinheiro espalhado por todos os cantos, para dizer que seus sorrisos brilhavam feito oiro.

Mas Nhanguita aprendeu, desde cedo, nos mandamentos da lei religiosa — “não cobiçar as coisas alheias” —, por isso respeitou sempre o que não era dela. Amou os que a apunhalavam, rezou pelos governantes, mesmos sabendo que todos os dias enriqueciam em seu nome. Tinha exemplos vivos: O Rico e o Lázaro. A sua crença em Nzambi fazia-lhe acreditar que estaria junto dele eternamente.

Deus também amava esta pobre criatura. Era ele que a guiava e fortalecia quando a invocava nas horas de tormento no hospital:

— Senhor, faça-se em mim segundo a tua vontade! […] Que esta dor não me afaste do teu rosto misericordioso! As vozes alcoolizadas de ateus e cristãos, que em nada se diferenciavam, despertavam a atenção dos telespectadores que viam sobre as janelas da rua a algazarra. Os nossos Kazukuteiros dos cemitérios batiam palmas, tocavam batuques, assobiavam, esperneavam-se até que o céu cobriu-se de matérias orgânicas e inorgânicas. Via-se panos e sapatos caiando do céu; gritos rangendo, desespero inflamando os órgãos sensores; via-se uma nuvem vermelha a espalhar-se pelo ar, as lágrimas dos telespectadores a descortinarem a dor, enquanto o tapete asfáltico preto tornava-se tapete asfáltico rubro da cor das cerimónias; baterias, pneus, cambotas, braços, bielas e outros componentes pairavam sobre a estrada. Nada tinha cura. Nada se recuperaria. Não sei se houve sobreviventes. Não sei se todos morreram. Talvez Nhanguita sorria-lhes a desgraça ou chorava. Não sei.


[1] Morrer é humilhante

[2] Uaue mataram-me