Pela sua extensão sociocultural e impregnação linguística quanto à sua concepção no subconsciente dos diferentes falantes, o presente diálogo subscreve-se na dicotomia existente entre a Onomástica antroponímica como meio de manifestação cultural e como meio de expressão cultural na perspectiva da diversidade e interacção sociolinguística. Assim sendo, a Onomástica é o ramo da linguística que estuda os nomes próprios e de lugares. A mesma ramifica-se em Antroponímia e Toponímia. Parte-se do pressuposto de as palavras “manifestação” e “expressão” serem sinónimos não perfeitos, porém no presente diálogo são antagónicas.

Para o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001, p. 2362), “manifestação” provém do latim manisfetatio, -õnis, que significa acção de manifestar ou de se manifestar. No presente diálogo, translada o conceito etimológico para o campo do semantismo. Por conseguinte, abandona o significado lexical pejorativo atribuído por uma parte da comunidade linguística angolana em que está intrinsecamente relacionada à ideia de confusão, frustração. Por exemplo, qual será a análise dos diferentes segmentos sociais angolanos, se numa proposição for escrito” o Mário manifestou o seu descontentamento pela forma como é gerida o bem público”? Ele será visto como confuso, frustrado. Quer-se com isto dizer que, para o diálogo a que se propôs, a manifestação Onomástica antroponímica refere-se à ideia da pluralidade cultural. Subsequentemente, a pluralidade antroponímica remete-nos para o campo da aceitação cultural e não do universalismo cultural. Por existir similaridade na Onomástica Bantu, recorre-se à segmentação, primeiro, por a manifestação funcionar como a macro identidade cultural, como meio de inclusão sociocultural e segundo, por a expressão, circunscrevendo o campo da singularidade, ser indecisa, pois que, à medida que absolve o significado regional de cada grupo etnolinguístico, “Jamba” é para o povo Ovimbundo, e “Venokanya”, para o povo kwanyama. Também os exclui uma vez que tem havido uma certa resistência na coabitação da diversidade antroponímica. Às vezes, somos aceites na pluralidade, isto é, na manifestação. Negados na singularidade, isto é, na expressão. Acredita-se que o referido processo decorra aleatoriamente pela forma como os indivíduos são instruídos pela sua comunidade de pertença ou pelas influências socioculturais que acabam por se reflectir no comportamento social. Porém, Herbert Schaffer (1984, p. 19) diz que “Não esqueçamos que nem as influências do meio nem o equipamento constitucional determinam a personalidade – repetia com insistência [Alfred Adler]. – Eles constituem a estrutura e as estimulações a partir das quais o poder criador do ser molda a estrutura do seu psiquismo”. A título de exemplo, numa actividade que aconteceu num dos municípios da província do Cunene, alguém se dirigiu a mim nos seguintes termos: “ele é Venokanya, Kwanyama, mas não é da minha área, «Ombadja»”.

Não se pretende abordar de forma isolada por Angola ser um mosaico multicultural, mas relançar as bases para se debater abertamente e compreender se há algo de comum relativamente à onomástica antroponímica e, posteriori, restabelecer a dicotomia existente entre a onomástica como meio de manifestação e como meio de expressão.

Segundo Júlia Kristeva (1969, p. 28), “Na teoria de Peirce, o signo linguístico é uma relação triádica que se estabelece entre um objecto, o seu representante e o interpretante.”. Se ater-se ao signo linguístico «Deus», arbitrariedade defendida por Freud, aquele remete-se para «Nzambi» em determinada comunidade linguística, e «Kalunga», para outras. A dicotomia consiste no facto do signo «Deus» ser plural, isto é, quanto à manifestação, trata-se de uma Divindade, e quanto à expressão, há uma singularidade, pois que a sua concepção e interpretação é segundo a dúvida que se tem da sua suposta tonalidade de pele, se branca ou negra, ou do seu tamanho corporal, se gordo ou magro. Numa leitura hermenêutica, julga-se ser similitudes relativas em função da dimensão interpretativa de cada grupo etnolinguística.

Notar-se-á que, para determinada comunidade linguística, os gémeos chamam-se Kakulu e Kabasa. Para o povo kwanyama, é Mandume e Weyulo, Ngueve e Hossi para os Ovimbundos. Reter-se-á o denominador comum gémeos. Num olhar historiográfico, vê-se que a problemática em torno da onomástica antroponímica Bantu sempre dividiu abordagens, tendo em conta os diferentes processos a que se esteve sujeito, principalmente desde os reinados em que houve uma marginalização significativa imposta pelo analfabetismo funcional quando os reis do reino do Congo passaram para onomástica europeia de Nzinga Nguvo para o rótulo de «Dom João I do Kongo»; Muene-Soyo para o rótulo de «Dom Miguel»; Nzinga-a-Mbemba (filho de um dos reis) para o rótulo de «Dom Afonso». Viu-se também que a convivência existencial com a instituição cultural colonial deu continuidade a despersonalização antroponímica e, subsequentemente, a alienação em que, para se sentir assimilado, se devia ou se deve abandonar a instituição cultural angolana, desde os nomes, a língua, o vestir.

A breve incursão diacrónica é simplesmente para subsidiar o presente diálogo. Concomitantemente, as fronteiras dicotómicas entre a onomástica como meio de manifestação cultural e como meio de expressão é estreitíssima do ponto de vista ontológico. Na manifestação, todo o ser Bantu não morre, transcende de forma ilimitada e vasta. Na expressão, esta transcendência não é vertical. O espaço cósmico cultural angolano por não ser homogéneo torna difícil a coabitação entre a manifestação e a expressão. Neste processo transcendental, assiste-se, a prior, transcendência antroponímica genealógica, posteriori, a fisionomia antroponímica.

A Onomástica antroponímica é também um repertório do valor cultural de um povo, por sua vez, a consciência despida do conhecimento antropológico cria assimetrias entre as comunidades sociolinguísticas.

Por toda comunicação ser infinita, fica o repto de se ter cautela na abordagem e convivência entre a manifestação e a expressão.

 

BIBLIOGRAFIAS

Academia de Ciências de Lisboa (2001). Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. Lisboa: Autor
Kristeva, J. (1969). História da Linguagem. Colecção Signos
Schaffer, H. (1984). Adler e a Psicologia Individual Comparada, Dicionário do Inconsciente. Lisboa/São Paulo: Verbo