A hora H é para nós aquela hora em que tudo de bom acontece, é como a hora da verdade para o Petro de Luanda e adeptos; os adversários, por mais contundentes que sejam, evaporam e se desfazem no ar. É assim, como se nos apresentou o mês de novembro, cheio de bons ventos a soprar-nos a alma e empurrar-nos para o canto da permanência, se quisermos dizer, para o canto eterno das coisas. Embora estejamos no manto da dor, afinal, neste mesmo mês a vida permitiu que perdêssemos a substância de dois grandes homens, tradutores dum mundo incompreendido.

Os poeta-senhores António Panguila e Frederico Ningi ausentaram-se desta continuidade e decidiram partir para o imenso escuro de nada; mas é isso mesmo, Ningi não morreu. Os seus “Os Címbalos dos Mudos” e“Infindos nas Ondas”, a sua plástica arte e os retratos fotográficos com que nos brindou acorrentaram-no numa pedra dura a que chamo de tábua eterna; o coração de Panguila não parou, continua a galopar o “Vento do Prado” e está cicatrizado no “Amor Mendigo”; estes senhores não morrem, nunca mais morrerão,é por isso que desdigo o post choroso do excelentíssimo escritor João Tala: o kota chorova num post, no Facebook, a morte dos seus amigos e contemporâneos, suas palavras curtas eram mais longas que as Mabubas e mais profundas que a rarezada Welwitschia! Kota Tala, não é uma despedida insidiosa, a tua geração nunca vai, ela fica e ficará, atingiu o que os humanos não conhecem, e, por isso, nem“surreambulando”, nossas lágrimas chegarão. Kota, a tua geração não está a passar, vocês esculpiram-se nos versos dos ventos e na intemporal idade do ar!

Para artistas, a morte não passa de suposição, eles não morrem, mas uma ilusão qualquer rouba-nos a matéria, e insistimos cegos no choro, e por isso é que Ningi e Panguila estão entre nós, a testemunhar o exequível projecto literário, principalmente, desta vaga luminosa de jovens acrescer, a dar formas reais e continuidade na carga de sonhos de todos os artistas. A literatura, tal como as outras artes, nunca deixará de ser um espaço de humanização e socialização, e é por via destas que os jovens hoje vão escalando o Moco, pisar os espinhos desta continuação difícil e marcar um tempo que, embora preenchido pela volubilidade das coisas, ainda precise da pureza das artes. Acreditamos que devem estar aqui a sorrir pelos feitos da maior parte da juventude, esta que, apesar das trocas de pastas entre exonerados e nomeados, se conservou no seu afazer, edificando através das artes este ainda projecto de nação. Esta juventude vem sendo tal qual a retratada no manifesto do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, em 1951, através da Revista Mensagem: «é a mocidade de Angola, que abraça com Mensagem os seus irmãos do Mundo; são os jovens generosos como a própria generosidade, confiantes da missão que cada um tem a cumprir (…). (…) são jovens que não conhecem a descrença; que não acreditam no impossível e amam a Verdade; que lutam pela Justiça e crêem ainda na Solidariedade Humana e na Fraternidade Universal, ―são esses jovens de Angola, iguais a todos os jovens do Mundo (…)». Parece é mentira, mas, por mais que lhe chamem nomes, estes jovens estão a dar respostas alegres aos muitos desafios que lhes acometem os caminhos, estão a roer a adversidade com êxitos e a romper paradigmas. Gabamo-nos por isso e dizemos em letras garrafais que, para a nossa Literatura, se iniciou, há muito, a HORA H!

Novembro foi, para nós, os jovens, amantes ou“esposos” duma escrita que, aos poucos, vai tomando conta dos principais palcos das artes nacionais. Não são apenas livros lançados ou meras cartas ao mundo,são formas de se posicionar ante os movimentos da terra, estes de que dependemos meros homens ― são meros descartáveis neste globo, os que se desentendem coma sua cultura; só para ser específico: estes ministros apanhados a não ministrar, os cultores do vão, que aprisionam a independência intelectual. A produção artística neste espaço continua a singrar bravada, os atalhos são hoje uma via para a juventude eximir-se do pátrio poder, daí ainda ser admissível as muitas, outras, falhas, porém há já caminhos seguros, vias irreversíveis de divulgação e massificação das nossas artes. A Revista Palavra&Arte é um exemplo disso. É daqueles espaços que vem sendo a plataforma do que se produz:uma espécie de égide ― na mitologia grega: escudo mágico que Zeus utilizou na sua luta contra os titãs ―; não será também que a Revista Palavra&Arte seja um escudo dos artistas hoje? Enfim, o que nos leva mesmo a regozijar-nos são já esses resultados palpáveis, e vimos isso no último mês de novembro. Destes jovens só duvida quem não vê com a alma e se fecha no coração!

A literatura angolana vai erguendo novos pilares e conhecendo os seus mais novos protagonistas, vai tocando com as suas mãos cheias de suavidade, e seu tronco próspero vai sendo abraçado por uma geração de mangas arregaçadas ― uma geração repleta de jovens cultos e talentosos, que vai intensificando este tão amado fenómeno literário. É esta geração, a dita medíocre, que ocupou o mês e fê-lo privado, e deram-lhe um ritmo que Fernando Carlos denominou como sendo o da luta; e, numa intersecção automática, Oliver Quiteculo, engajado, trouxe à tona o folclore angolano, dando ao seu “Mahamba”(Vencedor do Prémio Literário António Jacinto) a cor do continente berço com narrativas realistas, parecendo ser um tal de professor (a)normal, o tal de Edy Lobo que, com crónicas, disserta aos mares e converte o sol em lua num instante,olha longe e pega fundo no “xigi” da nossa questão sócio-cultural. Estes e muitos outros fizeram daquele mês uma maratona de arte. É inconcebível dizer que não há jovens a colorir os céus, e, se assim for, olhem para o Movimento Litteragris, para a revista Palavra&Arte, para o Henriques Artes, vão ao fundo do Espaço Aplausos e depois digam à ministra que há gente que, mesmo“desministrada” dinamiza a cultura. É simples, é só irem mesmo! Ponto final.

In CRÓNICAS DE SAL