Quem conhece história de Angola tem noção do ‘papel da palavra escrita’ para a formação daquela a que hoje chamamos “Nação Angolana”. Essa palavra escrita que é a principal ferramenta da literatura (genericamente) foi usada durante muito tempo pelos nacionalistas angolanos como forma, primeiro, de expressar a resistência cultural, ou seja, negar a imposição de uma cultura que se tinha de adoptar como superior às outras, e posteriormente essa resistência cultural projectada e expressada em grande escala pela literatura, alargou-se para o plano de acção política.

De forma geral, contando com o facto de que a colonização foi um processo não exclusivo de África mas de várias sociedades espalhadas pelos vários cantos do mundo, a conquista da independência de todos os países que passaram por este processo, passou pela literatura, ou seja, grande parte da conquista pelas independências aconteceu na literatura. Esta era uma poderosa forma de resistência e de manifestar oposição aos regimes colonialistas e opressores. A história dá-nos a conhecer vários escritores cujas obras eram proibidas, por governos autoritários, de circular ou serem consumidas pelas pessoas por causa do perigo que representavam, por causa da forma como se difundiam ideias opostas a esses governos: tudo pela escrita.

A situação em Angola não foi diferente da situação dos outros países, se lembrarmos o papel da poesia na difusão de um sentimento de nacionalismo e expressão do sonho de ter uma nação longe das garras do colonizador, percebemos como a escrita, como a literatura foi fundamental para a formação deste país. Revistas como a Cultura (II) e a Mensagem (tanto a produzida em Luanda como a produzida em Portugal, na época, por jovens intelectuais a estudarem lá) tiveram um papel importantíssimo para a promoção e revalorização da cultura nacional que naquela época era ofuscada pelo regime colonial.

Da década de 40 até a década de 60 (do século passado) acentua-se, por meio da poesia uma luta de afirmação e revalorização da cultura e das raízes nacionais que daria origens ao nacionalismo angolano. Eram pessoas, de vários cantos que viram a necessidade de se fazer alguma coisa que libertasse o povo de um sistema que asfixiava culturalmente, socialmente e politicamente, era um pensar e questionar colectivo sobre o “Quem somos?” que levou vários escritores angolanos (e muitos tornaram-se políticos depois) a dar vida através da literatura ao “Sonho de Liberdade” e lutar por este. Era o sonho de ser livre para se poder expressar culturalmente (de todos os modos) sem censuras, ser livre para se poder andar e respirar o ar da terra sem medo, ser livre para que se construísse algo diferente daquilo que se tinha, ser livre para que posteriormente nós pudéssemos fazer parte de um país independente onde se pudesse dançar e cantar uma música da terra, falar uma língua regional sem medo, sem ser repreendido, sem se sentir oprimido.

A poesia de forte temática social naquela altura, era uma forma de denúncia, era o modo de dar voz àqueles que não tinham, era a tentativa de representar e descrever o máximo possível as vivências sofridas do povo sob o domínio da colonização. E através desse procurar descrever e representar o Outro colocando-se no lugar dele, estavam-se a criar sentimentos de amor ao outro, de fraternidade, estava-se a criar o conceito de Nação.

Escritores como Viriato da Cruz, Luandino Vieira, Agostinho Neto, António Jacinto e outros (alguns destes foram presos várias vezes pelo facto de difundirem a ideia de se lutar por uma nação) usaram a escrita como ferramenta imprescindível para se consciencializar e congregar o maior número de pessoas possíveis para luta pela independência. Usaram a poesia como forma de se apregoar o nacionalismo. A poesia esteve na base da construção e expressão do nacionalismo angolano, sem dúvida alguma e uma boa forma de se comprovar isso: é ler!

Entretanto, essa literatura que foi imprescindível nessa altura não parou no tempo, não se estagnou, desenvolveu-se, alargou-se tanto em termos de forma como de temáticas e os vários escritores bons que temos actualmente são a prova disso. A literatura continua fazendo parte do quotidiano dos angolanos, continua reflectindo as vivências actuais. Gerações se vão sucedendo e as formas e temáticas de escrita também. Nada, permanece igual, tal como a vida avança e rios fluem, a literatura angolana tem seguido o mesmo curso, tem andado de mãos dadas ao decorrer do tempo.

Ela continua sendo o reflexo da história, da vida, das pessoas!