Brincava no quintal de casa, quando ouvi uma voz chamando por mim:

– Cisola, vem comigo!

Assustada, saí a correr do quintal, gritando pelo meu pai.

– Papá, há uma voz no quintal.

Meu pai espreitou o quintal, fez uma busca com o olhar e não encontrou nada. E a situação repetiu-se cerca de cinco vezes. A estranheza daquilo fez o meu pai decidir marcar uma consulta com um psicólogo para me analisar. Aconteceria em nove dias.

– Eu não estou louca! – Afirmei com o rosto pintado de lágrimas. Mas a decisão do meu pai já estava tomada e ele não iria recuar. Esfreguei as mãos no rosto e corri para o meu quarto, de onde não saí até o dia da consulta.

Ao longo dos primeiros dias, nada aconteceu. Mas no quarto dia, a voz apareceu diante de mim. Falou sobre ele, e disse que era um vento que procurava o seu filho. Eu soube contar quantas vezes o rosto daquele vento inundou de lágrimas. Fizemos amizade. Contou-me muitas histórias e, antes do meu pai entrar no quarto, pediu-me para guardar segredo.

– Segredo é segredo! – Disse, antes de ele desaparecer.

Aquele meu rosto, outrora pintado de lágrimas, ficou enraizado de alegria pelas constantes visitas do vento.

– Levanta-te, filha, vamos ao hospital.

Entendi que era a preocupação de um bom pai, sim, um bom pai estaria preocupado com a sua filha naquelas situações. Eu acabava de completar oito anos de idade. Onde já se viu uma criança falar com vento? Interroguei-me e, de seguida, levantei-me.

– Vamos, papá, mas, digo uma vez mais, eu não estou louca!

Eu passaria por muitas análises, uma de cada vez, pois nada de errado se notou em mim. – Viu, papá? Eu estou bem!

De regresso a casa, fui direito ao quarto e aguardei a vinda do meu amigo Vento. Seria o último encontro entre nós, e ele havia prometido contar o último conto, só assim poderia contar ao meu pai. O Vento saiu como chegou pela primeira vez, prometendo-me: Um dia nos veremos! Lembrei da partida da minha mãe e, naquele momento, aprendi que nenhuma partida é eterna. Saí do quarto e fui à sala onde estava o meu pai.

– Papá, tenho uma história para te contar.

Sentei-me ao lado dele e, imitando os gestos, o falar e o sorrir do Vento, contei:

“Era uma vez numa aldeia liderada por um Rei muito mau, que reuniu todos os pescadores da aldeia e mandou-os pescar, pois aquele que pescasse o grandioso peixe de asas coloridas seria o aliado do Rei.

Interrogaram-se os homens. Para eles nada fazia sentido, porque tudo que eles pescavam sempre acabava de ficar com o Rei. O Rei apenas ordenou e ninguém tinha poder para o recusar. Lá foram os homens. Procuraram, procuraram e procuraram, mas nenhum peixe de asas coloridas foi pescado. Cansados, decidiram não mais procurar o peixe de asas coloridas e, para que não fossem punidos pelo Rei, encheram as cestas com muitos peixes. Ao regresso, cantavam o melhor semba da aldeia. Foi o pescador mais forte quem se ajoelhou e disse.

– Meu Senhor, não encontrámos o peixe que nos pediu, apenas trouxemos os peixes de costume.

Furioso, o Rei não mais queria aqueles homens como seus pescadores, então mandou matar todos eles. Mas o Rei precisava tanto do peixe de asas coloridas que ele mesmo se destinou a ir pescar o famoso peixe de asas coloridas. Para o seu espanto, o rio revelou-o que o famoso peixe se escondeu dentro do corpo de um dos seus pescadores. Arrependido, voltou para a sua aldeia muito triste.”

Quando terminei de contar, vi um sorriso a nascer no rosto do meu pai, porque ele já conhecia a grande lição do país dos ventos. Meu pai apercebeu-se que era um dos ventos que falava comigo. Desculpou-se e abraçámo-nos felizes.