A manhã tinha tido, até à entrada das sete horas, a cor das paixões humanas e a fala natural do vento – há sempre uma direção a seguir! Guiada pela parte em que a sombra dava vida ao metro quadrado da sala enquanto a luz do dia sem o peso do sol penetrava às persianas, apalpou o soalho com a nudez da palma dos pés, estava frio, embora o inverno fosse uma criança sem meses; no coração da sala encontrou, sobre a mesinha cristalizada onde moravam os livros selecionados há já algum tempo, uma fotografia onde se namoravam dois elefantes – as trombas, dadas uma a do outro, faziam lembrar as amarras da África de um pano qualquer, porém, sólidas como a idosa viuvez de Eugenia, a Maria. Nua, ainda, procurou tocar a profundidade daquela fotografia com os olhos, até perceber o silêncio ensurdecedor sequestrando a cor do ambiente e, na janela cujas persianas vendiam os mamilos aos luzentes corpos do dia, viu a imagem da qual as lembranças mais jovens lhe diziam histórias abraseadas no calor da anterior idade – das frestas gerava-se o rosto de Manel, a última companhia que lhe proporcionara a festa dos dias idos.

Esfriava-se ainda mais aquela sala, e a nudez com que se entregava àquela parte do dia contava, excêntrica, os passos da noite anterior. Era com a voz do mesmo silêncio que lhe despertara com que conversava. Minutos antes das seis da manhã, já o dia vestia-se, para enfrentar o asfalto no corre-corre da vida, enquanto daquela sala se apossava para insculpir o quimérico corpo de Manel sobre a virgindade das páginas do instante.

Esqueceu o ritmo daquela meia ousadia de seus botões no instante e pôs-se a marcar os primeiros passos da sala afora até apalpar o quintal com o dedão do pé esquerdo; sentira sobre seu corpo nu toda kizomba daquela segunda-feira e, então, entregou-se toda para a dança erotizada já sentida por outros na parte de fora. O sol não falava, sua voz tinha sido levada aos ares do cacimbo, e a música do dia era um vento lustrado pelas peripécias que a arrepiavam o corpo; chegou ao meio do seu quintal, onde o verso do tempo era palíndromo, e figuravam incircuncidadas árvores onde pássaros tocavam guitarra, a todos instantes, cujas partituras eram os fragmentos cronológicos dos vinte e sete anos de Ndala, cuja nudez em harmonia com o cantarolar dos pássaros enfeitava aquele lado sossegado do quintal.

Procurou nas utopias as fotos da festa onde conhecera Manel, jovem de porte atlético, pernas recurvas qual arqueação do anzol, um e oitenta na altura – era o atributo desejado – e os lábios grossos davam-lhe a característica do agrado de Ndala. Congregaram-se as imagens daquele homem no seu desígnio e pulou daí para os braços das vontades, entregando-se à fantasia e vivendo o resto das horas naquela meia morte.

Eram seis horas da manhã, e já se ouvia o barulho das viaturas que passavam a uma pequena distância da sua casa, as vozes dos vizinhos e doutras pessoas que tinham a rua como caminho para o serviço, porém ela continuava nua, no seu quintal, perdida na fantasia de estar sob o corpo pesado de Manel e a navegar com as mãos sobre o peito e costas daquele homem que lhe penetrava os olhos com vontade. Tocou-se para o mundo real quando um pássaro buscou paradeiro em seu abdômen, que se movia rápido pela ofegante respiração que lhe proporcionara aquela fantasia; assustada, levantou-se e correu para dentro do quarto buscando asilo nos seus lençóis; antes pôs-se dentro dum leve vestido e buscou perceber a realidade gravada naquele instante – saiu para vigiar se alguém vira o paraíso íntimo que carregava entre as pernas, e as fortunas que floresciam em seu peito. Nos seus lábios, brotaram agora, naquele pequeno intervalo, um miúdo sorriso, era a quase loucura que lhe movia àquela momentânea morte; na porta, entre o quintal e o tronco interior da casa, ouviu uma voz vindo, de uma parte incerta, a contar-lhe o prazer do dia e a brevidade da festa que dera no centro do quintal…

− Teu gemido mapeou o continente desta minha leve existência, lembrou-me o eco da mulher Angola que tenho escondido sob a áfrica desejosa em mim.

Assustada, recuou três passos e, trêmula, fez saber-se.

− Quem é?

− Esquece! Saberás só quando o relógio cantar a sétima hora.

− Diga-me, ao menos, onde estás!

− Estou no porto a que me proporcionou o teu gemido, expresso-me através do suor que expeles pela pele alegre que tens agora.

Se lhe carregaram de acanhadas lágrimas os olhos, e tinha agora a pouca existência de pêlos, eriçados por aquela voz penetrante, porém, estreita como a semente da jinguenga. Ndala, retorquiu. Primeiro, engelhando o rosto, duvidava da veracidade do facto. Segundo, movida ainda pelo resquício da meia loucura a que se entregara, soltou sua voz no vão do quintal.

− Só podes ser uma ilusão!

− Ilusão? Sou a parte sem nome da sua história. Conheço os lugares que te contornam o corpo e até os devaneios a que te entregas!

− Diga! – Novamente assustada, porém, curiosa, Ndala pôs-se agora por inteira no quintal e dispôs-se a ouvir.

− Teus seios são como a marginal, magníloqua, atraentes danças à vista de todos; teu corpo, nu, epiloga a independência; em cada centímetro escreve a beleza e a polida aldeia no espírito de cada cidadão desta praça.

− Mas… desculpa, não entendo!

− Manel é só o teu sonho, é uma ilusão! Sou… eu… sou a real idade desta tua ainda miúda vida. Embora seja um pássaro, aqui, nesta árvore, conto com a guitarra do tempo a tua essência cujo destino passeia mudo em ti.

Ndala, sem medo, agora considerou a voz do pássaro como sendo a verdade, a cultura de uma pátria, e que sua meia loucura, aquela rápida estadia com Manel, era como a morte de um país que, levado pelas curvas das ilusões, se esqueceu de si próprio.