Por tudo que ao longo de tudo vai se caracterizando no seio dos escritores, insisto nesta pequena dissertação, iniciando, porém, com a pertinência da pergunta feita por Lima (1954): de que se serve o homem das letras para realizar seu génio inventivo?

Ao longo dos anos, tem-se notado, cada vez maior, o número de jovens a entrarem naquele que é chamado de o mundo das letras, onde reinam os sábios e perduram os aprendizes de sábios; para muitos outros, este facto constitui um grande problema e, para outros, muito pouco, o mundo das letras, por tudo que é, vai, por si só, filtrar e deixar para si, com devido grau de pureza, quem mereça. Alguns, os sábios dos sábios deste mundo, vão mesmo deixando algumas pitadas de regras – se podemos assim considerar –, porém, com a típica mania das grandezas que nos acolheu a todos. Entretanto, os estereótipos anulam-se ou não devem existir quando a arte for a pedra angular de uma passagem dissertativa, seja sobre o tapete do nosso espaço individual seja sobre as conivências que nos propõem as relações inerentes ao homem enquanto ser feito de interacções realizadas durante o seu itinerário; ou, melhor ainda, as abordagens sobre arte devem estar despidas das presunçosas ideias que, aos poucos, vamos vendo a serem criadas pelos ditos grandes escritores e mestres da arte literária entre nós.

No entanto, a resposta que Lima (1954) disponibiliza à supracitada pergunta «Não é, por natureza, nem do movimento como o dançarino, nem da linha como o escultor ou o arquitecto, nem do som como o músico, nem da cor como o pintor. E sim — da palavra» e convida aos ditos e aos já consagrados homens das letras a (re)pensarem o enquadramento daquilo que lhes é material de existência, a palavra; neste ínterim, a palavra é, pois, o elemento material intrínseco do homem das letras para realizar sua natureza e alcançar seu objectivo artístico, como nos faz entender Lima (1954). E então, como o homem das letras (da arte literária) pode realizar a sua natureza?

Enquanto forma ou meio de manifestar cultura, a literatura, como realçou o crítico literário e historiador francês Taine (s.d., como citado em Anónimo, 2014), obedece a leis inflexíveis: a da herança, a do meio, a do momento. É um facto de que por tudo que sugere ressalva que “a obra literária é feita a partir das experiências de vida do autor em todos os aspectos que sua cultura lhe oferece, e não à revelia deles” (Filho, 2011, p.17). Assim sendo, as leis da herança, do meio e do momento constituem, concomitantemente, o todo de um conjunto, também subjectivo, de fins, que perfazem a natureza de todo e qualquer homem, e que, para os da arte, se torna imprescindível recorrer a essa linha definidora, primeiro, como campo de exploração e, segundo, como objecto via de (re)criação, afinal, como qualquer outra arte, literatura é criação.

A literatura “é o resultado de um trabalho particular feito com a palavra” (Filho, 2011, p. 12), de tal modo que encontramos nela um modo específico de funcionamento da linguagem, ou, como ressalva Eagleton (1985, p. 4), a literatura “transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala quotidiana”; como sabemos, qualquer linguagem em uso baseia-se em quase (in)finita multiplicidade muito complexa de discursos, distinguidos conforme a região, classe, gênero, situação, etc., os quais, de forma alguma, podem ser simplesmente reunidos numa única comunidade linguística homogênea. Porém, é na literatura em que esta linguagem e/ou a fala quotidiana, já transformada e intensificada, vai constituir o objecto de (re)criação daquilo que chamamos de herança que, pelas leis dinâmicas da natureza, vai sofrendo o que chamamos também de transformações inegáveis, pelos impulsos do meio e dos incidentes do momento. Todas as já conhecidas transformações da linguagem inerentes aos contextos vão ser afastadas, dentro da literatura, de todos os parâmetros que a delimitam e a coordenam, dando-nos a ideia de que o tipo de linguagem, na literatura, vai ser aquela que chama a atenção sobre si mesma e exibe sua existência material; ou, se preferirmos, é na literatura onde é vital o uso criativo da linguagem, como afirma Eagleton (1985, p. 48).

E, como é a palavra a substância material para a realização do homem das letras, assertamos que, enquanto a mais alta expressão do pensamento ou enquanto índice da ideia que representa, por ser o elemento intrínseco da arte literária, quer na oralidade quer na escrita, a palavra vai constituir a pedra angular da realização natural do homem das letras. Mas é ao trato especial da mesma, acoplado à sensibilidade, à imaginação, à intuição, ao intelecto, à percepção particular da vida que se vai dar às manifestações artísticas a marca de um tempo, de um lugar e dos artistas que as criaram. Pois, pela unificação destes elementos, vai encontrar-se e mostrar-se o que se estabelece, depois, como natureza do artista. Com efeito, somos levados por isso, a defender assim, que todas as formas de produção artística vão constituir uma forma de memória, pois é através delas que são preservadas o passado, os costumes, a identidade, as tradições, as histórias, digamos, a cultura de um povo ou de um indivíduo.

No entanto, também acreditamos que a realização do homem das letras passa pela boa convivência que mantem com o seu espaço imaginário, ou seja, a representação subjectiva da herança – o campo de exploração já referido –, sendo que as culturas se revelam tanto materiais quanto imateriais (intangíveis); toda produção artística, enquanto manifestação cultural, estará ligada e condicionada a diversos factores que participam para sua constituição, entre elas a vivência do artista e sua época – aqui se assenta, e muito bem, a ideia já passada sobre os estereótipos, pois, embora as intermitências universais já se tenham mudado, a arte é firme enquanto forma de expressão humana, de representação de ideias e de ideais. Não como muitos nos querem fazer entender!

E, por isso, torna-se fácil afirmar que a produção cultural deve ter alguma vinculação connosco e, sendo a arte literária uma forma desta, ela deve estar relacionada com a nossa essência no tempo em que as produzimos, pois as obras de arte expressam um pensamento e uma visão do mundo –

A criação literária não se realiza num universo adâmico, sob o signo de uma espontaneidade e de um primitivismo absolutos, em que apenas figurariam como factores necessários um instrumento linguístico e um desígnio expressivo. A criação literária perfaz-se no seio de uma tradição técnico-literária e histórico-cultural, cujos valores e cujas forças o escritor não pode desconhecer, quer para os aceitar e revitalizar, quer para os negar, os contestar, os alterar mais ou menos substancialmente (SILVA, 1979, p. 39) –

é daí que nasce a tendência da arte: provocar uma forma de inquietação no observador, uma sensação especial, vontade de contemplar, admiração emocionada ou uma comunicação com a sensibilidade do artista. E, atendendo a isso, ressaltamos que as artes, em especial a arte literária, é um elemento “definidor” de identidade de um povo, de um grupo social e de um indivíduo.

Portanto, se ao longo dos séculos foi se assumindo que a escrita seja uma representação artificial e derivada da fala ou um suplemento da fala, como afirmou Rousseau (como referido em Culler, 1999, pp. 17-19), entendemos que a escrita, como um suplemento da fala, seja uma diminuição ou acréscimo das ideias, ideais e via de manifestação doutras formas abstractas do homem, ao que nunca a fala poderá se sobrepor; que, como continua Lima (1954), «a palavra, em literatura, não tem o nosso valor da palavra na vida corrente. A palavra, na vida quotidiana ou nas actividades não-literárias, tem valor utilitário. Na literatura tem valor ontológico» E, se é por via da escrita, pela palavra, que se vai pronunciar o homem das letras, sugerimos a este o (re)encontro com as suas heranças (tanto materiais quanto imateriais), o contacto profundo com as entranhas do seu meio e a conversar com a nudez do momento, pois é pelas leis da relação com tais elementos que o génio inventivo, através da sensibilidade, da imaginação, da intuição, do intelecto, da percepção especial da vida, que se vai representar a herança, o meio e o momento, estabelecendo-se, assim, espontaneamente, a realização do que chamamos de a natureza do homem das letras.

BIBLIOGRAFIA

Anónimo. (2014). Literatura. Recuperado em 7 Agosto, 2018, de https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Literatura

Culler, J. (1999). Teoria Literária: uma introdução. São Paulo: Beca

Eagleton, T. (1985). Teoria da Literatura. (6ª ed.). São Paulo: Martins Fontes

Filho, A. C. (2011). Teoria Literária. (Vol. I.). São Cristóvão: CESAD:

Lima, A. A. (1954). A estética literária e o crítico. Rio de Janeiro: Agir

Silva, V. M. A. (1988). Teoria da Literatura. (Vol. I., 8ª ed.) Coimbra: Almedina