O autor recolheu narrativas orais em Salvador do Congo (Zaire), Malange, Vila de Salazar (Ndalatando) e em Luanda. Nesta cidade, conheceu a personagem principal da história em referência na qual se propõe um diálogo entre o novo e velho num tempo de transformações decorrentes da chegada dos colonos.

Por conseguinte, a reconfiguração do espaço, outrora ocupado pelos africanos, implica a substituição das estruturas antigas pelas novas estruturas: coloca-se o asfalto sobre a areia vermelha, árvores novas crescem no local onde havia mulembas e muxixes; edificam-se passeios de pedra e constroem-se casas modernas habitadas por portugueses no lugar onde existiam casas cobertas de zinco.

As transformações em curso acontecem durante a ausência de Salambiô. No seu regresso, o velho contador de histórias depara-se com um mundo edificado sobre aquele que conhecera e trazia no seu imaginário.

Na rua onde se jogava a bola e existiam embondeiros que os rapazes trepavam foi construída uma estrada por onde circulam diariamente viaturas em alta velocidade; nela caminham pessoas apressadas e desinteressadas em ouvir as narrativas do Reino do Kongo contadas pelo velho cujo “regresso” desperta a memória da velha Engrácia que fixa o olhar sobre o homem: “A velha ficara supreendida como quem sofre um choque ao ver aquela figura de outros tempos a lembrar-lhe acontecimentos de há muito enterrados na memória” (Guerra, 1958, como citado em Marque e Ferreira, 2013 p. 166).

Na sociedade colonial, onde a mullher africana é instrumentalizada pelo homem, outras vezes preterida por este, Talinha é uma mulher honrada por ser casada com um português (Soromenho 1988, 2014, 2015 e Vieira, 1958 como citado em Marques & Ferreira, p. 84).

A união matrimonial entre o homem branco e a mulher africana propicia a interpenetração cultural. Contudo, se por um lado, regista-se a imposição de elementos culturais exógenos (a título de exemplo, o doutor Pereira proibe o uso de panos a sua cozinheira e exige que ela utilize vestido), do outro lado, face a agressão cultural, verifica-se a persistência do endógeno, particularmente, a presença dos elementos linguísticos africanos (como o kitari) na língua portuguesa como indicador da resistência cultural por meio da língua.

A história tem como pano de fundo o aumento da população branca na colónia onde são criadas algumas comodidades para acolhê-la. Como consequência, deterioram-se as condições de vida dos africanos que são transferidos das suas zonas de origem para zonas inóspitas e cresce o sentimento de revolta contra os colonos (usurpadores da terra) que, diante da insubmissão dos colonizados, agridem-nos.

O Regresso Salambiô desperta lembranças de um passado presente na memória que fixa a imagem do velho que enlouqueceu em virtude da lesão cerebral provocada pelo espancamento de que fora vítima e atingiu a sua cabeça.

Condensado na imagem e intertextualizando com a trilogia de Camaxilo, que assinala o uso da violência contra os africanos, a conquista, a ocupação e a transformação do território pelo colono-civilizador, o conto apresenta-se como um registo das mudanças introduzidas numa sociedade onde a urbanização e a aculturação atendem os interesses coloniais.

Bibliografia
Marques, I. e Ferreira C. (2013). O Boletim Cultura e a Sociedade Cultural de Angola. Luanda: União dos Escritores Angolanos.
Soromenho, C. (1988). A Chaga. S/l: Mercedes Castro Soromenho. 4ª Edição. Luanda: União dos Escritores Angolanos. (2014). Viragem. Luanda: Ministério da Cultura.
(2015). Terra Morta. Luanda: GRECIMA.