Depois de algumas boas cargas de água corridas por baixo da ponte sobre jovens literários, propriamente sobre quem são, como são artisticamente, eis que nos apercebemos de uma outra categoria, se assim podemos dizer, anterior àqueles que a denominamos de ADOLESCENTE LITERÁRIO.

Tal como no desenvolvimento biológico e psicológico do homem, que nasce, passando pela infância, adolescência e juventude ou fase adulta, o artista das letras também vive estes momentos, adotando características parecidas às de uma criança, adolescente e/ou jovem-adulto. Mas, entre as três fases, a adolescência é aquela do descobrimento, dos mergulhos desenfreados em tudo que vê e ouve, sem receio e a calma que a maturidade descobre depois das quedas da experimentação descalculada. É a fase intermédia e vista, biológica e psicologicamente, como a melhor. Só não sei se também é vista da mesma forma na literatura.

O adolescente literário escreve sobre tudo e não tem ainda um estilo. Adota qualquer estilo – o que mais bate ou o que lhe chama atenção, ou, ainda, o que recebe mais elogios e admiração dos leitores-internautas – para cada texto e, às vezes, mais de um para um único texto. Juntando a misturas de estilos, que ainda são alheios, escreve textos enormes, acabando por se perder entre a ideia principal e as secundárias, já que as mesmas ficam indefinidas. Mas talvez escrever textos enormes não seja problema! Sim. Definir o limite do texto sem destruir a ideia inicial e sem parecer que ficou algo por se explorar é de adultos. Ao contrário desses, os adolescentes fumam mais do que deviam, porque estão numa fase experimental. Ou seja, escrevem enormidades para esconder prováveis falhas que serão cobertas pela admiração que o tamanho do texto venha causar aos adolescentes leitores.

Já que estão numa fase de construção da personalidade, aqui vista como estilo, identidade artística, demonstram pouca humildade e capacidade de ouvir o outro, principalmente o jovem-adulto literário, que é visto por eles como o “do contra” de tudo que fazem e pensam. Por isso, dificilmente aceitam opiniões e críticas aos seus textos e livros. Esta falta de humildade leva-os, de forma um pouco inconsciente ou com a consciência própria da sua fase, em choques com adultos literários sobre literatura, esquecendo-se eles que biologicamente têm idade de serem seus pais.

Particularizando, encontramos também aqueles que apenas conseguem construir protagonistas adolescentes cujas acções giram à volta de um cenário infanto-juvenil que fica difícil indicar tais textos e/ou obras para adultos leitores ou leitores adultos. Porém, não se enquadram na categoria de literatura infantil, porque não vêem prestígio nenhum aí ou porque não foram capazes de tal análise fruto da sua fase de crescimento. Todavia, não queremos dizer que isso baste para que o escritor seja um adolescente literário, pois seria um argumento fraco, visto que qualquer jovem-adulto literário, por várias razões, pode construir tais personagens. A questão encontra-se na repetição deste aspecto em obras consecutivas. Tal problema deixaria de existir, se, desde o princípio, o adolescente autor enquadrasse a sua obra na literatura infantil, demonstrando, com isso, maturidade. Atitude de um jovem-adulto escritor.

Em consequência do último parágrafo, somos obrigados a dizer que estes adolescentes têm dificuldades em classificar os seus textos e/ou obras, demonstrando não saber o que escrevem nem preocupação em saber, tudo em consequência desta fase de descobrimento.

Pior do que aqueles, são os adolescentes escritores que escrevem sobre uma realidade que nunca viveram. Imitam uma realidade que não é real para eles. O espaço dos seus enredos são países europeus, asiáticos que nunca visitaram. Na arrogância da sua idade literária, dizem que é fruto da imaginação, que podem imaginar, porque é arte.

São tantas características ou tipos de adolescentes literários que nos levariam a gastar mais caracteres e páginas.

Porém, precisamos estender esta abordagem, da adolescência, para editores e leitores. Mas interessa-nos os editores pela carga de editoras que vêm surgindo nos últimos anos, deixando os leitores para uma outra análise. Estas novas editoras entram no mercado pela emoção da moda, aproveitando alguns favores financeiros e/ou de algum foco de empreendedorismo que ainda assim não é suficiente para subtrair as especificidades que se precisa ter para criação e gestão de uma editora. Entre vários comportamentos de adolescentes editores, entala-nos a garganta a incapacidade de descobrir talentos que são obrigados a reconstruirem obras dos escritores que editam. E como é que eles se declaram? Reagem de forma infantil a toda crítica que a obra sofre, levando mesmo a questão para o lado pessoal quando, na verdade, é apenas uma questão de leitura ou decodificação da obra particularizada. Tais comportamentos são propriamente de adolescentes, sem personalidade definida e que se sentem ofendidos por tudo e por nada.

E se alguns se sentem obrigados a reconstruirem a obra, outros, com o foco exclusivo no lucro, editam quem lhes paga, e quem paga são os filhinhos de papai que nascem a escrever, porque familiares e amigos, que nem leitores sabem ser, lhes enchem o ego de elogios sem fundamento nenhum. Ou seja, estes são outros adolescentes, porque acham que com dinheiro podem ser escritor. E no final das contas, o talento não é tido nem achado, porque não tem onde cair morto. Contenta-se com o Facebook.

Embora tenhamos “fugido” para os editores, estes também são artistas, de tal modo que também devem ser enquadrados no grupo dos adolescentes literários.

Por fim, cabe-nos alertar que os argumentos aqui expostos são uma visão singular do que nos tem parecido essa nova vaga de escritores que, embora adolescentes, muitos deles, são verdadeiros talentos tanto que esperemos a evolução para a fase jovem-adulta. Mas, para isso, sugerimos que busquem da idade biológica de jovens-adultos um pouco de maturidade para a arte literária, para que esta evolução se efective claramente dentro do seu tempo.