Embora vivamos num país africano, cujas manifestações artísticas são uma autêntica odisseia para os seus fazedores, principalmente da sétima arte, podemos ouvir de pessoas próximas insatisfações porque o filme X ou Y não ficou de acordo com as suas expectativas criadas a partir da leitura do livro no qual foi inspirado. Ora porque não imaginou o cenário daquela forma, ora porque aquela cena foi limitada em questão de emoção, ora porque isso, ora porque aquilo. Porque é que tal acontece, se os filmes adaptados nos propõem imagens mais reias em relação às do livro? Inicialmente, porque o filme limita a nossa imaginação, dá-nos tudo, sem lacunas para o espectador preencher.

Quando lemos um livro, um conto, um romance, propriamente, sentimo-nos dotados de certos poderes que nos permitem construir imagens a partir do que nos é proposto naquele livro, conto ou romance. A construção do aspecto físico e mental dos personagens ou dos espaços onde se desenrolam as acções são algumas situações com que se deparam os leitores. Alguns chegam mais longe, imaginando as emoções sentidas por um ou outro personagem numa determinada cena, assim como conseguem imaginar como é a estrutura da casa, a mobília no interior, adornos, esculturas, etc.

Por outro lado, tais construções variam de leitor para leitor. Segundo a técnica de recepção, os leitores têm diferentes leituras de uma mesma situação, porque são pessoas diferentes, com ideias diferentes, às vezes, cultura e hábitos diferentes, mesmo fazendo parte do mesmo espaço étnico ou geográfico. Ou seja, todas as experiências que o leitor tiver, consequência da sua relação com o mundo, com a vida, com perdas e vitórias e com leituras anteriores interferirão na leitura do novo texto, pois a compreensão deste novo será construída com base em toda essa experiência. Como cada leitor é único, por conta das suas experiências e leituras, não esperaremos a mesma descodificação de uma mesma obra por mais de um receptor.

Por esta ordem, os filmes resultados da adaptação a livros são, a prior, o resultado da leitura de um único leitor que chocará sempre com as ideias, imagens criadas por todos os outros leitores, que tiverem contacto com os filmes, havendo uma disputa entre o leitor e o espectador  numa única pessoa. Resultado disso: haverá sempre decepções para alguns, os mais orgulhosos, e para outros, nem sempre, dependendo de como venham receber o filme, mesmo que contradiga a sua leitura.

Por outro lado, ao contrário de um conto ou romance, o cinema, que tem a imagem e o som como elementos fulcrais para sua criação, limita os leitores no quesito da recepção. Quer dizer que um filme é menos rico em lacunas que levam à imaginação do espectador. O espectador tem pouquíssimos espaços para imaginação, pois a mesma lhe foi tirada com as imagens e com o som que o cinema proporciona. É claro que isso varia de filme para filme, mas, no geral, é isso. Ou seja, as imagens, com o auxílio do som, faz do cinema uma arte, pelo menos em comparação com literatura, muito pronta e objectiva em alguns aspectos. E quando for adaptação a um livro, choca com vários outros filmes resultado da leitura deste livro.

Em suma, nunca tive tanta certeza de que ninguém agrada a gregos e a troianos, ou seja, esta situação cai que nem uma luva neste ditado.