Fora dos postulados universalmente conhecidos sobre o conceito de análise literária, entendemos ser o tecido interpretativo que antecede a crítica literária. Não se chega à crítica sem um entendimento/­conhecimento ligado à análise literária. Portanto, não se está a marginalizar as demais variantes, por exemplo, os estudos literários, a historiografia, a teoria da literatura, a psicolinguística, a sociolinguística entre outras, que concorrem para a efectivação da crítica literária. Mas toda crítica literária deverá partir de uma análise literária.

Contudo, análise literária subentende conhecer o campo de abordagem após uma incursão explicativa e descritiva do texto. As várias leituras, dentre elas, as de contacto ou as de superficialidade e as interpretativas são condições primárias “sine qua non”, para se absorver as ideias primárias, secundárias e terciárias incubadas e reflectidas no corpus da obra. Análise literária poderá ser designada também por leitura em decomposição das estruturas que formam o texto.

Tanto análise literária como a crítica têm o texto como eixo de partida. Isto é, o texto é razão de se ser destas nomenclaturas. Assim sendo, a leitura textual, em nosso entender, para o assunto em abordagem, implica necessariamente à interpretativa. Entendemos, em nossa comunicação, que o conjunto dos enunciados literários, que não deixam de ser linguísticos, submetidos à análise como meio para se chegar à crítica literária compreende o campo da textualidade. Assim sendo, o texto poderá ser também uma amostra do comportamento linguístico que congrega as suas variantes e variáveis. Portanto, na esteira semiológica, o texto é um enunciado plurissemiótico com sequência lógica, um sistema significante constituído por manifestações de palavras orais ou escritas, imagens, sons e gestos.

Enquanto análise literária se preocupa em prescrever, minuciosamente, as partes estruturantes do texto sem que se faça, necessariamente, um discurso valorativo da obra, por sua vez, a crítica é entendida como sendo análise com fundamentos em que subjaz o juízo de valor inerente e intrínseco à obra, assente na ética valorativa, nos preceitos que concorrem para que uma crítica literária tenha razão de existir. Porém, há que se ter em conta a existência de componentes comuns às obras literárias que são específicas de cada género: intrínsecos, os significados nos componentes formais; e extrínsecos, como contexto cultural, político, económico, não como mecanismo de medição, e sim como meio auxiliar para a compreensão da obra.

Análise literária parte de uma lógica sequencial, factor que implica um método explicativo de cada etapa, de cada detalhe e cada aspecto. Saber o que está na base da estrutura interna do texto. Analisar o texto e não, necessariamente, avaliar o texto propriamente. Já a concepção da crítica literária é de maior complexidade por ser pautada pelo método avaliativo-explicati­vo. Daí que, em função da capacidade hermenêutica, crítica poderá partir do conteúdo para forma ou da forma para o conteúdo, e não da lógica. A mesma pressupõe o despojamento das nossas categorias sensoriais e não subentende percorrer de forma vaga e ingénua sobre um texto. A primeira é para os leitores mais apurados, com faro literário acrescido; a segunda para os leitores tradicionalistas, que defendem a forma e não o conteúdo.

Portanto, não se pode descartar a possibilidade, tanto na análise como na crítica, de que possam existir obras que tenham sido analisadas com facilidade e criticadas com dificuldade ou ainda outras com maior facilidade, aquando das primeiras abordagens, que posteriormente lhes são dadas um outro entendimento. Por isso, o prévio, o velho e o novo “vasto” conhecimento/­entendimento deverão ser questionados, analisados e actualizados sempre dentro dos postulados do cientificamente aceites.

De modo geral, constrói-se a análise na esteira da leitura, interpreta-se o conteúdo sem omissão e sem a valoração discursiva; e analisa-se o texto como um meio singular de expressão comunicativa.

Em suma, análise literária consiste na desmontagem peça a peça do texto literário, no sentido de conhecer as partes que compõem as estruturas. Análise é o entendimento sobre a obra, a crítica, o juízo sobre o entendimento.