Desde já, aproveita-se para se esclarecer que se trata de uma abordagem em volta de uma discussão embrionária, mas necessária, uma vez que alguns criadores demarcam, propositadamente, a criação da realidade. Ainda há os que apelam aos leitores a não relacionarem a obra à realidade ou aos factos reais.  Sem a presunção do saber absoluto nem do relativismo barato, até porque na ciência não há espaço para presunção, refuta-se a ideia de que a criação surja do nada. A criação é em si a realidade, não entendamos como a própria realidade em seu estado primitivo, porque, se assim o for, já se não tratará de arte, mas de um relatório realístico. 

A presente análise psicossocial parte do princípio de que em Rosas & Munhungo, concretamente, em Regina, conforme as nossas lentes cognitivas, se evidencia a presença transitória da imitação externa à imitação metafórica que subjaz, em parte, no discurso psicossocial até certo ponto dualista, ora externo à obra ora interno à obra. Vejamos que em função do processo histórico de Angola, a palavra “arder”, além de transpor, quase sempre, os tecidos normais da sociedade, é um gatilho no subconsciente de um segmento pertencente a esta sociedade. Por exemplo, o parágrafo inicial em Regina despoleta este desiderato:  «Nunca tinha visto uma mulher a arder, eu disse em minha metáfora e toda agente ficou de esquisito a alvejar-me./–Você não esteve cá no tempo da guerra, pois não?». Contudo, por mais que se queira separar, ou que se separe, o criador da criação, o narrador da narração e o sujeito discursivo do discurso, existe sempre uma correlação.

O que foi, por nós, exposto não é para que se confunda a criação do criador, mas que se estabeleçam as devidas fronteiras mesmo que advenham a ser implícitos. Daí que, um olhar externo à obra é também um substância para que se fundamente, quase sempre, a relação existente entre os factos existenciais e os inexistenciais à obra. Por isso, entendemos que, no estudo de uma obra, qualquer que seja, o externo é também chamado para que se efectivem outras formas de leitura. Porém, não  como meio de aferição ou mecanismo avaliativo e qualitativo da obra. Por exemplo, na retórica do discurso personático em volta do morfema “guerra” subjaz a imitação externa impregnada no conteúdo existencial, uma vez que em fase de guerra muito dos angolanos ausentaram-se do país. A coincidência acaba por ser um facto irrelevante na presente abordagem, em função das várias etapas vividas por Angola. Continua, em seu discurso personático: «Eu sei que nas batalhas, em qualquer parte do mundo, tal como no inferno, ardem seriamente mulheres e outras pessoas».  Os recortes substanciais “em qualquer parte do mundo; tal como no inferno; e outras pessoas” funcionam como ponte de transição da imitação externa à imitação metafórica. Sabe-se  a prior que existe um João Tala no narrador dedicado à saúde. Embora Massaud Moisés entenda que o leitor é obrigado a concordar com as normas estabelecidas pelo ficcionista, entendamos que, por enquanto, não existam normas estabelecidas entre o leitor e o ficcionista, mas leituras plurissignificativas em função do nível da capacidade interpretativa de cada sujeito-leitor.

Neste processo transitório, a notoriedade da conflitualidade existente entre o narrador e o discurso personático é indubitável: «Aproveitei a brecha, eu sou médico, menti e ela mais educadinha “ah que bom, podia contar logo doutor, anda venha.”». No trecho referenciado, o discurso existencial é evidente através da imitação externa por existir uma relação exposicional entre o narrador e o discurso personático. Entretanto, a tese defendida por Umberto Eco de que da obra da arte se transpira completamente a personalidade e a espiritualidade originais do artista, embora a palavra “completamente” abra algumas reticências, encaixa-se pelo facto de o narrador ser mesmo médico. Mas, em forma de auto-negação, serve-se da forma verbal do verbo “mentir” para desatar o nó entre o existencial e o inexistencial, o que perfaz o processo transitório da imitação externa à imitação metafórica.

Em gesto de reforço, a criação literária, quer seja em versos ou prosa,  terá como esqueleto a realidade mesmo que seja ficcionada ou imaginária, pois que nada surge do nada. A presente comunicação é fragmento de uma análise que ainda requererá reestruturação, quer ao nível do conteúdo, quer ao nível da pesquisa, das suas variantes e do próprio discurso analítico a que nos propusemos.

Bibliografia

Tala, J. (2019). Rosas & Munhungo. Luanda: UEA

Eco. U. (2011). A Definição da Arte. S.C: Edições 70, LDA.

Moisés, M. (2008). Análise Literária. 17ª Ed. São Paulo: Cultrix