Toda e qualquer língua modifica-se à medida em que se afasta do seu berço e indubitavelmente sofre alteração nos níveis fonológico, morfológico, sintáctico e semântico.

A maneira como os angolanos pronunciam as palavras não é igual à dos portugueses, pelo facto de a língua sofrer alteração a nível fonológico. Ora, mesmo com esta alteração, será que é possível falar de lusofonia em Angola, onde parte das palavras do português que se fala nessa circunscrição e a forma de produção fónica é diferente de Portugal?

Para Dias, Cordas e Mouta (2007, p.10),

“Um território lusófono é um espaço geográfico onde se fala português. Constituindo um ganho irrefutável para todos, a construção da lusofonia representa simultaneamente um forte traço de união e de respeito pela diversidade dos povos que, nos diferentes continentes, falam a nossa língua. Os países lusófonos do continente africano são genericamente designados por PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa)”.

O que se depreende da posição defendida pelas autoras é puramente a perspectiva política, descurando a possibilidade de existir outra forma de falar a língua portuguesa, embora reconheçam a existência da diversidade cultural entre os povos que constituem o grupo PALOP.

Para reforçar o carácter político da língua que o colonizador impôs aos colonizados, criou-se a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) – uma organização internacional – a 17 de Julho de 1996, embora Ponso (s/d, p.150) afirme que “em 1989, por exemplo, criou-se a CPLP e sete anos depois, houve a criação dos PALOP”. Com sede em Lisboa, tem por finalidade reunir os países lusófonos em torno de três objectivos gerais que se encontram definidos nos seus estatutos:

  • Concertação político-diplomática entre os estados-membros;
  • Cooperação económica, social, cultural, jurídica e técnico-científica;
  • Promoção e defesa da língua portuguesa.

A lusofonia resulta da conjugação de duas palavras: uma que se reporta a Luso – sinónimo de lusitano/Lusitânia, ou seja, português/Portugal; e a fonia que provém do grego e refere-se à língua oral. Todavia, parece ser um espaço linguístico-cultural que se afirma ao nível político-institucional, através da CPLP.

Neste caso, só se torna um país lusófono aquele que fala tal como os lusitanos/portugueses.

Para Lopes (2007),

“A Lusofonia, como conceito, reveste-se de uma dupla faceta: 1) por um lado, surge como uma noção geral intelectualmente elaborada pelas elites, vivencialmente percepcionada e intuída por segmentos significativos das populações e, em maior ou menor grau, explicitamente assumido pelos responsáveis políticos na multiplicidade dos vários graus das estruturas políticas dos vários Estados; e 2) por outro lado, é, inequivocamente, um conceito em processo histórico de construção, em plena projecção para o futuro”.

O sistema vocálico lusófono apresenta algumas características segundo os seguintes parâmetros referentes ao tracto vocal supralaríngeo: 

  • Estado do véu palatino – oral e nasal; 
  • Zona longitudinal de articulação – palatal, central e velar;
  • Abertura vocálica – aberta, média e fechada (Undolo, 2014, p. 183).

Quanto às características apresentadas, analisaremos o sistema vocálico quanto à abertura.

Angola é um país que, a par de outros, não fala o português tal como Portugal, embora consagre na sua Constituição da República, carta magna do Estado, no artigo 19 nº 1, o português como sendo a sua língua oficial. E por esta razão, há um grupo de angolanos que tentam a todo custo pronunciar as palavras como se fossem lusitanos. Uma vez que, não se fala uma única língua, portanto, deveríamos fazer uma análise do som produzido pelos angolanos, quer na situação de comunicação formal, quer na situação de comunicação informal.

Para Silva e Sakanene (2011), Angola devia ser enquadrada nos países da bantufonia. Por bantufonia, para os autores, entende-se que é “o processo pelo qual a língua portuguesa falada em Angola passa a ter uma especificidade por influência das línguas bantu, ou seja, quando a língua portuguesa adquiri, na forma falada, algumas semelhanças com as línguas bantu, principalmente no nível da pronúncia” (p.560).

O sistema vocálico da bantufonia é diferente da lusofonia. Ntondo (2015, pp. 32-36) apresenta as seguintes características:

1. O fonema /e/:

Posição inicial: /è/

Posição interna: /é/

Posição final: /é/

2. O fonema /a/

Posição interna: /a/

Posição final: /à/

3. O fonema /o/

Posição inicial:  /ò/

Posição interna: /ó/

Posição final: /ò

De modo a representar o sistema real fonológico do português falado em Angola, apresentaremos algumas palavras para a devida análise, olhando sobretudo para o sistema vocálico.

Quadro 1. Representação fonológica da variedade angolana

Representação fonológica

PalavrasVariedade Angolana
Administração/àdiminiʃtrásãu/
Obrigado/òbrigádu/
Como/kómu/
Beleza/bèléza/
Presidente/prézidẽti/
Atropelar/àtrópélár/
Empobrecer/ẽpóbrècér/
Mala/málà/
Desgosto/déʃgóʃtu/
Morar/mórár/
Namorar/nàmórár/
Jogar/jógár/
Falar/fálár/
Casa/kázà/

Com base nos exemplos acima, podemos perceber o seguinte:

(i) A realização fonológica é híbrida, ou seja, usa-se os dois sistemas – lusófono e bantúfono.

(ii) A vogal O somente é fechada na posição final na língua portuguesa e não nas línguas bantu.

(iii) Há maior probabilidade em abrir as vogais fechadas.

(iv) A vogal A na posição inicial, embora não pertencendo nem sendo sílaba tónica, é semi-aberta.

(v) as línguas bantu são tonais e não têm sílabas tónicas e átonas. Ora, o que se percebe nos exemplos acima, temos palavras com mais de uma sílaba tónica. O que para língua portuguesa seria um erro.

Pelo facto de a variante do português falado em Angola ser uma mistura, por causa do contacto entre o português e as línguas angolanas de origem africana, então, seria mais simpático chamarmos de uma língua híbrida, ou seja miscigenada do ponto de vista fonológico.

Portanto, Angola é um país pertencente ao continente africano banhado por várias etnias e, por seu turno, cada etnia tem a sua língua para além de ter o português como oficial.

Uma língua não é homogénea para todas as terras onde é falada, se o centro da massificação desta língua for a sociedade. Pois existem vários factores que concorrem para a sua heterogeneidade, por exemplo o lugar e o tempo. Assim sendo, a língua como um sistema aberto vai sofrendo alterações ao longo dos tempos. Portanto, uma das características universais da linguagem humana é a mudança e a inovação.

O português que é falado em Portugal não é o mesmo que em Angola. Então, Angola não é 100% país lusófono nem bantúfono. Como se constatou, a produção fonológica é híbrida – daí a miscigenação fonológica na variante do português falado em Angola.

Bibliografia

Dias, D. Cordas, J. & Mouta, M. (2007), Em Português? Claro! Porto Editora, Porto.

Gonçalves, P. (2013), O português em África. In Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et alii (orgs.), Gramática do Português. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, I, pp. 157-178.

Ntondo, Z. (2015), Fonologia e Morfologia do Oshikwanyama, editora Mayamba, Luanda.

Ponso, L. C.(s/d), O Português no Contexto Multilíngue de Angola, Universidade Federal Fluminense. Acesso aos 28 de Maio de 2017.

Quivuna, M. (2014), Lexicologia Aplicada ao Ensino do Léxico em Português Língua não Materna, Edições Colibri, Lisboa.

Silva, J. F. & Sacanene, B. S. (2011), A bantufonia na variedade angolana do português. In: Simpósio Internacional sobre Língua Portuguesa.

Undolo, M. (2014), Caracterização do sistema vocálico do português culto falado em Angola. In: Revista de Filologia Románica 2014, vol. 31, núm. 2, 181-187.