Passaram-se mais que três dezenas de anos desde que, em Luanda, um grupo razoável de jovens escritores – dentre os quais ANTÓNIO PANGUILA – arquitectou o projecto estético OHANDANJI que viria a público através da divulgação de um manifesto teórico-prático no “Jornal de Angola”.

Foi num domingo, 22 de Abril do, relativamente distante, ano de 1984. Resultou do projecto a formação de um dinâmico Colectivo de Trabalhos Literários que, discretamente, propunha-se, por via da investigação estética, passar em revista tudo quanto havia sido produzido e publicado localmente pelos integrantes das gerações literárias precedentes, bem como tudo quanto havia sido publicado pelos amantes da literatura enquadrados na brigada jovem de literatura de então.

O objectivo era, em princípio, encontrar circuitos operatórios que lhes permitissem dar volta às produções literárias da emergente geração dos anos 80, até aí, despidas de qualquer proposta estética.

Sentia-se a necessidade de algo  novo que sacudisse, por via da agitação, a realidade literária então vivida, pois enveredava-se (facilmente, claro!) pela via da produção literária dirigida e politicamente engajada, caindo-se, não raras vezes, no domínio do  cantalutismo desnecessário, porque desprovido dos pressupostos da verdadeira arte literária.

Tal viragem havia de acontecer por meio do surgimento de uma escola, de um novo movimento, de uma tendência ou uma qualquer corrente estético-literária inspirada na realidade local.

Entretanto, os cultores do projecto estético OHANDANJI, integrando o Colectivo de Trabalhos Literários com o mesmo nome, já se haviam consciencializado da necessidade de um investimento capital que possibilitasse a produção e publicação de obras artístico-literárias, independentemente da precisão e existência de um pensamento literário próprio e, várias vezes mesmo, defenderam o pensamento de B. Eikhenbaum segundo o qual o que fica são as obras, e todo o movimento literário ou mesmo científico deve ser avaliado, fundamentalmente, tendo em conta a obra produzida e não segundo a retórica dos seus manifestos.

 Curiosamente, haviam constatado (no âmbito das intensas leituras levadas a cabo) o lúcido pensamento de Castro Maldonado, personagem do romance Os Avisos Do Destino, que diz: “Isso de escolas, novidades, correntes, e tudo mais dessa laia não é importante senão num dado momento! Ou, mais tarde, aos especialistas da história literária. O que realmente interessa são as obras! as obras e as personalidades. É o valor absoluto das criações”, chegando a concluir que: “Tudo o que pertence às circunstâncias envelhece depressa”.

Certos de que o que realmente interessa são as obras e depois de termos tido a honra e o prazer de assistir ao lançamento de O VENTO DO PARTO que foi o seu livro de estreia poética em 1993, passam duas décadas até  estarmos diante do seu mais recente livro de poesia.

Depois da publicação do AMOR MENDIGO em  1997 e um ensaio em 2003 sobre Agostinho Neto, o libertador e homem de  cultura que todos conhecemos –ou pelo menos deviamos conhecer! – , eis que o poeta «da vaca que arrasta o tempo», fazendo  jus à sua (re)conhecida pena,  reapareçeu, passada que foi  uma década e meia de reflexão e labor oficinal com o CORPO MOLHADO DE PRAZER, livro editado pela União dos Escritores Angolanos na colecção «Guaches da Vida».

Sempre OHANDANJIANO, o autor cresceu literariamente escrevendo. Agora apresenta-se com um refinado lirismo e sempre apaixonado pelos caminhos, vias e vielas dos corpos hirtos e tensos.

Por via da palavra poética, mostra-se um autêntico conhecedor/admirador dos cantos mais recônditos da felicidade femenina e da fertilidade consciente dos humanos que raciocinam.

Com o corpo suando, escreve com prazer e sobre prazeres. Sonha o «sonho do novo sexo» e metafórica, mas corajosamente, pede aos (sobre)viventes leitores que não se esqueçam «de ressuscitar o orgasmo das flores /enlutadas para  alegria dos nossos mortos!».

Parabenizamo-lo por isso, mas não podemos deixar de considerar que o autor passado, mais que década e meia, tinha como obrigação apresentar-se em melhor forma poética. O Panguila podia apresentar-se mais atento no que toca a construção do verso, eliminando partículas desnecessárias  que, em nosso entender, não se coadunam com a gramaticalidade poética. Para quê tantos «teus, seus, meus,minhas»? – O autor podia ter sido maior. Atenção! 

Com o seu primeiro “parto”, A. Panguila, enquanto escultor da palavra poética, expôs-se ao “vento” que diariamente passa pelas páginas da imprensa, pelas carteiras das escolas, pelos escaparates das livrarias e, até mesmo, pelas ruas e ruelas nas cidades do País. O então promissor jovem poeta e amante da literatura expôs-se andarilho pelos becos e esconderijos nos musseques e, quiçá, pelas inúmeras picadas por que pica qualquer anónimo cidadão, rumo à sua lavra cuja distância desconhecia!

Tratava-se do seu primeiro livro. Imaginamos, por isso, quais não foram as íntimas interrogações quanto ao futuro. Qual terá sido a sensação do autor na hora do dito “parto”, depois de algumas publicações em suplementos e jornais de Angola  e mesmo doutras latitudes que o tornaram homem plural.  Imaginamos  e ocorre-nos citar o magistral poeta Neruda por meio das suas memórias:

Sempre afirmei que o trabalho do escritor não é misterioso nem mágico, mas sim que, pelo menos, o do poeta é um trabalho pessoal, de utilidade pública. O mais parecido com a poesia é um pião ou um prato de cerâmica, ou uma tábua ternamente lavrada, ainda que seja por rudes mãos. No entanto, creio que nenhum artesão pode ter, como tem o poeta, uma única vez na vida, esta embriagadora sensação do primeiro objecto criado pelas suas mãos, com a desorientação ainda palpitante dos seus sonhos. É um momento que nunca mais se repetirá. Virão muitas edições mais cuidadas e belas. As suas palavras chegarão vazadas na taça de outros idiomas, como um vinho que cante e perfume noutros lugares da terra. Mas aquele minuto em si fresco de tinta e macio no papel do primeiro livro, aquele minuto arrebatador e embriagante com som de asas que revoluteiam, e de primeira flor que se abre no topo conquistado, aquele minuto só está presente uma única vez na vida do poeta.

        Aqui o poeta em causa atende oficialmente pelo nome de António Francisco Panguila. Humilde filho de origem camponesa. Há já vários anos, residiu no mais misterioso subúrbio luandense, lá bem perto da 5.ª avenida do Cazenga. É casado e pai de filhos.

          Nasceu em Luanda, passados os primeiros 15 dias do mês de Julho, no ano de 1963. Formado no Instituto Médio de Educação  e  no Instituto Superior de Ciências de Educação em luanda. Desde há muito, abraçou a carreira do professorado, mesmo enquanto alto funcionáro bancário, transparecendo ser um dos que, conscientemente, aprende para ensinar.

        António Panguila foi membro da brigada jovem de literatura de Angola, tendo aí exercido cargos directivos. É membro da União dos Escritores Angolanos, e alguns dos seus textos poéticos podem ser encontrados em distintas publicações periódicas, para além de ter sido por nós incluído na antologia de jovens poetas angolanos,  “No Caminho Doloroso Das Coisas.”

        Escrito isto, perguntarão alguns deveras intrigados sobre a razão do pormenor biográfico do autor diante da obra. No entanto, aqui fica uma referência esclarecedora advinda da pena de Luís Cardim (com quem concordamos!) no n.º 1020 da «Seara Nova»:

Cada vez me convenço mais de que a melhor maneira de apreciar qualquer autor, se não a única aceitável, é, muito simplesmente, a de lermos as suas obras, e deixarmos em paz a vida, e até as idiossincrasias do autor que nas suas produções não estejam reflectidas… A obra de arte, ou a obra de pensamento, tem necessariamente um valor em si, isto é, fosse qual fosse a personalidade humana de quem a estruturou e lhe deu realidade sensível; o nome do pensador ou do artista, a nosso ver, reduz-se deste modo quase a uma etiqueta e a um fio a amassar trabalhos mais ou menos aparentados…”,

e acrescentava ainda:

“Não quer isto dizer, é evidente, que as particularidades psicológicas, bem como os episódios, alegrias e agruras da carreira e da vida humana de qualquer artista ou homem de letras, de qualquer criador de pensamento ou de beleza, não possam oferecer o mais vivo interesse”.

Em definitivo, julgámo-nos entendidos, pois a trajectória da vida pessoal do nosso autor é deveras surpreendente para nós que a conhecemos.

Cabe-nos aqui – pensamos… – a pura e simples apresentação deste autor angolano aos leitores. Quanto ao conteúdo das obras poéticas, abstemo-nos.

Não emitiremos aqui nenhum subterrâneo juízo de valor. Quanto ao grau de amadurecimento da palavra poética, cabe aos reais leitores opinar depois das leituras e, quanto ao nível de conseguimento estético e do equilíbrio e unidade estrutural dos livros de Panguila, caberá certamente a um qualquer desarvorado patife borrado de tinta descrever.

 Nós, diremos in terminus: – Querendo considerar no conjunto uma obra original, faremo-lo somente na medida em que acreditamos na sinceridade e honestidade intelectual de qualquer autor para com os seus leitores. É provável que nem todos versos lhe vêm do fundo do coração, principalmente os que sugerem retórica inútil. Notámos excessivas influências, o que não é crime algum.

Estar profundamente influenciado é próprio e inevitável quando se procura o caminho certo. Reconhecemos, naturalmente, algumas arestas por limar, principalmente no domínio da gramaticalidade poética. Trata-se de algo muito importante para o escorreito apuramento estético e conteudístico dos textos artístico-literários.

António Panguila dá-nos motivos de satisfatória fruição, porque não raras vezes notamos a procura da palavra certa que, sob uma perspectiva experimentalista, nalguns momentos, se apresenta no lugar certo. Vejamos como exemplo o texto SE…(Vento Do Parto) no qual diz que:

                 se o sapato do pato pata

                 a pedra do Pedro apetrecha

                 a ilha da selha asseia

                 a era do erro sara.

                 se o fumo do sumo consome

                 o consumado fumo foge

                 a fama da dama

                 dada ao consolo da sola.

                 se a roda da magia bate

                 bate que bate a cobra

                 cobra que cobra a cobra

                 cobre que cobre o cobre.

Certamente, para quem domina as características da poética da geração de 80 em Angola e conhece, por exemplo, o poema RITOS, de Conceição Cristóvão, saberá que a funcionalidade estética reside, fundamentalmente, no jogo embriagador dos lexemas, em razão de um meticuloso labor laboratorial.

Assim é que, para Conceição Cristóvão: A cobra descobre/se/ao deslocar/se/deixa o rasto// a cabra/se/no óbito/há choro de mutudi.// rasga a noite negra/se/e só se no pó/se lê//…

Confirmamos que a afirmação de uma geração se faz também pela questão do estilo, corroborando com Paulo Castilho, premiado romancista luso que em entrevista ao Jornal de Letras (10/8/93) dizia: “As pessoas são seres complexos e as suas motivações acabam por ter provavelmente mais pontos de coincidência com o passado do que diferenças. Digamos que a geração, por vezes, é uma questão de estilo.” Ponto & final!