O paratexto da obra de Onofre dos Santos provém de uma língua local angolana, o Kimbundu, significando, dentre vários semas, “desperta-te, fica esperto”. Assim, começa a desenhar-se a urdidura narrativa, pois, ao escolher como sub- título Crónica de um amor a grande velocidade, o autor, de certo, deseja indicar a semiose literária, que sustenta o seu texto. Daí que Lenguluka se afigura numa narrativa cujo triângulo amoroso nos reme ao triângulo do atlântico colonial, envolvendo um novo mapa, uma vez que incorpora também a Ásia que se expressa em português.

Visto desta forma, o triângulo amoroso entre Teresinha, de origem Cabo-verdiana, Nelson Cangombe, um jovem angolano e o professor Tomás Silveira, por quem a jovem troca o angolano, funciona como pretexto para o repensar de uma nova forma de convivência sem fronteiras e, muito menos, animosidade. Aliás, o desfecho da obra assim denuncia. Contudo, são vários os temas para reflexão nesta obra, a saber: um mundo de convivência nova, sem fronteiras, o assédio, os limites de qualquer legislação, o oportunismo sem escrúpulos.

Numa escrita acentuadamente delapidada, o tecido narrativo explora todos esses segmentos sem perder de vista a sua arquitectura fundamental: o triângulo entre Angola, Cabo-verde e Portugal, numa investidura em que se despoletam as velhas animosidades como corolário dos ressentimentos coloniais, em cujos espaços privilegiados, Lisboa e Caparica, Lenguluka, a combie de Luís Sakulanda, o taxista angolano, circula levando passageiros, sem olhar para as suas origens, de uma margem para a outra do rio.

Na artesania da palavra, reflexo da consciência estética do autor, emerge a tela que nos dá conta, por exemplo, de que a lusofonia é um fundamento imaginário para que a ex-Metrópole tenha os ex-colonizados sob seu controlo, numa alegação de que Portugal também é a sua terra, ou seja, a terra de todos, como se pode verificar no cotejo textual abaixo:

Uma farsa! Não passam de uns farsantes! – Ululava Adalberto, o pouco cabelo que lhe restava descomposto ao sabor do vento, gritando para lá dos microfones, como se quisesse ser ouvido para além do mar que os separava de outras comunidades falantes da mesma língua e a quem endereçava o convite de virem para Portugal, que também era a sua terra, como a deles tinha sido dos portugueses durante centenas de anos. (p. 11).

Assim situado, o contacto entre povos está imanente no fragmento acima, já que até “o ensino do português passou a ser um grande negócio, quer em Portugal, quer em qualquer uma dessas longínquas paragens onde a língua portuguesa passou a ter o valor de passaporte garantido” (p. 12). Desse contacto, constrói-se o entre-lugar, contanto que, como observa Nubia Hanciau (2010): “O conceito de entre-lugar torna-se particularmente fecundo para reconfigurar os limites difusos entre centro e periferia, cópia e simulacro, autoria e processos de textualização, literatura e uma multiplicidade de vertentes culturais que circulam na contemporaneidade e ultrapassam fronteiras, fazendo do mundo uma formação entre-lugares.” (p. 125, obra citada).

Sob esse olhar, a circulação entre Lisboa e Caparica, no tecido literário de angolanos, Cabo-verdianos, guineenses, macaenses e goeses atestam a convivência entre influências várias, o que relança o desafio de se enfrentar a cultura em movimento. Deste modo, “Lenguluka – Crónica de um amor a grande velocidade” questiona a respeito do que é produzir cultura à narrativa literária em província ultramarina, pondo em análise as relações entre duas civilizações, isto é, da Metrópole e as da ex-províncias ultramarinas, representadas no útero ficcional por Portugal, Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, China e Índia, neste particular. Neste ângulo, no entrecruzamento entre ex-Metrópole e ex-colónias, o constructo literário propõe a origem de uma nova sociedade, contaminada de uma mistura subtil e complexa e com novos paradigmas de actuação, a testificar no excerto seguinte:

“A grande cartada de Adalberto tinha sido a associação da toda-poderosa República da China como membro da CPLP, de pleno direito, pela mãozinha de Macau, uma subtileza que não preocupou muito a superpotência emergente, que, de uma assentada, fez a tripla, juntando ao seu conceito de duplo sistema político-económico essa terceira via de acesso à Europa, África e Ásia, pois, a Índia, representada pelo estado de Goa, assumira idêntico estatuto, contribuindo de forma exponencial para a criação de um mercado comum lusófono capaz de impor respeito aos ex-patrões americanos e europeus.” (p. 12).

Lenguluka assume-se, neste particular, numa prosa contemporânea, apocalíptica, porque, na verdade, quem estiver atento, no plano real, às fricções comerciais entre EUA e China, rapidamente, compreende a narrativa onofreana como proposta de reflexão sobre as problemáticas da mundialização, com a imersão de uma nova ordem mundial, impondo, como é óbvio, uma sociedade marcada pela heterogeneidade das culturas. Por outro lado, o que a narrativa onofreana nos quer alertar, no âmbito desta nova ordem, tem a ver com o poderio dos nossos amigos do Índico, a China, como o plano ficcional demonstra na libertação de Nelson Cangombe:

“Meu caro professor Luciano, quero comunicar – lhe que acabo de assegurar a libertação do seu compatriota Nelson Cangombe… Nada que o dinheiro não resolva… Um dos meus advogados conseguiu que fosse estipulada uma caução, tornando – se tudo muito mais fácil. – Muito obrigado, senhor Feng, pelo menos essa parte do problema fica resolvida. E faço votos sinceros de que o investimento seja lucrativo.” (p. 104).

Entendemos, por esta razão, que o triângulo amoroso entre Teresinha, Nelson Cangombe e o professor Tomás Silveira, que, mais tarde, dá lugar a Luís Sakulanda, enquanto novo amor da cabo-verdiana, adornado no julgamento daquele, se é ou não assédio, pelo facto de ter sido professor da jovem, não passa de um “negócio da China”, do plano ficcional, a fim de discutir as sociedades do futuro, título, por isso, do primeiro capítulo da obra: Uma história do futuro.

Neste diapasão, em dezoito capítulos, Onofre dos Santos desvela o modelo de sociedade do futuro cujo mercado terá como esteio o business, o poder económico, sem escrúpulos, mesmo quando estiver em jogo o direito à vida e à dignidade humana, a depreender nos excertos:

“– Teresinha, tu queres mesmo ter esse filho? – perguntara Tomás” (p. 40/grifamos).

“– Posso imaginar. Mas alegre-se, porque eu também tenho um plano que já está em marcha… Se tudo correr como penso, acredite, professor Luciano, não importa o que vou gastar, vai ser, como por aqui se diz, um negócio da China!” (p. 105).

O negócio da China a que se referia o ser de papel Feng, de origem asiática, tem a ver com uma disputa de automóvel entre Nelson Cangombe e Tomás Silveira. Essa disputa, à moda medieval, como que um duelo por uma questão de honra pelo sucedido, quer dizer, por Teresinha ter engravidado de Tomás, afastou Nelson de sua amada. Todavia, o duelo não será grátis: tem assistência e muita pecúnia envolvida. Foi esse duelo organizado por Feng a causa de morte de Tomás Silveira:

“Face ao rival ensanguentado e moribundo, Nelson Cangombe calou a sua fúria e estendeu-lhe a mão, concedendo-lhe a vitória da corrida. Desportivamente, como Tomás Silveira lhe propusera e desejaria.” (p. 126).

Por conseguinte, tal como referenciámos, o propósito central da obra, a nosso ver, consiste na reflexão de uma problemática que atravessa o mundo, alertando – se é que um escritor pode fazê-lo – para um modelo outro de sociedades, nas quais a multiplicidade cultural reinará, havendo, por isso mesmo, uma heterogeneidade de culturas, o que implicará a diluição entre centro e periferia, à ultrapassagem de fronteiras. Estamos assim perante uma literatura de contacto, uma vez que foi escrita fora da Europa, porém, em língua europeia.

Em consequência, olhando para as fronteiras como produto da capacidade imaginária de refigurar a realidade, pelos quais homens e mulheres reflectem, com a sua carga simbólica, a respeito do trânsito, propondo situações abertas, podemos inferir a sinalização desse factor na forma de nascimento do filho de Teresinha:

“Nesse mesmo instante, na combie pão deforma azul transformada em sala de parto, Teresinha lançava também o brado final que acompanhou a expulsão do feto ensanguentado, nascido às pressas num táxi com a inscrição que se revelava tão apropriada: Lenguluka.”