O sábado acordou deserto. Timidamente, nas ruas andavam pessoas feito fantasmas e com parte da cara coberta, deixando apenas os dois furos para divisar a rota. Entre as pessoas havia muito espaço, dois metros a separar os corpos. Quando as pessoas se cruzavam, sentia-se o repúdio da proximidade num olhar quente e áspero. Corpos iguais repeliam-se. O isolamento físico foi decretado. Estava salvaguardada a natalidade mesmo sem consultas pré-natais; ou não. Talvez esse recolher obrigatório de se confinar entre quatro paredes, cá em África, seja o ebulir de uma enchente no Ngangula e Lucrécia Paim ou o repovoar da velha Europa, cujos filhos vão desta para a melhor. Bendito seja Deus?! Ou maldito, por permitir que calamidades dessas surjam a nós que nem temos onde cair vivos e nem com que enganar a pança?! Talvez seja bendito para a felicidade de muitas mulheres que vão ter os maridos 24 horas por dia nas camas.

Na Ilha Seca do MC, onde vivia a Marta, amaldiçoavam-No. Muitos rostos estavam camurçados e sem saber o que fazerem. A continuação da continuidade da árvore genealógica de muita gente estava em perigo. Gente que sobrevivia da permuta, zunga, da lotação, da rabotagem, carregamento de mercadorias, quebra de ossos, nos armazéns, e venda de corpos usados nos cantos escuros das rolotes. Porém, um desses rostos, embora estivesse meio triste, carregava um grande riso.

– Angelina, minha amiga, não te conto nem te falo!

– Falá o quê, Marta?! Conta então daonde vem tanta alegria assim? Mesmo com esse problema que esses irresponsáveis nos trouxeram? Apanhaste dinheiro ou quê?

– Nunca, mana. Minha alegria é mais que isso… agora todo mundo vai comer elenco de luxo. Andavam a se mentir que não se come o mesmo prato duas vezes. Gostavam de nos trocar com bifes e hambúrgueres, e faítas de carne estragada e se esqueciam das gatas de casa. Hoje, estão a voltar, minha miga, a banga lhes acabou. A ordem agora é de ficar em casa e se lavar bem. Andavam aí nos contentores tipo malucos a procurar comidas podres. Mas agora vão comer elenco de luxo.

– Mas, ó amiga, afinal onde está o mal de comer arroz com feijão, se no tempo da guerra foi o milho que salvou Luanda?! Já te esqueceste do salva Luanda? Ham! Vocês de 2000 ainda não viram nada. Não sabem o que é sentir fome.

– Angelina, não me venha com truques. Ainda não deste conta do que estou a falar?! Hoje, é segunda. Não sentiste uma mudança em tua casa? Não mudou nada – perguntou Marta.

– Só que os meninos não foram à escola – respondeu Angelina.

– Só?! E noutros dias…?! – Insistiu Marta.

– Nada, amiga – respondeu-lhe Angelina.

– Repara no teu mambo. Hoje, não estás mais bem disposta? Não notaste nada de estranho à noite?

– Nada, amiga – voltou a responder Angelina.

– Amiga, aguarda só, bons dias virão. As nossas correntes de oração estão a ser ouvidas.

– Mas que orações, se a igreja que devia nos orar para sobrevivermos contra esse Corona está toda coronada!

– Como assim?!

– Fugiram ué! Disbelengaram. Só deixaram as caixas dos dízimos na porta do Maculusso para levarmos o dinheiro de deus no fim do mês.

– Que dinheiro?! Que dinheiro?! Eu já, Marta, na jibo! Na jibo mesmo. Estou mbora preocupada com as minhas matabelas. A partir de hoje, nossos maridos vão comer no mesmo prato arroz com elenco de luxo e matabela, minha amiga. É só alegria.