Com a finalidade de analisar e reflectir questões ligadas ao estado da arte contemporânea africana, o Lab Art&Co e o Camões realizaram no mês de julho um debate com participação da crítica de arte e galerista bielorussa Valerie Kabov. A Palvra&Arte traz a análise de um percurso africano reflectido no debate.

Brevidades de um percurso – desde o início do século

Antes de começar o debate, uma referência a um ensaio de Adriano Mixinge, crítico de arte angolana, em que cita um caso que poderia ser dado como um dos vários passos para o reconhecimento da arte contemporânea africana a nível do mercado global de arte. O caso relatado em Agosto de 2001 envolve uma colecção africana do British Museum que “voltava ao edifício principal depois de 30 anos de exilo no Museu de Humanidades de Londres”, nas palavras de Beverly Andrews. No ensaio, ainda é mencionado a posição de Chris Spring, conservador do museu, afirmando querer, até aí, que a arte africana tivesse a mesma apreciação que a arte romana e grega e que “a percepção pública da arte africana trocou consideravelmente, mas ainda continua a haver muitos que resistem e persistem em continuar com os conceitos tradicionais”

Convidada pela Lab Art&Co para o Conversas Lab, realizado a 14 do mês passado no Camões – Centro Cultural Português –, Valerie Kabov começou por mencionar o começo significante da arte contemporânea africana para o mercado global há, sensivelmente, dez anos, referindo que a mesma se tenha dado com o desabrochar da independência dos países africanos, em meados do século passado.

Continuou: “em 2005, o Afrika Remix Exhibition, embora não tenha sido a primeira exposição da arte contemporânea africana no ocidente, foi uma das que mais impacto teve, não somente por reunir alguma variedade de artistas do continente, mas por expor estes artistas para o maior mercado cuja exposição teve passagem por Paris, Londres, Tóquio, Munique, Estocolmo e Dusseldorf.”

Valerie Kabov diz que não lhe tinha surpreendido que, em 2007, fosse criado o primeiro pavilhão africano na Bienal de Veneza, curado por Robert Storr que, depois de ver o sucesso do Afrika Remix, inspirou-se a criar um pavilhão que, no entanto, foi bastante controverso porque, enquanto existiam pavilhões nacionais para a cada país, África teve um único pavilhão com representantes de alguns países africanos. Artistas e curadores africanos viam-se ofendidos por verem que África era representado como um país. Acredita-se ser este motivo inspirador do 1:54, actualmente, uma das principais feiras de arte contemporânea africana, começada em 2013 em Londres. O nome 1:54 quer dizer 1 continente, 54 países.

A presença africana vai sendo melhorada a cada ano que passa. Por exemplo, em 2009, Egipto e Marrocos conseguiram um pavilhão, Africa do Sul e Zimbábue em 2011, em 2013 Costa do Marfim e Angola, que venceu um leão de ouro por melhor pavilhão, representado pelos curadores Paula Nascimento e Stefano Pansera. Em 2015, Moçambique vê seu pavilhão na bienal.

A atenção do ocidente no mercado africano

Longe da Bienal de Veneza, a arte contemporânea africana tem obtido outras formas de representações, quer em feiras, no ocidente, quer internamente. Com isto, tem havido uma maior atenção do mercado.“O que não pressupõe, logo, que África possua já um mercado de arte forte”, ressalva Valerie Kabov, que olha a forma como o mercado ocidental encara o africano do mesmo jeito que olhava o asiático e o latino-americano.

“A academica que vem estudando mercados de arte há mais de 20 anos menciona que a atenção virada ao mercado de arte africano surge a partir da atenção que o mercado ocidental tem perdido ao longo dos tempos. Acredita ela que o mercado perdeu atenção por instabilidades económicas, ambiente político, incertezas no próprio mercado ocidental, ou seja, por uma crise que faz o mercado focar-se, de alguma forma, em artistas antigos e já mortos, mas também pela ausência do ‘novo’”.

Este caso, acima referido, leva-nos a algumas declarações do historiador alemão Hans Belting em seu livro O Fim Da História Da Arte: “A despedida do valor da novidade é inevitável, caso se queira manter viva a arte. A arte não está morta. O que acaba é sua história como progresso para o novo”. E ainda: “minorias de diferentes procedências utilizam o espaço livre, recentemente surgido, no qual o ‘cânone’ perdeu a validade, e ‘inventam’ a sua própria história da arte.”

Voltando ao Conversas Lab, Valerie Kabov questiona como seria então, se o mercado africano caísse naquela atenção de mercado que o ocidente procurava. Para responder a essa questão, sugere: “é preciso perceber que, neste momento, o mercado africano está numa situção diferente a de muitos, são enormes os problemas que estão nos sistemas de apoio dos governos locais, sitemas de ensino de arte, galerias viáveis, e um mercado autónomo. Isto significa que os artistas podem não ser autosuficientes num mercado de alguma ‘turbulência’, o que, por um lado, facilita tal inclusão do ocidente. “O que pode se fazer acerca disto?” Pergunta. “Pelo rumo do mercado, se não darmos atenção, e com o interesse do ocidente, os artistas africanos tendem a abandonar os nossos países para mercados aparentemente mais organizados, porque aqui não há suficientes galerias, obtendo as regalias daqueles mercados. Artistas africanos, no lugar de produzir localmente, acabam por estar preocupados com a atenção do olhar do ocidente”, concluiu a crítica e galerista bielorrussa.

“Por outra, questiona a arte africana como produto das instituições de nações ocidentais em África, pelo crescente número de fundações de arte do ocidente com operações no mercado africano. O suporte por eles cedido não é algo ‘de graça’”, afirma a co-fundadora do First Floor Gallery Harare, uma galeria que tem apostado na promoção e formação de artistas no Zimbábue. “Esse suporte cedido acaba por vir de alguma maneira com condições ideológicas, e”, mencionou ainda, “que projectos de arte bem sucedidos têm de possuir tais condições e parâmetros dessas fundações. Com isto a acontecer, muitas vezes, a arte africana é moldada por interesses destes financiadores.”

Como escape, traz a responsabilidade aos artistas de fazerem um trabalho duro, a fim de criar um mercado africano auto sustentável, e as instituições governamentais, ou não, possuirem maiores apostas na educação artística e nos sistemas de galerias.