Vivemos numa época de grandes mudanças, de protesto e até mesmo de revoluções. A cada momento, novos milagres artísticos vão acontecendo. Diversas manifestações artísticas vão ganhando corpo e dando voz a novos movimentos cuja “as” interpretações estão entregues à sorte de cada um. Para alguns, a palavra artivismo pode soar nova ou estranha, porém, nas lides artísticas não é um fenómeno novo e chega a representar o modo de vida de muitos artistas.

De modo singelo, o artivismo é a prática que se assenta nas acções sociais (políticas, religiosas, ecológicas, etc.) produzidas por artistas ou grupo de artistas que usam estratégias artísticas, estéticas ou simbólicas, para sensibilizar, problematizar ou evocar reflexões sobre questões que estão em voga na sociedade. O artivista busca na arte uma forma de participação activa, expressando-se através de inúmeras formas – manifestações artísticas –, como a música, o vídeo, teatro, cinema, fotografia, escultura, arte de rua, performance artística, os problemas da sociedade.

Uma obra artística, ao longo da história da humanidade, era (ou é) entendida pelo valor artístico-estético que ela era capaz de evocar. Dessa forma, o artista poderia trazer ou embutir nela plurissignificações, apesar da leitura e interpretações que os seus apreciadores poderiam ter dela. As épocas ao longo dos tempos foram e são, na verdade, um trampolim por onde emergem as questões reflectivas da arte. Ao recuarmos no tempo, numa revisitação à história do nosso país, percebe-se, claramente, a influência dos movimentos vanguardistas da Europa e dos movimentos africanistas que provocaram profundas manifestações artísticas e políticas, e com isso, foram surgindo por toda a parte os ditos movimentos e agremiações culturais que se destacaram na luta contra a opressão colonial portuguesa. Na música, podemos citar a título de exemplo, as intervenções musicais dos Ngola Ritmos, Artur Nunes, David Zé, os Kiezus, Urbano de Castro, Elias Diá Kimuezu… Tal como na literatura em que se destacam os movimentos dos intelectuais (Mensagem e Vamos descobrir Angola), onde surgem os nomes sonantes como de Viriato da Cruz, António Jacinto, Agostinho Neto, etc., com uma poética cujas marcas de guerrilha servem e dão vasão ao desejo de liberdade e independência nacional. De forma geral, a mensagem passada por tais movimentos era uma mensagem questionadora em sua época e cuja elaboração estética musical e literária não era posta de parte. Já nos anos pós-independência, a consciência artística segue por outros rumos, há necessidade de deixar para trás o plano histórico e político e abraçar-se à liberdade de criação, deixando de parte esta forma de artivismo (in)consciente.

Hoje, com a mudança de paradigmas, quer à nível mundial e, em particular, à nível nacional, assiste-se, de forma tímida, um fomento em alguns segmentos da arte em Angola. No entanto, o artista enquanto ser social, envolvido nas questões quotidianas, acaba por imergir nalgumas discussões momentâneas. Alguns destes artistas, por meio da arte, vão buscando questionar os tempos em que nos encontramos. O artista, enquanto artivista, faz da arte sua forma de activismo. É a militância através da arte, ou seja, fazer activismo por meio da arte. Nisso, destaco aqui o movimento das feministas angolanas, em que, aquando da realização da primeira edição do festival feminino de Spoken Word, Muhatu Spoken Word, se viu algumas artistas transformando as suas performances em manifestos pró-feministas, o que, de certa forma, é a militância antes da arte.

Abro um rápido parênteses para olhar a febre do momento, o vulgo ACABA DE ME MATAR. É, antes de tudo, um grito de revolta, uma manifestação contra a má governação, contra a impunição, contra a corrupção, contra o descaso aos dois milhões de crianças fora do ensino escolar, contra o desemprego, contra os abusos sexuais, contra os estados das estradas da nossa Angola, contra a falta de água potável, contra… Mas não é uma forma de ARTIVISMO. Apesar de vermos alguns artistas a aderirem o mesmo, é preciso de realçar que o artivismo, ou seja a produção artística em forma de militância é uma prática que se origina antes, de mais, do desejo do artista em explicitar uma causa, independente da sua natureza. Nela, o artista se apropria da arte e do seu valor artístico e conhecimento para levar uma determinada mensagem a sociedade.

Corroboro com as palavras do crítico literário, Hélder Simbad, que, ao contemplar as inúmeras imagens do vulgo “Acaba de me matar” e que vão fazendo furor nas redes sociais, disse:

“Houvesse algum propósito filosófico-social, estas imagens constituir-se-iam como o maior manifesto artístico-político contra a atitude mercantilista de um governo quadrigenal que leva o seu povo a eterna insónia. Os homens das imagens seriam os heróis iluminados que, não encontrando uma forma de transpor o grande obstáculo, prefeririam a morte. Mas não é o caso. Trata-se apenas de um desafio de quem apresentaria o cenário mais catastrófico de uma possível morte. “Acaba de me matar” poderia ter sido o “grande manifesto”, mas…”