O cinema por ser arte é um dado cultural. Por ser um dado cultural, o cinema é história. É por ser história que é narrada. O cinema é a arte do movimento, é a história narrada em movimento. É, pois, um diálogo, uma descrição que conta, de forma realista ou ficcional, a história.

Como nos faz entender Ferro (Cf. 2010), o cinema é um autor da história e um espaço de aprendizagem e de formação. Enfim, o cinema possui uma dimensão estético-pedagógica.

Trazemos, neste texto, o documentário “Oxalá cresçam pitangas, histórias de Luanda!”, do literato Ondjaki e do cineasta Kiluanji Liberdade. Propomo-nos a analisá-lo do ponto de vista “visível” e “não visível”. Destarte, objectivamo-nos a encontrar zona de diálogo entre o espaço ficcionado e a realidade narrada, entre o plano simbólico e o imaginário.

Enquadramento histórico

Em 1975, Angola conheceu a sua independência. Tinham passado cinco séculos de “dura” servidão. O colonialismo era acompanhado de fascismo, de etnocentrismo e de catolicismo militante. A independência das colónias nunca esteve nos seus objectivos. Queriam manter-se como suseranos. Ao proclamar-se como República Popular, Angola forjava o direito de decidir pelo seu destino. Os anos que se seguiram não foram fáceis, pois os “inimigos” passaram a ser os da própria casa. A história fala-nos de três movimentos contendores: MPLA, FNLA, UNITA. Esquecem sempre de mencionar que nesta altura havia outros movimentos dentre eles a FLEC, de Cabinda.

Angola estava novamente mergulhada em sangue. Os divisionistas, impiedosamente, destilavam o seu fel, matando-se com auxílio de forças estrangeiras. Era o preço mais cruel que se pode pagar. Viveu-se um longo período de guerra fria. As populações (e)migraram das suas zonas para outras. O país dividiu-se em grupos não homogéneos. Em 2002, os contendores assinaram, no Moxico, o fim da guerra. A população rejubilou efusiva nas ruas. Era o “rejuvenescer” da esperança. É neste contexto de guerra e paz que surge o documentário de Ondjaki e Kiluanji Liberdade, em 2006. Com duração de 46 minutos, é uma obra cinematográfica que “conta” a história de Luanda. Embora se lhe reconheça algumas limitações quanto aos meios de produção, quanto aos de técnica, não perde o mérito de ser uma verdadeira obra de arte. Aliás, é questão para os críticos do cinema analisarem e não nós leigos da sétima arte.

A obra “oxalá cresçam pitangas, histórias de Luanda” ganha verdadeiramente interesse quando os seus personagens falam dos seus anseios e receios. Revelando uma similaridade ontológica entre a experiência estética e as leis do monólogo interior. Essa experiência revela uma certa omnipresença do diálogo, baseado na intimidade ou relação entre personagem e espectador.

O êxodo e o imaginário da cidade

Luanda é uma cidade com característica multiforme. Rapidamente essa característica chama a atenção aos seus visitantes, ao confrontarem-se com uma multiplicidade de realidades e/ou cenários. Além de deter um património herdado do colono e das novas urbanidades pós-independência, há também a substituição dos “musseques” por “subúrbios luxuosos”.

Macêdo (Cf. 2004), num artigo apresentado ao VIII Congresso Luso-Brasileiro de ciências sociais, apresenta-nos três “Luandas”, que é, para ela, junção de três cidades distintas. Para esta pesquisadora, a primeira seria a antiga cidade colonial, que inclui a baixa, que é o centro administrativo e de negócios da capital angolana.

A segunda é a cidade da pós-independência, marcada por um extenso caniço (musseques) onde vive a maioria da população;
A terceira, dos subúrbios de luxo. Esta última rompe com o modelo de habitação herdado do colonizador.
Desta forma, em nossa modesta opinião, há também três formas de olhar a cidade: do ponto de vista da sua história, incluindo a cultura; das suas múltiplas formas concretas de existências interpessoais e de entrecruzamentos com outras realidades; e através do imaginário, que muitas vezes é dado pelas artes (música, filmes, novelas, literatura, etc.) ou pela experiência com outras culturas.

Esta peculiaridade da cidade é-nos narrada por Ondjaki e Liberdade através das suas personagens e dos vários cenários por eles apresentados. Ambos servindo-se do processo de composição, colocam as imagens num contexto, interligando-as ao inconsciente dos espectadores por dentro da memória. É neste ponto em que podemos vislumbrar a realidade que é revelada pelo cinema.

Vivemos uma civilização das imagens. Isto nos leva a dedicar quotidianamente a nossa atenção à decifração ou interpretação das mesmas. As imagens transcendem o nível material ou tecnológico. Ou seja, não se limita à técnica aplicada ou aos recursos tecnológicos utilizados, mas eleva-se para a sua dimensão imaginária ou espiritualista.

O cinema vem sendo, nos últimos tempos, campo de estudos nas ciências sociais e humanas. A relação entre cinema e história não são tão recentes, nasceu no século XIX com próprio cinema. Ferro sugere que a crítica histórica e social do cinema se faça de diversos ângulos ou “pontos de vistas”.

Todos os pontos de vistas “são válidos e legítimos”, mas devem ser acompanhadas por “uma análise das próprias imagens”. Segundo o pesquisador francês, somos dominados pela “força das imagens”. Ondjaki e Kiluanji Liberdade confrontam-nos com imagens-memórias que superam o espaço temporal e habitam-nos o imaginário. Tais memórias ou imagens revitalizam em nós o desejo de querer ou fugir a sensação de voltar a experimentar o que já se viveu. Neste documentário, nós gozamos o prazer de/do olhar através de janelas que vão se entreabrindo. O fascínio está em ver Luanda para além do ecrã ou da objectiva da câmara. Os filmes constituem uma revelação da real sociedade ainda que ficcionada.

Para nos dar a explorar a experiência estética que é, a priori, dada através da contemplação da natureza ou por um sentimento mimético, como nos diz J. Dudlay Andrew, “nem todos os filmes conseguem ser objectos estéticos”. A este respeito, os poetas românticos, no século XIX, afirmavam que a arte existe no próprio objecto.

Ondjaki e Kiluanji ajudam-nos a “ver”, pois a “arte existe apenas para ser bela, para se manifestar”, como nos diziam os poetas românticos.

A acção do “Oxalá cresçam pitangas, histórias de Luanda” passa-se num conjunto de cenários e contextos. Esse conjunto determina os detalhes e, através dele, entende-se à realidade. Portanto, o mais árduo desafio de Ondjaki e Liberdade é a criação de um “novo mito”, um novo motivo de unidade entre os mais diversos estratos da sociedade, como aconteceu durante a luta de libertação nacional.

“Oxalá cresçam pitangas” surge como uma obra pacifista que procura unir os povos. Podemos nos rever através das suas dez personagens. Quando paramos para, realmente, “ver”, tudo se torna mais claro. Tudo se renova e se reinventa. Os anseios e os receios dos personagens agora são os nossos. Tudo isso é possível graças a técnica da montagem, dos enquadramentos e dos movimentos da câmara. É sob este processo que o discurso se organiza. Facto que não é muito perceptível em filmes com um enredo ambíguo.

Ondjaki e Kiluanji Liberdade irrompem os espaços da cultura oficial que não faz senão “adulterar” a realidade. A cultura oficial é substituída pela contracultura que propõe um novo sistema de valores – teoria, crenças e certezas.

Os autores de “Oxalá cresçam pitangas, histórias de Luanda”, serviram-se de um procedimento antigo, mas de forma inovadora: as entrevistas. O que se traduz, implicitamente, numa nova função é o facto de se confrontar os personagens e deixa-los a vontade. Há uma intencional permissividade nas entrevistas que faz os personagens emitirem opiniões de forma franca, sem temerem situações embaraçosas. O uso de entrevista em documentários confere maior interacção entre o personagem e o espectador.

O escritor e o cineasta quiseram demonstrar através do testemunho das suas personagens – presente, passado e futuro – que há a possibilidade de fazer uma nova Angola, diferente desta. Os personagens do Documentário constituem assim uma amostra nacional. Em resumo, podemos dizer que Ondjaki e Kiluanji Liberdade, através do discurso narrativo das imagens, transformam a realidade, dando esperanças e certezas.

Bibliografia

Ferro, M. (2010). Cinema e História., revista e ampliada (2ª ed.) (Nascimento, F. trad.) São Paulo: Paz e Terra.

Macêdo, T. (2004). “Luanda: Literatura, História e Identidade de Angola”. VIII Congresso Luso-Brasileiro de Ciências Sociais Coimbra . Portugal: CES.