Propor-me a falar sobre o “Através da Chuva”, livro do escritor Miguel Gullander, não é tarefa fácil, pois não sou, nem de longe, um daqueles peritos em crítica literária que desvenda os segredos de um livro e traz acima, como um Prometeu, aspectos que os leitores não imaginavam presentes no mesmo. Também não sou uma “gigante” no que concerne a conhecimentos sobre literatura ou uma “entendida” na matéria. Sou apenas uma menina apaixonada pela literatura que acredita no poder da palavra, principalmente no poder da palavra escrita. Além de não ser fácil pelos motivos que já referi, acrescento o facto de se estar diante de uma escrita madura, capaz de nos levar até ao mais profundo do nosso imaginário e questionar as nossas convicções, questionar preconceitos, questionar a nós próprios sobre o sentido da vida. E mais ainda, faz-nos questionar sobre o sentido que damos à nossa vida e como damos.

Entre os vários palcos sobre os quais a narrativa acontece, destacam-se Angola e Suécia, no entanto, destaca-se mais ainda, em relação ao espaço, o casamento perfeito que se faz na obra entre os dois lugares. Dois países distintos, longe um do outro por milhares de quilómetros de distância, com modos de vida diferentes, com culturas diferentes, com tradições diferentes, com mitos e crenças diferentes, mas que se cruzam em “Através da Chuva” e transpõem todas as barreiras possíveis e, sobretudo, mostram-nos que enquanto seres humanos estamos mais entrelaçados do que possamos imaginar.

Dois mundos que se cruzam entre personagens singulares que também se cruzam e reflectem-se em espelhos paralelos, mostrando um pouco de cada um de nós, independente de onde sejamos ou pertençamos. Somos levados a reflexões: das mais simples às mais complexas. A cada página, um pouco mais de profundidade. Uma escrita que nos mostra e faz sentir a eternidade e simultânea efemeridade do tempo. Esse tempo pode ser o da narrativa – o tão bem trabalhado tempo da narrativa. Mas pode ser também o tempo da nossa vida, do dia-a-dia; o tempo que temos para fazer nossa existência valer a pena ou, ainda, o tempo que talvez tenhamos para construir um futuro melhor que o presente ou o passado. E esse tempo, na narrativa, é tão inquieto, tão impermanente que nos faz viajar desde o deserto imponente do Namibe, passando pela Baía Azul de Benguela, por Luanda, por Malange, por Lisboa até as ruas de Estocolmo, na Suécia. E vice-versa.

Aspectos característicos da cultura e espiritualidade africana cruzam-se com mitos e crenças suecas de forma ora implícitas ora explícitas. A viagem do velho Svart, o protagonista da história, da Suécia até a Angola com o objectivo principal de avistar uma Palanca Negra Gigante acaba sendo um cruzamento entre dois mundos, dois continentes, dois países distintos, mas que se revelam próximos. Afinal, somos todos feitos pelo mesmo tecido…

A viagem do velho Svart para avistar, no coração de Angola, um animal raro e único em todo o universo também acaba sendo uma viagem de cada um de nós. Uma viagem para dentro das nossas sociedades e uma chamada de atenção para a forma como as construímos, como as tornámos desiguais e poluímo-las com as nossas próprias acções. Uma viagem para dentro dos nossos modos de vida. Uma viagem para questionar os nossos preconceitos de raça, de cor e perceber como matamos uns aos outros por motivos que nunca valem a pena. E no final das contas, uma viagem fascinante para dentro de nós mesmos!

Sobre o autor:

Miguel Gullander é professor e escritor. Há muitos anos em países africanos, este luso-sueco irrompeu nas nossas vidas com uma escrita urgente, crua, cheia de lampejos. Viveu em Benguela e no Namibe e é leitor de português em Windhoek. Em 2008 acompanhou uma expedição pela mata angolana na pegada da palanca negra, com a qual se inspirou para escrever o último romance, Através da Chuva, na figura do protagonista, o criptozoólogo Svart.