“Todo o universo é som, que por sua vezé  o desdobramento das asas da alma”

Gritam meus dedos nus, navegadores indomáveis. Preparam-se rumo a uma nova embarcação, rumo ao Baile dos Sentidos, desafiando um mar audaz para chegar à primeira sabedoria, África fantasma. Olho para dentro de mim, e o eu que me é desfaz-se como nas escassas vezes em que a alma é Lua ou Vênus. Ver-me ir faz-me ver o centro do mundo, a Mulher.

Camuflada miragem, sobre a mesa de um bar fantasiado, tipo nos anos sem tempo, há um ser que se faz Deus, Maria-Gracia Latedjou. Sua voz nasce magnética, faz crer que a ferocidade humana se encontra no útero onde, inesperadamente, as sanguíneas correntes levam à memória do futuro.

No Baile dos Sentido, a voz da mulher é um universo de contestações, é um “mistério de pó” no cimo da vida. É metamorfose plena desfilando num palco que geme. Embora muda quando se faz dia, por hora, é vedeta magistral. Lá nascem palavras que se desprendem dos ramos do medo de máscaras venezianas, tentando abraçar o vento, a transcendência das almas numa mística que só a última nota pode revelar.

A música é um santuário onde as Deusas são poetas, onde repousa o espírito insubmisso que Latedjou proclama seu em cada tom da sua voz, em cada delírio, quando regressa à infância, e todas as notas despertam em páginas soltas de poesia.

A arte é autêntica quando resiste às “matreirisses” do chamado “lugar comum”. Em cinco composições feitas em uníssono com um violino sem arco, no Baile dos Sentidos, Maria-Gracia Latedjou demonstra que música não é matéria, que é um impulso instantâneo que nos faz buscar os sentidos da existência. Vejamos, neste baile tão singular, “O Medo” leva-nos a inventar palavras ocas, porque o destino não é da nossa conta.

“Ancêtre de Sable Rouge” é uma canção que, ao ouvirmo-la, aflora o desejo de resgatar o grito da África que se apagou. Ela transporta-nos para dentro das vozes do passado submergido, tentando interrogar a história que nos contam. Essa canção é sobre reexistência ancestral através dos ciclos do pensamento. De forma serena e com força nos dedos, a deusa acaricia a pele do instrumento, pedindo liberdade. A noite do Baile dos Sentidos deixa uma canção a navegar, “Flores de Papel” nessa canção não há lugar para margens, só o horizonte descai quando o violino ressoa as notas certas do deleite.

No baile cantado por Maria-Gracia Latedjou, Angola é uma nota musical a balançar descomandada, viaja numa pauta feita de incertezas que levam ao chão dum país que “Não é País”. “Baile dos Sentidos”, música iluminada, circula livre, marca presença, sem qualquer comprometimento multiplica-se pelo senso criativo da Deusa Latedjou. A arte está na possibilidade de sermos, de nos tornarmos e nos deixarmos rolar ao limite da vida, porque nós somos o tempo.

Em dias da visível devastação da criatividade e da abundância da música sem qualquer desígnio, Maria-Gracia Latedjou traz uma tonalidade que vibra com o mundo, é o poder do som belo a atravessar memórias criando rostos de mulheres incendiárias. “O Baile dos Sentidos” é uma proposta ousada e transcendental. Nota a nota, a música ergue-se espiritual, transporta-nos ao vazio, ao insignificante.

Em todas as suas “tonal idades”, Latedjou discerne-se música silenciosa, diversidade sem lei, porque o CORAÇÃO é maior que o mundo, mais elevado que a consciência e o entendimento.