Dieji corria, ia tão apressada quanto o seu respirar. Numa ida perenal, no que parecia um túnel negrejado com uma única janela no além, levava as dores do seu corpo manchado, mas dessa vez sem medo. Ela era mulher de porte africano, contudo não eram as nádegas que a cansavam. Dos cabelos que pareciam pedúnculos de imbondeiro escorriam as mesmas águas que se faziam lágrimas e deixavam nas elevações do seu rosto genuíno linhas de choros antigos.

Lá ia Dieji. Enquanto corria, via-se impossibilitada de fazer distinções, tudo estava à beira de vanescer ou já o tinha feito. No começo, não sabia exactamente por que razão corria, só que incansavelmente o fazia. Ainda com os pés activos, virou-se para confirmar que atrás de si realmente havia um gigante, tal como faziam-lhe pensar os sons agressivos de botas militar. Parar de correr não pareceu-lhe aconselhável nem mesmo quando além de um passado escuro nada mais viu. Os sons agressivos eram os mesmos que os das noites cálidas, as pegadas que se desfaziam no enevoar pareciam as mesmas cicatrizadas nas suas costas. O barulho do silêncio que a incomodava plagiava o da voz do ébrio ser que, num dia, juntos perderam-se em sonhos e juras; o mesmo dos seus dias primeiros, o único da sua vida, o que chamou verdade exclusiva. Tal som era incomparável, conhecia-o bem, então, ao ouvir, correr era natural.

Corria, ia tão apressada quanto o dançar dos ventos. No branco de um chegar que não podia adiantar, num distante alvo, viu o que nos olhos de qualquer desesperado parecia possibilidade e mais rápido ainda pôs-se a correr. Nos maboques que nela passavam por seios iam as águas dos quilómetros percorridos, desta vez mais açodados. O pouco de banha que ondulava o forno dos seus filhos oscilava ao ritmo dos pés calejados. Dieji ia! Sentia o desmedido bater do coração e desta vez já não era afeição. O sorriso não era o bobo, próprio de pessoa tomada de forte amor, era um que traduzia alívio. As borboletas que iam-lhe pelo estômago exprimiam um desejo impetuoso de reinventar-se. Via o excesso de agonia como o que lhe provocaria a metamorfose. A janela fazía-se mais perto.

Arte de Francisca Meireles: Chiquinha

No musseque em que nasceu, mulher alguma tinha reivindicado, aliás, os seus sete tios foram concebidos em noites pungentes. Os sons agressivos aumentavam na medida em que via-se a chegar, mas em contrapartida, o seu desejo de metamorfosear também o fazia. A luta deixou de ser pelo afrouxar das pernas, pelo descansar dos olhos, e passou a ser uma pela mudança da sua própria mente, pelo discernimento do seu querer e pela independência das outras. Deixou o suor que lhe banhava significar uma tomada de atitude há muito carecida. O chegar seria essa acção. — “Mulher não se comporta assim, filha” — ouvia agressivamente, desta vez aos pedaços. A voz da mãe quase já não se escutava pelos ruídos dos berros da avó: — “Vocês é que não aprendem, mesmo a vos ensinar, até hoje não sabem tratar bem dos vossos maridos, é por isso que eles se zangam” — berrava a velha. Enquanto isso, seus pés não cessavam, continuava a correr. Corria contra as correntes das normas da sanzala. Corria contra as correntes das vozes das senhoras grandes. Corria contra as correntes da escolha dos seus tios. Finalmente corria por si. Corria o mais rápido possível livrando-se de desnecessários decessos. Ia sem medo; talvez um pouco, mas não temia por si, temia pelo futuro do seu rebento feminino que pelo passado das suas já estava ameaçado também. Via nos soluços que a empurravam oportunidades para desfazer o ciclo, nos calores que alagavam os seus olhos inúmeras razões para acordar. Ainda custava-lhe acreditar que faria grandes coisas, mas tinha na cabeça que se lhe permitissem fazer uma coisa apenas, essa seria a sua ida. O chegar fazia-se alvo, mas não sem o escurecer do seu nó gargantal.

Numa ida agora vista perecível, no que parecia um túnel em degradação com uma única janela no além, levava a sua exsudação à uma realidade que parecia-lhe virente, mas dessa vez determinada. Pelo furibundo tossir que deixou sair ao duro e desesperado dançar das pernas esticadas no frio chão, a mão do poltrão que a tinha amoleceu e escorregou do pescoço. Em pé, distraiu-se com o reflexo do resto de beleza que portava. As mãos do bárbaro estavam ainda tatuadas nas vias do pescoço adiposo, sentia o peso dele nas dobras do seu ventre e isso via nas marcas deixadas pelos seus joelhos. Cada berro seu era visto nas feridas que trazia. Ao notar que no organizador de maquiagem frente ao espelho já não havia base nem pó suficiente para cobrir as manchas daquela noite, pelo espelho, no canto dos seus olhos, viu no rosto lacrimoso da filha, agarrada à porta entreaberta, razão para um último adeus. Com isso, confiava que Minguito, o seu filho pequeno, aprenderia que violência não era o seu gênero e Mionga, a filha mais velha, diferente dela, jamais precisaria se conformar com gigante algum e independentemente das botas militar a opção de ir embora seria uma que sempre teria à sua disposição.

Aos quarenta e poucos anos Dieji atreveu-se a crer em felicidade e ainda que só, uma sem dores. — “És tonta se achas que te vão aceitar com tantos filhos?” — Ironicamente, a primeira vez que ele dirigiu-se à ela de mãos vazias foi a última também. — “Boa sorte, Dieji!” — Expressou-se em tom sarcástico. Dieji abriu os olhos e, por fim, o branco que via no além eram as suas malas feitas.