É impossível não estar dopado com a marcha barulhenta da cidade de Luanda. Bom seria, se a pudéssemos rotular, assim como um dia fizeram à Nova Iorque – Nova Iorque nunca dorme! Luanda seria a que, quase, nunca te deixa descansar. Ela, até, dorme cedo, as ruas ficam isoladas já antes da viração da noite, ruas tristes e má iluminadas, sobretudo no tempo de cacimbo em que o frio penetra forte, e os corpos só se querem agasalhar, estar debaixo de um tecto.

Não é que o povo não aprecie as noitadas, é mais porque uma boa parte precisa acordar cedo por causa das estradas que são péssimas e esburacadas. E os transportes públicos? Não funcionam como deviam, e, como nem todos têm carros pessoais, a salvação é pegar um azul e branco. Apesar deste frenesim todo, certos fidalgos não precisam ser morcegos para ao trabalho chegar. Estes ainda vêem o raiar do sol, agasalhados em seus leitos cómodos, sentem ainda, debaixo dos lençóis, os clarões de um sol miúdo a trespassar a janela do quarto e a aquecer os seus rostos dormentes com o impacto de luz. Outros, como eu, dormem à noite e acordam à noite. É facto, existe um vampirismo mórbido nas ruas da cidade, patologia advinda das malambas desta terra, Angola, que um dia vai nos matar. Eh!

Nós os vampiros começamos o dia quando ainda os céus estão negros, cenas escuras, às escuras que nem os panos pretos da avó Palassa. Só não temos tantos pescoços suculentos para saciar a fome que nos corroí a cada dia. Ou sais cedo ou atrasas e levas faltas. E daí, o stress dos possíveis descontos. O remédio é mesmo acordar cedo, tão cedo que parecemos uns ladrões a espeitar a oportunidade ou talvez venhamos a ser nós a oportunidade de qualquer ladrão das 05h00 da matina. É o lado penoso de quem trabalha na baixa de Luanda e vive longe desta. As vias não são as melhores, os engarrafamentos fazem-nos ser Ninjas, Ninjas vampiros, que não se alimentam de sangue, pelo contrário somos os sangues dos vampiros antigos, o Drácula sabe bem.

Não há como tirar um cochilo a mais na cama, não há como retardar o despertador biológico cravado pela força da necessidade em nossos corpos já acostumados a esta sofrência, a este ultimato que a vida ou os filhos de Angola imputaram a nós. O resultado desta vida mesquinha de sacrifícios necessários por demais é, as tantas, babar-se nos táxis de tanto dormir, é perder-se espontaneamente nestes bancos que ouvem choros e lamentos todo o dia. Ao menos juntamos o útil ao agradável: dormes a caminho para o serviço, assim não nos atrasamos, e, na volta para casa, a treta é a mesma.

Luanda | Foto de Zeca Carlos Costa

 

Já me aconteceu muitas vezes dormir no táxi, bastou que estivesse sentada à janela, e recostado o ombro nela. Tiro e queda. É como se fosse transportada à terra do descanso, ao paraíso de Nárnia, ao musseque não é Luanda, porque Luanda parece cenário de fórmula 1, tudo às corridas. Muitas vezes senti os raios de sol se esbarrarem em meu rosto enquanto estivesse aí largada, no banco do Azul e branco, a caminho para o serviço.

Não há dias em que não durmo num táxi que apanho quando vou ao serviço. Parece que o clima dentro deste automóvel é espacial ou galáctico, já que me sinto a flutuar viajando na mente adormecida em mim mesma, e flutuando enquanto o táxi vai, que mesmo com as paragens repentinas, os anúncios “vou ficar cobrador!”, eu nada! Por pouco, pelo menos, recompenso as horas em que devia estar confortável debaixo dos lençóis.

Quase sempre não noto os supracitados acontecimentos, porque quase sempre há uma música a encher a atmosfera do veículo, deixando o clima propício para uma boa soneca. É perigoso, mas é curioso, ah. Minha alma suspira e quase não consegue tecer comentários mais dóceis que estes. Não importa a hora, seja de manhã ou de noite, o sono está aí, o cansaço não perdoa, o corpo é que paga, e as janelas da alma também se cansam de tanto espreitar a correria desta cidade. E sempre vou eu aí largada, no sono dos táxis, tentando estar concentrada para não passar a paragem. Minha sorte é que eu esgoto sempre o limite, pois minha paragem é o término, senão há muito que estaria lixada nestes vai e vem por entre o mundo dos sonhos nos táxis da capital.

Estas são as malambas da vida: de tanto labutar, a pessoa dorme ali e acolá. Mas é importante manter-se vigilante para não acabar raptado, numas destas noites, por ser o último passageiro do táxi e seguir à viagem toda à soneca.