O dia seguinte na minha banda começa mesmo antes de dormirmos. Para cama, já vamos com uma calculadora mental, um bloco de apontamentos e com o corpo cheio de comprometimentos. A luta começa na tentativa de associar o dormir e o descansar também, mas se conseguires os olhos fechar e abrir na próxima aurora, já é motivo suficiente para agradecer ao omnipotente Nzambi pelas maravilhas que ele opera.

Tempo de lavar a alma abstracta, também conhecida por “corpo”. A fornalha da minha capital rebenta com a vontade de deixar o mbangi, mas a fome que vive no nosso anexo encoraja-nos mesmo a inventar um mambo, só para as crianças não morrerem à fome.

Entrei no banheiro. Abri o chuveiro. E como gotas da pólio a água saía. Era o início de uma jornada nacional já habitual. Esse mambo já não me deixa triste. Nasci na República do “Deus nos Acuda” e não seria a falta de água na torneira que me ia deixar mal-disposto. Peguei uma garrafa de água mineral que é usada para a lavagem da genitália das crianças – porque, com essa água, só estaria a dar boas vindas às doenças cá no cubico – e pulverizei o rosto. E, com um dos indicadores, fui afastando com garra a ramela que vivia no canto mais recôndito do olho esquerdo. Assim começava mais uma indesejável, mas obrigatória caminhada.

As cambalhotas, as ginásticas, a corrida de estafeta e o engarrafamento são cartões postais da bandula. Que angolano é esse que, quando vê um polícia de trânsito, não tem tremuras? Nasceu aonde? Pai dele é quenhê? Você até entra em monólogos: “Mas eu até estou em dia com a documentação…! Está a me mandar parar porquê? Suor até frequenta bandas invulgares no corpo dum gajo.

Mas, na luta ou não, um gajo quase que consegue resolver as makas prioritárias, deixando mesmo aquelas que dependem dos padrinhos que habitam na cozinha serem resolvidas com oração.

Hora de bazar para casa, já quase castanho por culpa do nosso oxigénio de uma composição química que refuta a lei de Mendeleev, esperava encontrar um coxi de água para tomar “um pouco de banho”.

Antes entrar para o cubico, notei, logo na entrada, no tapete, um papel com aspecto de problema: Era um papel de cobrança de dívida da EPAL. Olhei bem para o papel. Apoiei-me na parede. Respirei fundo. Rebentei em tom bem alto e rabugento: isso só pode ser azar! Mas assim tomei quantos banhos por dia, para trazerem uma factura de 22 mil kuanzas só referente ao mês de Outubro do ano passado? Será que andei a vender água na inconsciência ou a regar os jardins que não tenho? Precisava refrescar o corpo.

Abri a torneira e já um líquido traspassava o orifício da mesma. Mas não percebia se era mesmo água ou outra coisa. Era um líquido castanho com muito mau aspecto. Tomar banho com aquele mambo estava a dar medo, mas, depois, sentei e comecei a reflectir:

– De manhã, não tomei banho, porque não havia água; cheguei em casa e encontrei a cobrança dos dreds num valor assustador; abri a torneira e jorrava um líquido que se parecia com água… Então, quer dizer que…? Pois claro! Era sumo de múkua! Só então passei a entender o valor exagerado na cobrança. A EPAL começou a distribuir sumo pelas torneiras, de vez em quando, para não deixar seus clientes chateados com os valores que aparecem nas cobranças. Alguma coisa tem de justificar o bónus indesejável.

Assim mesmo fiquei sem tomar banho.