Sem a pretensão de juízo de valores, em quase todas as gerações houve e haverá casos de plágios, roubos e mediocridades, mas não deve servir para justificar os nossos actos. Contudo, no ângulo da moralidade, um homem que pede desculpas pelos seus actos está em reconciliação com a sociedade, sobretudo com a sua consciência. E não há pior terramoto do que estar em guerra com a nossa consciência.

Embora sejamos resultados e parte integrante de um sistema literário viciado, sobretudo, com uma literatura em que a sua instituição está à sombra do poder político e instrumentalizada à favor de egos e grandezas utópicas o que impossibilita, infelizmente, a massificação de uma literatura mais capaz, mais dialogante, mais interventiva nas diferentes esteiras sociais, não podemos deixar-nos cair na tentação da irregularidade por ser o caminho mais fácil. 

Do ponto de vista moral, entendemos que não existem plágios maiores ou menores; roubos maiores ou menores; peculatos maiores ou menores, embora os danos causados não sejam a mesma dimensão proporcional do ponto de vista material, psicológico e humano. Mas, na perspectiva da dialéctica moral, a proporção é a mesma em contextos circunstanciais dicotómicos. Não podemos continuar a pensar que o acto de plagiar seja mais, ou menos, imoral do que o acto de desviar somas do aparelho do Estado.

Portanto, pensar que o acto de plagiar seja uma questão menos imoral pelo facto de o país estar cheio de malfeitores é construir um o mar de imoralidade à volta da sociedade. Não se pode justificar os erros, colocando sempre em causa a moral de todos. Assim sendo, estaríamos a montar uma roda dialéctica perpetuada na ideia giratória de que fiz por não ser o único. Contudo, devemos reflectir por serem sinais de estarmos a falhar na construção da literatura como manifestação artística e institucional.

Entre o pequeno e o grande plágio, tudo é plágio. De certeza que muitos são vítimas de um sistema literário inoperante e outros servem-se das fragilidades vigentes do sistema ao seu favor. Há não ser que se cogitem razões imperativas. Contudo, ludibriar um sistema literário viciado ou não é uma questão de escolha. Daí que o discurso comparativo de que existam actos similares para se justificar o acto de plagiar é uma tese tautológica.

A disfuncionalidade moral de se justificar um acto falível com outro acto falível ou um erro com outro erro é, a princípio, outro acto imoral. Pois que, na perspectiva da violência simbólica generalizada, acaba por pôr em causa todo um sistema literário. Em todo caso, para que se evite sequelas psíquicas advidas da violência simbólica, deve evitar-se o discurso da generalidade, da justificativa, sobretudo o uso da violência linguística sobre a pessoa.

Portanto, embora haja implicação entre o acto e o sujeito, entendemos que o mais importante é a discussão categorizada sobre o acto e não sobre o sujeito.