Apoderado por diversas sensações, sobretudo euforia, A Arte de Sentir é uma das obras literárias que assistiram a nossa estreia no mundo das letras, particularmente a entrada precoce ou matura no universo da leitura, gizada pelo poder arrebatador da catarse, pelo que mantivemos o primeiro contacto nos recuados anos de 2010, enquanto estudante caloiro da antiga E.N.P.P.I. – Escola Nacional da Polícia, Protecção e Intervenção (Kapolo2), onde frequentávamos o II Ciclo do Ensino Secundário, curso de CiênciasHumanas. Movido pela forma incrível como o poeta usa as palavras, de lá para cá, lançamo-nos um repto: aprofundar o estudo da obra literária que se intitulaA Arte de Sentir.

Hoje, apesar do “retrocesso” de três anitos de estudos universitários, no ISCED – Instituto Superior de Ciências da Educação –de Luanda, na especialidade de Ensino da Língua Portuguesa, num gesto de gratidão e apreço pela nossa formação académica, em ciências da humanidade, eis-nos a tecer algumas considerações à volta de A Arte de Sentir, da autoria de Orlando Victor Muhongo, de seu nome próprio e oficial, escritor que nasceu a 30 de Setembro de 1982, terras do Bago Vermelho (Uíge). Para além da sua obra estreante (2007), ele pontua, ainda, no campo literário,com mais uma obra de poesia (Maresia – 2014), e outros dois títulos (Os Angolanos que Libertaram Mandela – A Desconstrução de um Mito – 2016, e O Impacto das Telenovelas Brasileiras nos Luandenses – 2017), publicados, em parte, como corolários da sua energia e da sua cosmos visão como académico, licenciado em Relações Internacionais, e mestre em Relações Interculturais pela UniversidadeAberta de Portugal, tendo sido agraciado, ainda no vitalício estágio da sua adolescência,com um Prémio de Poesia, categoria de adultos, pela Liga Africana, em alusão ao dia da Paz. 

A respeito dos sistemas de sinais convencionados para comunicação humana, a produção de textos criativos revelam-se-nos como um marco fixo e aberto para recordações intemporais, tanto é que dos estudos que são feitos pelo homem, sobre o mundo, a verdade, a vida e a morte, etc., surgem registos datados, aduzidos para perpetuação da memória, da história e da cultura de um povo. Alguns dos exemplos destas práticas, de cultuar a história temporalmente, são as artes rupestres, no morro granítico de Namibe, Angola,também conhecidas como as figuras de Tchitundu-Hulu, distando 137 km Leste da Cidadede Moçâmedes. Com a escrita e outros códigos pictóricos, o homem pôde vencer a imprevisibilidade do tempo e livrou-se das malhas do esquecimento.

No esforço de se exteriorizar as pulsações vitais e o prolongamento da psique humana, temos A Arte de Sentir. Com uma pena esmerada e uma sensibilidade apurada, conotação à risca, versos soltos ou brancos e algumas rimas cruzadas, emparelhadas e interpoladas, entre as quais perfeitas e imperfeitas, mais o recurso ao paralelismo e outras figuras de sintaxe, Orlando Kinguzo desperta, em nós, através do seu manancial poético, a genuína essência da poesia, o encanto, factor determinante para condenação dos poetas por Platão (na antiga Grécia). Atestemos, texto Morto (p. 15):

“Morto na mente

De quem me rejeita,

Perto e distante

Da escolha certa.

Dentro dos sonhos

Que a realidade duvida,

Dentro das amarras

Da liberdade oprimida”

Num mundo onde pontuamos suspiros e vislumbramos os factos, os fenómenos, com projectivos binóculos de uma realidade subjectiva, cada vez mais possessa, possante, materialista, calculista e individualista, os feitos meritórios de um indivíduo podem figurar-se como objecto de escárnio,amargura ou arredio para/de outrem. Assim, é possível sermos amados por alguém que nos detesta? Certamente, apagados e mortos estaremos na consciência desta pessoa, para o nosso consolo!

Outras características, para além das atrás aludidas, podem ser confirmadas em “O Nascer da Poesia” (p. 13), onde a anáfora é, também, uma presença constante:

“A poesia nasce no embalar

dos sonhos que adormecem

nos braços da minha imaginação,

A poesia floresce no cintilar

dos sentimentos que tecem

em mim laços de paixão.

A poesia dança

ao ritmo do sossego

(…)

A poesia alcança a alma do fogo

que em mim se quer acender.

A poesia inventou-te

no esplendor dos meus sonhos,

A poesia converteu-te

em fonte de afago e carinho”.   

Às vezes, a vida veste e reveste-se-nos de intermináveis rodeios. Para quem não viaja, há minutos ou séculos, ser-lhe-á dado o passe livre,pelas mãos, lendo A Arte de Sentir, onde o fluir de um vocabulário diverso,raro e riquíssimo em imagens, cria rios de visões mentais, dos quais, num simples percorrer de páginas, conseguimos reencontrar-nos com a mais remota civilização africana, e, por coincidência, a primeira que o mundo conheceu, o EgiptoAntigo, em reminiscência aos Faraós ou à deusa Nerfertiti, trazidos à nossa presença quer pelas areias movediças do deserto, quer pelo utópico esquecimento onde foram afunilados, e, com eles, as demais mulheres africanas (“Presidiárias da realidade”, p. 32), que se dedicam à empresa da promiscuidade, “beijando bocas”.Entretanto, as outras, a quem o sujeito poético se dedica, vivendo todo esfarelado,manso e submisso, em “charcos de palavras insípidas” se dissolvem, motivo pelo qual o mesmo se questiona: “Seria heresia pensar/ Que o amor não existe?”(p.67).

O dia-a-dia constitui-se numa nebula de duvidosas certezas, porém, só a re-flexão, o eterno movimento de retorno do homem no homem, para sanar todas as suas feridas milenares, daí encontrarmos emA Arte de Sentir sujeitos poéticos destemidos, irmanados nas diferenças, fortes na diversidade, e que se prostram diante dos valores tradicionais e religiosos,representados pela autoridade do Ngana Soba ou pelo poder espiritual chinês –Confúcio, mas que não se curvam ante às barreiras da vida, nem cedem o braço a torcer diante de uma invasão epidémica e de seres extrínsecos sobre os seus limites territoriais, sob jurisdição própria:

“Como se Mbemba Ngango

Amaldiçoasse as vindouras gerações,

(…)

vê-se a discriminação e o isolamento

Sofridos pelo ser Uíge,

Ainda que atinjam Dange Quitexi…

O Uíge resistirá.” (p. 41)

O sinal de resistência e o sentido de irmandade podem-se confirmar no texto “Amigo Mongol” (p. 41), antropónimo e correlato ao topónimo de um povo oriundo da Ásia Central, que em A Arte de Sentir se assume como metonímia de República Popular da China, irmã de Angola, com maior relevo nas relações diplomáticas:

“Bom dia

amigo mongol,

já é dia,

vislumbrai a hospitalidade do meu sol!

(…)

Se ressuscitares o meu ser

desde o mar às chanas,

valerão as duas taças das águas de Yang Tse.

mas se Ngana Soba adormecer

diante das lições de Confúcio das Chinas,

não se erguerão as honras e glórias

que mereceis.

 Das correntezas do Kwanza

não transbordarão mais vénias

(…)

se ocidentalizares a honestidade

de tua natureza,

sufocarei em mim as aleluias

e já mais direi: ni hau!”

A arte consiste na criação de possibilidades. O poeta,vidente e intemporal nas suas especulações oníricas, inventaria factos monumentais onde os argumentos escasseiam e as provas se calam, à excepção dos versos.Sendo assim, na sua faina de enformar o belo, um artífice da palavra, comovido pela sua gente e a sua humanidade, ainda que represente um ente individual,encarna as preocupações de um colectivo, o que pode vir a acontecer pela voz questiúnculade um eu lírico, para o qual o “passado presente pouco ou nada mudou”, por isso transmite-nos a fé de que lê “os teus discursos no falarmento”, e interpreta“promessas vazias e mais nada”… lê “a exclusão do jovem no teu projecto”, e interpreta “fomento de futuros marginais”, para se comprovar em Hermenêutica daVerdade (p. 34); ou ainda, lê no (De)Capita(r)lismo Selvagem, no qual, “Pelo lucro, fede corrupção/ publicitada pelo luxo do deslumbrante carrão”… fedem também “jovens concubinas/ [desgovernadas] nas esburacadas esquinas”; pelo lucro, “condenou-se a moral ao extermínio”… e, como se não bastasse,“Privatizou-se o paraíso que herdamos/ e miseravelmente mendigamos/ aos estrangeiros migalhas de pão” (p. 48).

Os actos do homem, tanto os viciosos quanto os virtuosos, certamente condenam-no. Não terá sido esta a linhagem do pensamento dos grandes naturalistas de carisma empiristas, entre os quais Thomas Hobbes(1588-1697), que, no âmbito dos estudos dos factores da instabilidade sociopolítica, imputa a culpa aos humanos, afirmando que o homem seria o lobo do próprio homem, na busca dos meios de produção para o seu auto-sustento (?!).Pois, como se perceber a fria indiferença humana em permanecer diante de situações adversas a si, e até catastróficas, e continuar intacto, impávido, frio,tão frio como o inverno moscovita? Vejamos (p. 32):

“A caminho de Damasco

Deparei-me com São Paulo,

Rodeado de zungueiras

Mulheres vilipendiadas,

(…)

Sim, deparei-me com São Paulo!

O filho da Santa Luanda corrompida,

(…)

Se te deparares com São Paulo

Sem fumares os vidros dos teus olhos

Descobrirás que ainda és animal irracional.”

Num mundo consumista, egocentrista, onde os apetites humanos se confinam à saciedade da carne por um animal feroz, a“liberdade”, para a maioria desfavorecida, torna-se mitológica, e “as leis, falsas alquimias”, correspondem à “voz do martelo…/ a voz das hipocrisias/ que para o Homem o Homem” as faz! (p.. 36).

Das vezes que lemos uma obra poética, não nos lembramos de uma única em que nos confrontamos com alguma poesia que não faça alusão às expressões da sexualidade, particularmente o amor, e A Arte de Sentir não vincaria como as marteladas da Jurisprudência que faz valer a força da excepção,pelo que o encontramos aqui, nas mais diversas formas, até mesmo sob avoluptuosidade de Eros em erupção, sob a nudez da deusa Vénus, Afrodite, que chegam a resfolegar o ânimo do sujeito poeta, através de um charmoso eu lírico,para o qual “basta que a paz de espírito [dele] / Se resuma no nome da musaNeusa, para que [ele] viva…” (73).  

Enérgica na perspectiva sentimental, A Arte deSentir transmite-nos incrível fulgor, paixão avassaladora, e muita jovialidade poética, resultantes da inebriante magia com que kinguzo pinta o artefacto literário. Com uma pena que percorre noites frias e amargas, Orlando apresenta (em60 textos) a impossibilidade de o ser humano viver sem sentimento (“fizessem-me pedra,/ e o tacto ensurdecido/ não escutasse/ as carícias de palomas/ e serpentes,// Ainda assim,/ meu coração falaria/ porque está condenado a sentir”. p. 14), por isso, os diferentes sujeitos poéticos, devotos à efusão lírica, tentam reconstruir, dos escombros, um mundo dilacerado pela coisificação da vida, do homem e do mundo, desabrochando, em nós, a sentença com que diariamente somos julgados pela “eterna orfandade,/ a infância abortada/ a precoce maturidade”, para tudo se consumir, em derradeiro dó poético:

“Como se Deus eu pudesse questionar,

Como se a vida eu pudesse condenar!

No cerne da minha fé

Corre um rio de porquês…”

Aqui, vemos a felicidade da poesia como anestesia e, consequentemente, terapia.

Por uma questão de epistemologia e inteligibilidade das coisas, a Instituição Literatura convencionou e universalizou os padrões de textualidade, a que denominamos, intencional e subjectivamente, de vitalidade poética. Todavia, do clinico olhar à vitalidade poética em A Arte de Sentir, muito temos a dizer, mas deixamos o resto para outras análises.