”Toda vida humana é um sonho” – Fernando Pessoa

 No verão de 2006, enquanto viajava pela Europa, tive de fazer uma paragem rápida em Toulouse, por algumas horas, mas acabei por ficar quatro dias devido a um inesperado mau tempo. Chovia pouco, mas as nuvens que estavam carregadas como algodão ensopado e a baixa temperatura e os fortes ventos sem direção fizeram com que vários voos fossem cancelados inclusive o meu para Paris, naquela mesma noite. Liguei para a minha secretária em Luanda logo que me apercebi disso e pedi que cancelasse todas reuniões marcadas para os próximos seis dias e que se desculpasse aos nossos clientes pelo transtorno. Visto que não havia nada que podia fazer para mudar o tempo, decidi ficar por um dos hotéis no aeroporto Toulouse-Blagnac e evitar transtornos adicionais, pois as ruas daquela cidade e suas estradas estreitas estavam um caos. A desordem era visível dos portões do aeroporto.

A procura por hotéis naquela noite tornou-se ferrenha, por isso, sem muito analisar, nem prestar atenção ao número de estrelas, decidi ficar pelo primeiro hotel disponível e com o preço tão racional. Decidi ficar, durante os quatro dias, confinado num quarto desse mesmo hotel.

Subi até o andar que me foi indicado, falei com a recepcionista e, a partir daquele momento, despertou em mim o arrependimento de ter feito uma escolha pouco calculada, o que era um comportamento atípico de mim. Apesar da educação com que a recepcionista falava comigo, senti uma estranheza a tomar conta de mim e, por alguns segundos pensei em chamar um táxi e procurar por um hotel na cidade, mas acabei por desistir no meio do meu pensamento e refutei a ideia de enfrentar aquele tráfico horrível. Após as indicações da recepcionista, segui por um longo e escuro corredor que parecia infinito. Na escuridão, quase perdendo já as esperanças, encontrei as escadas das quais a recepcionista falara e subi dezoito degraus destas e do meu lado esquerdo vi o número cento e sete vermelho florescente. Era o meu quarto.

Já no quarto, tomei um banho quente e logo que sentei na cama para ler, notei que faltava uma de minhas malas, imaginei que esquecera na recepção e decidi ligar a perguntar. Percebi que a linha telefônica não funcionava, resolvi então descer. O corredor que já era quase infinito, pareceu alongar-se ainda mais. Sempre fui um homem muito bravo, mas alguma coisa naquele lugar me fazia apavorar, perder as forças e ser consumido por uma fraqueza descarada. Pensei que fosse o frio que fazia em Toulouse, mas não era. Enquanto caminhava, senti que havia alguém naquele corredor tenebroso, mas preferi mentalizar que não e continuei a andar por mais alguns segundos quando notei que estava outra vez em frente das escadas que davam para o meu quarto, o 107. Meu pavor aumentou, minhas pernas enfraqueceram outra vez e lembrei que não havia comido nada desde aquele macarrão com legumes e o sumo de maracujá da noite passada enquanto atravessava o Atlântico. Me recompus alguns segundos depois e decidi refazer o trajecto até a recepção que resultou perfeitamente, como que se percorresse outro caminho, como que se estivesse num outro andar, num outro lugar, num outro mundo, vivendo uma outra vida que não me pertencia.

O rosto que me recebeu na recepção não era o mesmo, os olhos vermelhos e o cabelo grisalho eram de alguém já com certa idade, diferente da jovem mulher de alguns minutos antes. Imaginei não ter nenhum significado peculiar que não fosse uma troca de turnos, assim como, na vida que quando a juventude se ausenta, a velhice se apresenta com seus olhos desconhecidos, novos sonhos e amores, assim também como quando a felicidade e a liberdade se retiram de nosso ser, e somos consumidos pela tristeza e sua devastadora opressão.

”Sua mala não está aqui, meu senhor”, respondeu o homem dos cabelos grisalhos com uma educação refinada, requerida de sua idade avançada. Depois de confessar-lhe o motivo pelo qual aquela mala era de extrema importância para mim, ele sugeriu que subisse até ao terraço do prédio onde encontraria uma pequena livraria e poderia comprar livros para passar aqueles quatro dias de confinamento no hotel, assim o fiz e escolhi um livro de poesia.

A primeira noite foi tranquila, a segunda também, acabei de ler o livro e subi para buscar um outro no terraço do prédio. Acabei por escolher um livro em Francês, apesar de meu Francês pouco fluente. O livro tinha especificamente seis contos distribuídos entre cem páginas, e um deles, o último, falava de uma estranha nação que vivia num prédio, numa das mais antigas cidades franceses. Nessa nação, não existiam governos nem religiões, nem crimes, a liberdade era absoluta, e tudo que as almas desejavam fazer, era feito, tudo que os corpos ordenavam, era cumprido imediatamente. Porém, nem as almas desejaram, nem os corpos ordenaram alguma coisa que pusesse em causa o bem-estar dos habitantes daquela nação. A paz e a união reinavam. As pessoas casavam-se, mas nunca chegavam a procriar, viviam mais de quinhentos anos e não chegavam nunca a adoecer e morriam apenas como num toque de magia. Desde quando foi formada aquela nação há milhares de anos, ninguém entrava naquele prédio e ninguém saía dele. Eram apenas eles e suas monótonas vidas, uma nação perfeita no meio do caos existente nesse imenso universo. Uma nação daquelas que só vimos em filmes e lemos em livros de pessoas cuja capacidade imaginativa ultrapassam a de humanos convencionais. Enquanto aproximavam-se as últimas cinco páginas do livro, o sono consumiu meu corpo, deixei-me viajar e larguei o livro sem me importar com o que havia aprendido da minha avó, quando mais menino, sobre o poder das palavras, tanto as pensadas, escritas e as faladas. Para a minha avó, as palavras tinham mais força do que nós, simples humanos, e cheios de nós, imaginávamos. Segundo ela, as palavras deveriam ser cuidadas como que nossos eternos amores, as pensadas, porque nunca deixam o nosso ser, ”somos pensamentos falados”, dizia ela acrescentando que ”perpetuamos as palavras pensadas quando as escrevemos em outros corações humanos, fugimos de nossos pensamentos quando falamos palavras que nada significam para nós. Mas as palavras que falamos têm sempre de significar algo para nós, meu neto, porque fomos feitos de palavras pensadas e falar sem pensar é como viver na ignorância”. Lançar um livro ao chão era um acto condenável por minha avó, era um desrespeito às palavras e querendo ou não haveria consequências, e assim foi.

Acordei com um barulho que não consegui reconhecer logo de primeira, parecia tratar-se de um avião mas logo percebi que era um comboio. Eu estava em um comboio. Estava tudo escuro, e ouvi vozes em idiomas distintos que não conseguia reconhecer que nunca meus ouvidos tiveram o prazer de escutar. Depois de alguns segundos, uma luz intensa viajou por meus olhos, senti uma pancada na cabeça e desmaiei.

Quando reabri meus olhos, estava ainda no mesmo hotel em Toulouse, mas tudo era diferente. Estava no meio de uma rua rodeado de seres humanos gigantescos, com rostos idosos e corpos juvenis. Foi apenas naquele momento que descobri onde estava. Ouvi alguns passos e notei que aqueles seres gigantes abriam espaço para alguém passar: ”seria um rei?”, indaguei-me rapidamente e respondi mais depressa ainda que ”o livro não citava reis, então era impossível que fosse um, e se existisse outra explicação, estava prestes a descobrir” e assim foi.

Seus passos gigantescos faziam-se sentir em meu corpo, e quando estava a menos de um metro de mim, levantei meu rosto e vi que era uma mulher, a recepcionista de minha primeira noite no hotel, mas gigante, com olhos enormes e cabelos que dificultavam minha visão. Por ser a única naquela nação que conseguia entender o que eu falava, foi a escolhida para fazer um comunicado importante, tanto para mim como para os todos os habitantes daquela nação. Começou por fazer um resumo daquilo que era a história daquela nação, desde a criação por um deus que era também um poeta, até àquele momento crucial na história deles, o momento em que alguém voltou a entrar naquele prédio desde quando o poeta, o deus que os criou, saiu pela porta da frente e com a sua poesia mágica fez o prédio tornar-se invisível. Contou como mantinham os rituais deixados por aquele que foi seu criador, e como, após cem anos, cada uma das pessoas era obrigada a jurar nunca deixar aquele lugar, se algum dia alguma maneira fosse descoberta, caso contrário seria condenado à morte, que apenas levava os seres daquela nação de forma natural. Mas que agora as coisas haviam mudado, havia uma necessidade urgente, eu. Eu era a coisa que muitos juravam que aconteceria em breve, alguém que fosse mais sábio que o poeta criador e que conseguisse entrar naquele prédio. Formaram-se ceitas no meio da nação que, por muitas vezes, quase destruíram a estabilidade, mas que estavam certas, eu havia chegado! Por último, ela disse que havia três propostas para mim: a primeira que seria entrar no maior quarto que havia naquele prédio e sentar-me na cadeira de diamantes que um grupo de jovens havia fabricado há alguns anos quando os rumores sobre minha aparição começaram e sobre a possibilidade de ser o rei deles; a segunda seria contar como havia eu conseguido chegar até eles sem existir um caminho para aquele reino outrora desconhecido e viver com eles para sempre em harmonia e paz; a terceira e mais cruel aconteceria apenas, se não aceitasse nenhuma das opções anteriores, essa que seria morrer sem nada declarar e confirmar que seres perfeitos não existem, nem mesmo o poeta criador daquele reino, pois alguém conseguiu entrar em seu reino oculto. Sem saber o que fazer, fechei os olhos, respirei fundo e quando voltei a abri-los, era manhã e estava dez minutos atrasado para a minha viagem a Paris.