Desde setembro de 2016, a cidade de Luanda ganhou mais um espaço dedicado às artes.

Para os leitores que puderam acompanhar a edição passada da revista, deve ter sido notória a falta de opção que tivemos, a não se fazer uma (pequena) retrospectiva de 2016, o incrível ano da cultura em Angola. (In)Felizmente, não tivemos páginas suficientes para abordar todos os promissores projectos que foram desenvolvidos, nem metade deles, e é por esta razão que a Palavra&Arte continua a buscar notícias do cenário artístico para alimentar a vossa art addiction.

No dia do Herói nacional, Cabingano Manuel – jornalista de profissão, docente e director dos conteúdos institucionais na TPA – inaugurou, por iniciativa própria, o já tão visitado Espaço Aplausos. Com o intuito de trabalhar no desenvolvimento e formação da consciência dos moradores da Cidade do Sequele, o projecto chega com um teor essencialmente social, onde os seus estudantes têm a possibilidade de pagar um valor abaixo do que é cobrado no mercado actual, exactamente para que cada vez mais pessoas tenham acesso às artes.

Numa altura que se tem falado muito de uma diversificação da economia, Cabingano mostra-se preocupado com o estado da arte em Angola, não consegue perceber porque a arte não é vista como uma ferramenta indispensável para que este processo seja feito com celeridade. De certo, o Aplausos chega para mudar esta visão, visto que promove e incentiva a formação artística; entende que a arte é fundamental para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

Numa breve e importante entrevista, o jornalista de 34 anos e pai de dois filhos, explica-nos quais são os seus planos e como tem sido a gestão do espaço que, particularmente, já é um sucesso.

P&A: Numa pequena apresentação, por favor, diga-nos: Quem é o Cabingano e o que faz?

CM: Cabingano Vidal Manuel é o meu nome. Sou casado e com 2 filhos. Para além das funções já conhecidas, sou formado em sociologia, pós-graduado em gestão estratégica da comunicação e em jornalismo investigativo, tenho mestrado em administração pública. Na TPA, coordeno os programas Segurança Pública, Vencedores e Angola Magazine e apresento o Hora Quente.

O que é o Espaço Aplausos?

É um projeto que surgiu por iniciativa minha, consegui a parceria da administração da cidade do Sequele, onde decidi implementá-lo. Queremos, através das artes e línguas, promover cidadania na cidade, de modo que as pessoas possam encontrar nas artes um escape para a vida.

 Onde se localiza e porquê?

Localiza-se dentro da Cidade do Sequele, exactamente na rua 3, bloco 5. Penso que o Sequele fica longe dos principais centros de eventos culturais de Luanda. É necessário chegar a todos e por aqui já há muita gente a morar. Porque não?

 Como jornalista, de onde tirou a ideia de criar um espaço como este?

A ideia surge, porque sou uma pessoa que sempre foi ligada às artes. O teatro foi fundamental para minha formação enquanto ser humano e na formação profissional. Por esta razão, entendi que é fundamental levar às pessoas as mesmas oportunidades que eu tive, levar estas manifestações artísticas, não apenas para entreter, mas também para formá-las. Decidi desenhar um projeto em que o nosso principal viés é a cidadania; um projecto social, porque entendemos que a arte é fundamental para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

 Qual é a sua política? O seu objetivo principal?

  O nosso principal objetivo está resumido no nosso lema: mais cultura, mais cidadania.  Entendemos assim que o espaço joga um papel decisivo na formação da consciência dos moradores, numa consciência cívica, porque temos cursos que, não apenas formam artistas, formam homens.

 Que tipos de aulas oferecem?

  Lecionamos dança, canto, piano, guitarra, artes plásticas, teatro e tv e estamos também para iniciar os cursos de inglês e francês.

  Acredita que tem conseguido alcançar os objectivos?

 Sim, e temos recebido da parte dos moradores do Sequele um retorno muito grande.

 Como pensa em expandi-lo e fazê-lo chegar a cada vez mais e novas mentes?

 O conceito Aplausos enquadra-se em qualquer espaço, circunstância e contexto. Portanto, no futuro, penso, talvez, em levá-lo a vários municípios do país; deste jeito, estaríamos a atingir o nosso objectivo, a promover e a incentivar a formação artística de uma maneira mais macro.

  Acredita que o seu trabalho como jornalista o deixa mais perto das novidades deste mundo? Se sim, como tem aproveitado esta oportunidade e conhecimento para engrandecer o espaço?

 Com certeza. Tenho aproveitado bastante o facto de ter um grande network para comunicar o espaço e para levar ao mesmo pessoas que se identificam com a causa, que nos ajudam a promover e a levar a cultura para esta cidade.

O que tem programado para os próximos meses?

O espaço realiza eventos todos os finais de semana, para além das aulas que ocorrem de segunda a sábado, que têm o objectivo de entreter e informar por via das artes. Fazemos shows de gospel, humor, música clássica e muitos outros que aconteceram e os que ainda pretendemos realizar.

Mas para os próximos meses temos alguns eventos já fechados. Pretendemos trazer artistas como Calado show, Kid Mc e Kiaku Kiadafi.

 Quais são os planos a longo prazo para o Aplausos?

Encontro-me preocupado com o estado da arte em Angola, num momento que se fala de uma diversificação da economia, mas não se entende que podemos ter esse tão comentado processo de diversificação através das criações artísticas. Nós precisamos potenciar as pessoas para que se tornem criadores, porque o artista acaba sendo um individuo que vai conseguir auto-sustentar-se e criar postos de trabalho. A arte pode servir de instrumento para melhor incutir na mente das pessoas a necessidade de todos trabalharmos para que a diversificação aconteça. Ela tem presença muito activa na vida das pessoas e não é à toa que o homem é um ser cultural. Todos os dias, temos uma reunião obrigatória connosco, procuramos, em nós e no contexto em que estamos inseridos, aspectos que nos remetam à nossa essência de ser cultural.

 É notório o crescimento de casas voltadas ao ensino das artes nos últimos anos. Acredita que as mesmas têm acrescentado?

Penso que sim. O surgimento de mais salas de espectáculo e academias é uma mais valia. Eu sou do tempo que se fazia teatro sem escola de formação de actores; hoje temos o Isart, por exemplo, que muitos nem sabem que existe, mas lá há cursos superiores de teatro, dança, design, artes visuais. Isso é válido para o país, ja que não podemos ter apenas curiosos na arte, mas académicos. Temos de ter jovens que compreendam o fenômeno artístico do ponto de vista científico, porque a arte obriga essa cientificidade. É preciso investigar, fazer estudos de casa em relação às nossas manifestações artísticas.

Estamos com bom andamento, e o Aplausos tem de imitar os bons exemplos que temos, cá dentro e fora do país, que já estão mais mergulhados, para alcançarmos resultados imbatíveis. Quem forma um artista forma um cidadão e é por isso que estamos a lutar.