A cultura, grosso-modo, satisfaz necessidades humanas específicas. O homem é o único ser vivo que precisa constantemente de se referenciar, identificar, simbolizar, dar significado às coisas. É a eterna cultura da reflexão, sustentação e profundidade! Necessidade de compreensão do outro, entrosamento ou, até mesmo, contradição. Por isso, o Estado tem um papel no desenvolvimento cultural da arte aberta, ampliando o acesso para universalizá-la, limar arestas e definir barreiras que levem o cidadão, principalmente o mais carenciado, a não cair só na aprendizagem de rua: a malandragem de querer levar vantagem em tudo ou de querer dar-se bem na “selva”. Essa contribuição do Estado é inalienável. Mesmo quando se busca o neoliberalismo ou a ideia de Estado-mínimo, serão necessárias as bibliotecas, os centros culturais, as políticas de fomento da arte cultural, os ambientes saudáveis de acesso à cultura e à arte, sem metas restritivas entre pobres e ricos. Por exemplo, e sem querer criticar, a construção de uma Mediateca no Cazenga pode ser a pedra que faltava para massificar a cultura e torná-la verdadeiramente inclusiva.

Entretanto, precisa-se optimizar o local com a reestruturação das infra-estruturas básicas, trabalhar no saneamento, criar centros de alimentação com qualidade higiénica saudável nas proximidades, no intuito de dignificar e facilitar a vida do estudante ou de qualquer cidadão comum que vai ler ou efectuar a sua pesquisa. Isso contribuirá na acção de alcançar as metas de desenvolvimento cultural, visando ombrear ao lado de outras civilizações do século XXI. Pensemos ainda mais no factor humano enquanto figura central do desenvolvimento.

A presença de arte cultural nos bairros melhora o padrão e a qualidade da vida das pessoas, diminui a violência, pois a cultura amplia os horizontes e permite que os moradores criem espaços mais abertos e limpos, como consequência da massificação cultural activa e porque, com a criação de estruturas limpas, arejadas, bem cuidadas e iluminadas, o delinquente, que é por excelência uma barata, porque gosta de lugares sujos, escuros e nauseabundos, encontrará dificuldades para se manter activo, por falta de espaço para desenvolver a sua acção.

Os moradores no bairro serão pessoas visíveis, identificáveis por força do entrosamento cultural e artístico. Num espaço com infra-estruturas básicas criadas e espaços abertos, poder-se-á colocar tendas para ensinar arte (renda, cestos ou artefactos, pintura, dança, olaria, gastronomia, batuque, flauta, reco-reco, desenho, manifestações tradicionais, manifestações contemporâneas, cinema, audiovisuais, braille, saraus, línguas, salas de ofícios, aulas, actividades desportivas, ou artes marciais, etc.), tudo o que as políticas de fomento cultural permitem. Isso produz dignidade e torna-se um certo alívio para as dores de uma sociedade desigual.

Não podemos nos esquecer que a cultura também rende receitas incalculáveis para o Estado – é como uma certa retribuição pelo investimento aplicado, sem esquecermos o bónus de pacificação, tranquilidade, lazer. A mãe que também ensina ou aprende numa dessas oficinas terá a necessidade de criar, ela mesma, uma pequena creche; o pai criará um grémio, um núcleo desportivo, um clube, uma associação de pais, qualquer actividade que combata a indolência, a delinquência, o desemprego ou até o medo da aposentadoria/reforma.

Queremos sair da crise política e relaxar: desenvolver uma das necessidades primordiais da vida humana, que é nomear sem medidas restritivas: exercer direitos, humanizar e censurar para construir cidadania, eliminar o clima de medo e de terror numa sociedade em que o cidadão já está assustado com a crise económica. A censura é um direito no mundo cultural e artístico no sentido de suprimir certas manifestações. Manifestações sobre o sexo, contra criminalidade e desordem pública. É a redução da libertinagem, e, neste quesito, actua como um instrumento político socializante, socialmente útil e actuante. A arte cultural é, se calhar, o único instrumento que consegue sobreviver à ditadura e ao autoritarismo. Entretanto, pelo menos agora, não precisamos disso, queremos arrumar a casa e abraçar o fide-prumo que gritou, bem alto e sereno com voz cativante e audível, “MELHORAR O QUE ESTÁ BEM”. Livre-me, Deus, de querer transformar palavras tão vivas, num bordão-de-fala!