Estava eu no meu exercício habitual ou que, nos últimos meses, se tem tornado habitual, ou seja a escrever um texto de opinião ou crónica, que podem ser a mesma coisa ou nem por isso, quando me dei conta que a palavra “bondar” não tinha sido tida como marginalizada pelo léxico do português. Tal facto chamou a curiosidade. Seleccionei a palavra em causa, cliquei a direita do rato, procurando pelo seu sinónimo que não havia. Mais curioso fiquei. Manguitei o meu dicionário da Universal, “desfolhei” umas tantas páginas e lá estava ela:

bondar v. intr. 1 (pop) bastar. 2 ser suficiente.    

Segurei o meu queixo, fechei a boca e procurava pelo gato que acabara de “bondar” ou, melhor, que acabara de matar. Segundo o dicionário, a frase “procurava pelo gato que acabara de bondar” não tem coerência, pois “bondar”, como vêem, significa “bastar” ou “ser suficiente”, ou seja, em substituição teríamos “…gato que acabara de bastar/ser suficiente”.

Mas sabemos nós que a palavra “bondar”, a fabricada nas indústrias populares das necessidades comunicativas informais das nossas bocas, significa “matar”. Isto só mostra que os forjadores (inconsciente) desta tentativa falhada de nação continuam desinteressados em nos conhecerem, em nos entenderem, de tal modo que tenham dado entrada de forma não bem conseguida desta nossa palavra no dicionário. Ou, talvez, tenha um outro enquadramento semântico na variante portuguesa.

É por estas e outras que não basta ler e aceitar. Há que se questionar tudo que vem da metrópole dos nossos antepassados. É por estas e mais outras que é urgente que sejamos nós a estudar a reprodução da Língua Portuguesa entre as nossas indústrias comunicativas. Senão, continuaremos neste sonambulismo colonizador.

Em fim, dispenso as aspas, até porque não estou a escrever para estrangeiros portugueses nem brasileiros ou moçambicanos, ou, talvez cabo-verdianos, e digo, sem receio de borrar, que bondei o gato. E eles, pelo contexto, entenderão que o gato foi morto. E também se não perceberem, “destá” assim.