Vamos começar a nossa abordagem, contando a história sobre um jovem poeta e leitor, chamado Gabriel Rosa que, ao ler «Romeu e Julieta» de Shakespeare, afirmou que o livro é completamente diferente do filme e das peças às quais teve a oportunidade de assistir. Geralmente os leitores tenazes vêm traído as suas espectativas diante das adaptações de obras literárias por diferentes motivos: ego-literário ou mesmo por certa incapacidade em compreender que está diante de um outro sistema semiótico e que, portanto, os signos não se realizam do mesmo modo.

O teatro e a literatura são duas artes ou disciplinas artísticas que acompanharam o processo de evolução das sociedades humanas, e todo esse processo de transformação por que passaram se deu mediante os condicionalismos políticos, culturais, sociais etc., isto quer dizer que a arte se desenvolve com o homem.

A nossa comunicação poderia, eventualmente, subordinar-se ao tema «Do Teatro à Literatura», mas convém que seja mesmo «Da Literatura ao Teatro». Contudo, convém advertir que não se trata de apresentar no plano da historiografia das artes a hierarquia entre eles ou colocá-los num plano de primazia para se auferir qual delas terá surgido primeiro. Trata-se sobre o que é factual, e o factual remete-nos a essa interdependência e alteridade-aparente, que, geralmente, apresenta a «Literatura» como a base de outras disciplinas artísticas designadamente, o teatro, a música e o cinema, que, comummente, para se concretizarem, têm como pano de fundo um texto, que é, geralmente, literário.

Adverte-se aqui que a não-recorrência à literatura leva a um estado de pobreza dessas artes. Por outro lado, é bom que se diga que a literatura também se vê empobrecida sem a existência dessas artes. Só por esse motivo, referimo-nos à interdependência entre elas. Um escritor vê o seu trabalho reconhecido quando um músico decide, passe o pleonasmo, musicar ou musicalizar um poema seu; quando um dramaturgo decide adaptar, por exemplo, uma obra sua, que pode ser poética ou narrativa.

Habitualmente, confunde-se o texto dramático que é, na verdade, um objecto literário com o texto espectacular, que, geralmente, pressupõe a performance ou a composição cénica de acordo com a visão do realizador, nas vestes de director artístico (encarregue de conduzir tudo. sonoplastia) ou de encenador. O texto, do latim textus, significa tecido, e um tecido é um entrelaçamento de linhas que formam uma estrutura compacta. Assim sendo, qualquer enunciado verbal, ou seja, oral ou escrito, desde que, com sentido, constitui um texto.  

«O texto dramático, isto é, o texto integrável no modo literário do drama, pertence à literatura e deve ser objecto de análise da teoria da literatura, mas já o mesmo não se passa com o texto teatral, que é específico texto espectacular e que, por conseguinte, constitui um fenómeno de semiose só parcialmente literário» (Silva, 2010, p. 604)

‘‘O texto dramático, entendido como conjunto de ‘‘texto principal’’ e de ‘‘ texto secundário’’ é um texto literário, quer dizer, é um texto regulado pelo código do sistema semiótico literário e, portanto, é lido como qualquer texto literário. Entretanto, convém alertar que existem obras dramáticas, que, pela forma como foram concebidas, são, em matéria de fidelidade, de impossível realização fora da literatura, ou seja, são de difícil encenação, e a sua adaptação leva a mudanças drásticas. Silva (2010) cita, como exemplo, as tragédias de Séneca e outras.

Pese embora se inclua num dos três géneros literários, é preciso reconhecer que, geralmente, o texto dramático é concebido com a finalidade de ser representado, sendo assim por muitos teóricos como texto teatral ou, como diria Franco Ruffini na sua ‘‘Semiotica del testo’’, um texto espectacular. A sua realização como texto teatral dá-se através de um processo de transcodificação intersemiótica ou retextualização, como diria Rufini, citado por Silva (2010, p. 614). Traduzindo em miúdes, Silva acrescenta que,

‘‘o texto principal do texto dramático deixa de ser comunicado como um texto escrito, submetido às regras, às convenções e ao condicionalismo da comunicação literária, para se transformar num texto oralmente realizado por instâncias de enunciação ficticiamente encenadas por actores, comediantes (poucos comediantes teriam a capacidade de representar todos os outros géneros) e comunicado a espectadores pelo canal vocálico-auditivo’’

Estruturalmente, o texto dramático é geralmente constituído por um texto principal, ou seja, pelas réplicas, pelo diálogo estabelecido entre as personagens, com excepção dos monólogos, e por um texto secundário, formado pelas didascálias ou indicações cénicas.

O texto secundário destina-se ao leitor permitindo uma construção imagética e fácil apreensão das atitudes ou comportamento das personagens, em termos de recepção; ao encenador da peça ou aos actores e podem incluir: listagem inicial das personagens; indicação do nome das personagens no início de cada fala; informações sobre a estrutura externa da peça (divisão em actos, cenas ou quadros); indicações sobre o cenário e guarda-roupa das personagens; indicações sobre a movimentação das personagens em palco, as atitudes que devem tomar, os gestos que devem fazer ou a entoação de voz com que devem proferir as palavras.

As formas de representação do discurso dramático variam em: monólogo – uma personagem, falando consigo mesma, expõe perante o público os seus pensamentos e/ou sentimentos; diálogo  – fala entre duas ou mais personagens; e apartes  – comentários de uma personagem que não são ouvidos pelo seu interlocutor; sendo do diálogo a mais privilegiada.

            Outras características têm a ver com o facto de envolver sempre personagem, ausência de narrador e predomínio do discurso na segunda pessoa  (tu/vós).

Precisamos deixar aqui claro que não será a Teoria da Literatura que se ocupará dos estudos do Teatro enquanto específico fenómeno artístico.

‘‘Os estudos sobre as práticas teatrais constituem um domínio metodologicamente autónomo: o da semiótica Teatral. Em termos gerais, pode dizer-se que a semiótica teatral considerada como processo comunicativo que se dinamiza em funções de signos específicos, operando num espaço que tem o seu destinatário imediato’’ (Reis, 2008, p. 276).

No texto dramático, temos personagens que, mesmo com toda a descrição possível, apresentar-se-ão diante do leitor como meras entidades intratextuais, sem, portanto, terem uma existência física; ao passo que, no texto espectacular que pressupõe sempre a existência de um espaço cénico, implica a presença real de actores que encarnam a personalidade das personagens que encenam como num acto de possessão para quem crê no ‘‘invisível’’.

O teatro ou o texto espectacular envolve os seguintes códigos:

Proxémico: regula a relação entre o actor e os objectos do espaço cénico.

Cinésico: regula os movimentos corporais dos actores, os seus gestos e atitudes, em particular a sua mímica facial.

Paralinguístico: regula a voz (entoação e qualidade da voz)

O teatro é uma arte acolhedora e é capaz de representar todas as outras disciplinas artísticas. Um quadro é perfeitamente adaptável a realidade teatral. Tudo dependerá do traquejo do director artístico ou encenador. Mediante os factos expostos, postula-se aqui que todo o texto literário pode ser convertido em texto espectacular.

  • Reis, C. (2008). Conhecimento da Literatura: Introdução Aos Estudos Literários, 2ª ed.
  • Silva, V. M. A. (2010). Teoria da Literatura. 8ª ed., Coimbra.

Palestra apresentada nas Jornadas Científicas-interdepartamentais, no dia 29 de Agosto de 2019