Numa das manhãs em que o mês de Janeiro me permitiu estar em casa, assistia ao programa A Sua Manhã da TPA 1 cujo casal de apresentadores me tinha surpreendido pela forma embasbacada que questionavam, na conversa com Admázia Mayembe, o jeito de alguns compositores conseguirem tocar a vida de muita gente com as suas canções, inclusive contar histórias de vida de pessoas como se a conhecessem. Edmázia também tinha confirmado, respondendo a uma pergunta que lhe fora colocada, já ter cantado músicas, que lhe foram atribuídas por outros compositores, que falassem coincidentemente de certos momentos de sua vida. O “problema” que levanto tem a ver exactamente com este admirar exagerado dos apresentadores como se houvesse um segredo tal que envolvesse razões inexplicadas pela lógica e ciência.

Todo e qualquer fazedor de arte constrói as suas obras a partir de uma base da realidade, embora estas sejam ficções, falando propriamente da literatura e, inclusive, da música que tem auxílio dessa, já que todo texto cantado pode ser entendido como um texto artístico-literário. Ou seja, obra nenhuma nasce do nada, por mais inventada que seja. E como certas canções chegam a, coincidentemente, falar de nossa vida ou ser apologista de uma ideia nossa como se de nós estivesse a retratar? Tudo graças àquilo que podemos chamar de memória colectiva.

A memória colectiva é constituída por informações da vida de cada cidadão de uma sociedade e de comunidades desta mesma sociedade e de opiniões sobre tudo que rodeia cada membro dessa sociedade, bastando que haja convivência entre as pessoas, a mínima que seja. Quero dizer que uma conversa com o nosso vizinho sobre qualquer assunto inclusive da nossa vida é um dado para a memória colectiva que estará a dispor de qualquer pessoa que terá acesso também pela convivência e partilha com o outro. Em outras palavras, falo de uma espécie de rede formada por essas informações e, de alguma forma, memórias individuais. É, portanto, graças a esta memória, por exemplo, que os neologismos (palavras novas) chegam ao conhecimento de todos. A palavra “mata-bicho”, por exemplo, segundo à memória colectiva dos angolanos, significa “pequeno-almoço”. Quem inventou, como e porquê são questões que, geralmente, não ficam depositadas nesta memória, mas o resultado que é a palavra nova espalha-se sem o apoio de linguistas e de dicionaristas, particularmente, apenas com a boca dos falantes.

Seguindo esta ideia, é-nos fácil perceber que não há segredo nenhum quando compositores elaboram canções que toquem facilmente a vida de alguém, por retratar algum momento da sua vida, sem, porém, darmos como descrição de factos da realidade deste ou daquele ou de alguma coisa da vida real. Porém, também, parece-nos normal relacionarmos, pelas razões já referidas, composições musicais à vida do cantor que o interpreta, mas tudo deve passar como ficção por mais motivações da vida real possa ter servido como razões. Todavia, também é importante referir que isso cabe a grandes compositores como Paulo Flores, Matias Damásio, Bonga, só para citar alguns, que nos deram o prazer de, além de ouvir canções de valiosas melodias, harmonia e ritmo, levaram-nos à reflexão, relacionando suas letras com assuntos da nossas vidas e de vidas de terceiros sem que, necessariamente, falasse deste ou daquele. Se for alguém de capacidade de composição medíocre, podemos estar diante de composições cujo conteúdo é de um objectivo tal que possa servir de difamação da vida alheia ou cujo conteúdo é de expressões e abordagem cansativas pela constante repetição como se de um texto explicativo se tratasse.

Por isso, curta a música da sua vida, mesmo que não seja sobre a sua vida, embora a sua vida possa ter servido de motivação para as criações artística e musical.