A dança é puro movimento expressivo e, como se sabe, o movimento é o mais primordial meio de comunicação, é expressão humana; ele está no corpo, está na existência biológica do homem. É no corpo que existe a marcação da identidade, é nele que guardamos todos os traços da nossa infância, adolescência, juventude, ou seja, tudo o que nos marcou fortemente e contribui para a evolução do sujeito.

De uma maneira geral, o povo angolano tem, dentro do seu quotidiano, a dança presente com afinco, facto este, resultado de um contexto cultural. Desde cedo, existe uma relação interior com estruturas de ritmos contínuos, começando com a relação tão aproximada da criança com os movimentos da mãe ao serem carregados nas costas (respiração, andar e fala). Essa relação com o movimento se torna ainda mais forte ao participar de celebrações sociais, onde a dança se torna um factor categórico para integração e para preservação da identidade. Assim sendo, a dança surge a partir da necessidade não só de se comunicar, mas de contar uma história, de celebrar, de se animar, de conectar, ou seja, de se expressar. Do latim expressione, de acordo com o dicionário Lello, a palavra significa “dar a conhecer” ou “manifestar os seus sentimentos”. Ao dançar, o bailarino, contemporâneo ou não, dá a conhecer a essência que existe no seu interior, mesmo que inconscientemente.

O nome ‘dança’ pode ser usado de maneira geral, referindo-se ao movimento sinuoso e expressivo, muitas vezes seguido de uma música. Mas a verdade é que ela não é universal. Querendo dizer que, diferente do nome generalizado, ninguém dança igual, não existe apenas um jeito de dançar, e a maneira de sermos afetados por ela também é muito relativa ao que somos e a tudo que ela abrange.

Muitos bailarinos nem pensam na maneira que dançam, e quais as marcas que ficam da sua dança, simplesmente acontece, é natural, o movimento se apropria do corpo e o olhar externo é o objecto que traz a identidade do intérprete para a dança. O problema é que, às vezes, é muito difícil falar de si e descobrir quais os traços que realmente nos definem, muitos nem gostam de fazê-lo – é muito mais fácil olhar para o outro e descobrir a partir da verdade que ele transmite –, mas é perfeitamente normal que isso aconteça, visto que, muitas vezes, confiamos mais no que vemos e no que isso nos dá a entender, do que no que sentimos. Por não nos querermos expor, esquecemo-nos, diversas vezes, do olhar interno, aquele que ao ativarmos diz tudo o que precisamos saber, porque tudo o que somos está acessível em nós. Mais do que na mente, as nossas características mais fortes estão guardadas na nossa memória corporal, e isso se reflecte na maneira que reagimos nas diversas situações quotidianas.

A proposta é que se foque nas diferentes características que os bailarinos possuem, na multiplicidade que os constrói, no que os faz mover, no que os identifica como seres únicos que realizam a mesma prática, e como as suas particularidades afectam a maneira de executá-la, a maneira de sentir, a maneira de se relacionar. Dança-se na mente e no coração sem fronteiras, e o corpo é o instrumento usado para definir, comunicar, “experienciar” e transformar os estados. Então, um professor de dança podia falar interminavelmente sobre o que é a dança, qual a sua origem, como ela afecta as pessoas, o que o bailarino deve sentir quando dança, como se dão as conexões corporais, etc.; mas a experiência só se tornaria completa, palpável, real, se esses alunos colocassem, (o quê?) no corpo, praticando, vivenciando e não imaginando, porque o corpo cria uma memória e a dança, como diz Frederico Paredes[1], “…é do corpo”.

No século XVIII, Noverre[2], o principal nome na reforma do ballet, já acreditava que, antes de ser uma manifestação estética, a dança era uma forma de expressar emoções com o corpo. A estética do movimento seria apenas uma consequência da emoção que essa dança procura exprimir. Ele criticava ainda os bailarinos que trabalhavam por excesso o corpo (físico) e pouco a alma, tornando-se ignorantes na arte expressiva; tudo isso sem deixar a técnica de lado que ainda era muito exigida deles. Assim como ele, Delsarte[3], mais tarde, acreditava que a técnica tinha de ser ensinada de forma adaptada a cada organismo, dentro das suas limitações. E, dessa maneira, ele começa a estudar a relação entre movimento, voz, expressão e emoção do ser humano.

Pensando a partir desse viés, o sentimento torna-se o estímulo que gera um estado de atenção que se volta para o corpo em forma de movimento e que, consequentemente, se conecta com o novo; e essa relação origina um ser realizador. O corpo passa a criar a dança que existe dentro dele a partir da motivação, da emoção, a partir da presença de continuar a ser no mundo.

[1] Bailarino, coreógrafo e professor da Escola e Faculdade Angel Vianna (EFAV).

[2] Jean-Georges Noverre (29/4/1727-19/10/1810). Foi bailarino, coreógrafo, professor, mestre de ballet e historiador francês. (referência da internet em 28.6.15).

[3] François Delsarte (11/11/1811-20/7/1871) foi do teatro, cantor, orador e filósofo. Precursor e descobridor dos princípios fundamentais da dança moderna. (referência da internet em 28.06.15)