Existem coisas, meu amigo, que fazem parte da lista de coisas impossíveis de vermos acontecer enquanto formos meros mortais nessa terra de mais santos que pecadores. São as chamadas Impossibilidades.

Já é tempo de engolirmos que algumas coisas fazem e sempre farão parte de uma lista de impossibilidades. Por exemplo, uma que bem conheces é aquela que diz que, por mais que as tuas preces compitam com as de um católico devoto, por mais que as verdades sejam distorcidas na penumbra do olhar depois de algumas gramas por litro de álcool no organismo e que nos faz especular até sobre o aspecto da água que bebemos, com ou sem paciência, nunca testemunharemos o dia em que as condutas da EPAL farão jorrar nas nossas torneiras uma cerveja bem potável, CUCA ou qualquer coisa próxima disso. Outra forma mais perceptível de espelhar isso seria dizer que esperaremos muito, sentados de preferência, pelo dia em que os sumos NUTRY, com tantas combinações e arranjos que têm inventado, venham a ser feitos com abacates mesclado com kiwis, ambos colhidos no Madagáscar por uma Mucubal e trazidos pela via Menongue – Luanda, de navio.

Impossibilidades são infinitas e jamais caberiam numa mera conversa como essa. Os seus itens são tantos, que, infelizmente, apenas começarão a entrar em desuso quando, por exemplo, tu e eu já formos proprietários de mansões na Lua, termos casas de praia em Marte e, de quando em vez, darmos um salto cá na terra para celebrar um feriado de 22 de Fevereiro; quando, mesmo sem um único kwanza no bolso, só por sermos mwangolés, conseguirmos apanhar um comboio eléctrico subterrâneo, de Cunene à Cabinda, fazendo uma pausa lá pelo meio, para andar nas asas do Humbi-humbi e, ao flutuar pelas bandas de Nthandavala, aproveitar para resmungar o porquê da adaptação do nome para Tundavala.

Amigo, aqui não dá para questionar muito. Então, pára de sonhar alto e de falar à toa. Pois ainda está para vir o dia em que veremos miúdos vestidos de poetas, inspirados pelas bassulas do dia-a-dia ou excitados pelo brilho da lua a fazer declamações ao relento no meio ou na berma de uma avenida como a Deolinda Rodrigues sem serem, logo de seguida, levados à esquadra mais próxima, suspeitos de actos preparatórios de rebelião. Quando isso deixar de acontecer ou deixar de ser um primeiro instinto de serventes sem vontade própria, então certamente já teremos, nessa altura, ursos polares a hibernar em Catete, e Welwitschia Mirabillis a enfeitar jardins no Alaska.

Numa época em que os destinos do mundo são comandados pelas mãos de crianças que nunca jogaram Kiela e se perdem nas emoções de cada nova versão do PlayStation, acreditar que África possa reconquistar a sua grandeza, pilhada durante séculos, é o ápice das impossibilidades, é como esperar que, após o próximo pôr-do-sol na ilha de Luanda, poderemos atravessar a pé o oceano Atlântico e aconchegar, com um abraço kaluanda, o mano Esquimó negro, que se tornou o novo Papa depois de ter sido um outro sumo sacerdote algures pelo ocidente. Quando o mundo inteiro perceber, aceitar e reconhecer que essa mesma África é um muito mais do que mostram os livros de história, nesse dia, muita coisa voltará a ter sentido e a vivência de muitos não será tão perfeita e precisa como as engrenagens de um relógio suíço; os deuses habitarão num império de verdade cristalina e conseguirão dar um salto cá em baixo, para, de calções curtos e meias a três quartos, darem um pé de bola com os miúdos do Cazenga e em seguida revelarem-se humanos, não por se perderem nas curvas quentes e imprescindíveis de uma mumuíla, que de certo não há igual, lá do outro lado onde tudo é inóspito e gelado, mas, sim, por poderem apreciar o sabor incomensurável de uma CUCA estupidamente gelada, cortesia das condutas da EPAL.

Se calhar, essas impossibilidades são somente reflexos dalguma bebedeira que se fixou nos meus órgãos e atrofiou os meus olhos ou, pelo contrário, não estaria a falar com a minha imagem reflectida no espelho, como se de um ser humano coerente se tratasse.