Entende-se por Criação Literária, o processo através do qual se produz a literatura e isso abrange o estudo e o exercício prático dos géneros, espécies e formas literárias.

Todavia, estaríamos a falar, se calhar, de uma oficina, que apareceria como extensão para a Criação Literária. Essa oficina, supostamente, levaria os principiantes a construir um estilo literário próprio, a partir da ideiada escrita como uma criação autoral, exercitando e desenvolvendo a fluência no discurso escrito criativo por meio da abordagem da prosa, da poesia e da dramatologia. Os artistas podiam ser: escritores, editores, professores de literatura e estudantes das áreas de Letras e Comunicação, além de pessoas singulares, interessadas em desenvolver as suas habilidades de produção literária, ou de simplesmente, transmiti-las aos outros.

Pressupomos que o objectivo dessa aventura seja fornecer subsídios teóricos e práticos para a construção da voz autoral na escrita, potencializando habilidades de observação,  imaginação, experimentação de imagens,  trabalho rítmico e sonoro com a linguagem. Além disso, o de reflectir sobre o processo de criação em diferentes manifestações literárias, na forma de poesia e narrativa. Aí seriam abordados temas vários que passariam pelo género lírico, o poema moderno, a lírica contemporânea, géneros híbridos, o papel do narrador no conto angolanizado,  o ritmo narrativo, etc.

É claro que não seria tarefa fácil, a arte de criar narrativas de ficção, como conto e romance, tudo o que se constitui a partir de alguns elementos fundamentais: narradores e pontos de vista, personagens, diálogos, descrições de pessoas, de objectos e ambientes da cultura de Angola, mas são elementos que podemos encontrar nos livros de vários téoricos de literatura, o desafio é buscar tudo o que forneça aos pupilos, a partir dos exercícios de escrita e do estudo de autores clássicos e contemporâneos, o conhecimento básico acerca de cada um desses elementos. Os elementos transversais necessários para o estudo dos géneros e formas da literatura.

Enfim, queremos mostrar que num exercício de construção da cidadania podemos incentivar a colocar as ideias no papel ou incentivar a Criação Literária, contando com a colaboração de todas as pessoas abalisadas na matéria, se assim, se pode dizer! Isso ajudaria muito os aspirantes a escritores, estudantes, professores e todos aqueles que amam a literatura, a terem maior atenção, ou cuidado, com a linguagem – fazer tudo para enxugar ou esgotar o texto, preparar um livro, exercitar a síntese, entre outras técnicas. Todo esse trabalho seria feito, principalmente, por cima de textos apresentados pelos principiantes, realizando um acompanhamento de cada projecto literário, contando também, com a participação especial de renomados autores nacionais.

Atendo-nos aos desafios:

O primeiro desafio é exercer a carreira de escritor no nosso país, onde as influências falam mais que a competência literária, como acontece na maioria dos países. Em Angola é ainda, muito desafiador abrirem-se as portas para a carreira de escritor;

O segundo é como ganhar o gosto pela leitura – um dos primeiros ingredientes para escrever? Por onde começar a explorar o universo de criação literária? Onde encontrar ideias para escrever uma história? Como criar personagens complexos e acreditáveis? Como desenvolver uma cena? Como escrever diálogos? Como escrever um final que satisfaça os leitores? Como transformar as histórias pessoais em narrativas de impacto?

Um depoimento de uma escritora, que se diz muito curiosa, começa assim:

Em situações onde tive que decidir entre a curiosidade e a educação, escolhi, com mais frequência, a primeira opção. É um aspecto da minha personalidade que nunca consegui controlar e, para falar a verdade, há muito tempo desisti de tentar.

Fui julgada muitas vezes como intrometida. Mas decidi que prefiro ser acusada com esse adjectivo e satisfazer a minha curiosidade, do que ser aplaudida por não alimentar a minha imaginação”.

O que pretendemos enfatizar é que, muitas vezes a nossa curiosidade nos transporta para cenários “curiosos”, que nos obrigam a fazer conjecturas investigativas e que determinada história anónima e sem narrador pode estar a espera de quem se aproprie dela para criar ficção.

 Para que fique claro, o objectivo não é convencer os leitores a bisbilhotar a vida alheia.  O ponto a ressaltar é que uma porta entreaberta tem um apelo quase irresistível à nossa curiosidade e as vezes, até a curiosidade pode gerar romance. Pode ser que mesmo aqueles que se deixam guiar pelas normas dos bons costumes desejam, secretamente, colher as pistas e desvendar os mistérios de uma possível história interessante que cruza o seu caminho.

Aquelas frestas de portas entreabertas são convites à curiosidade. É uma oportunidade de, ocasionalmente, fugir da previsibilidade do nosso dia e descobrir um universo diferente. Todo o texto que se escreve é, também, um convite.

 Grande parte da ficção em Angola, que encontramos em Pepetela, Ondjaki, João Melo, Dya Kazembe, entre outros é composta por uma série desses convites para praticar formas simples de criar essa vontade incontrolável de explorar o que está por trás das portas que se abrem com os textos escritos.

Na verdade, o que você encontra são respostas possíveis para essas e outras perguntas relacionadas ao assunto, além de dicas práticas e recursos para desenvolver e exercitar a sua criatividade.

Um dos maiores e mais instigantes desafios com que nos defrontamos na vida académica, vale ressaltar, uma das tarefas que consideramos vitais à humanidade, ou a docência, é desenvolver o exercício da Criação Literária.

As considerações a seguir advêm de um trabalho minucioso com o estudo e a prática individual na Literatura, a partir da imersão em aulas desenvolvidas, tanto na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto como na Faculdade de Ciências Humanas e Comunicação da Universidade Metodista de Angola, junto aos estudantes. Espaço interdisciplinar por excelência, ponto de fuga em que se tocam ansiedades humanas em princípios paradoxais, tais como fluidez e permanência, retraimentoe exposição, orgulho e baixa estima, obrigação e necessidade – pares tantas vezes amalgamados[1] por uma cadeia de enganos: o acto de “criar” transita por modelos arquetípicos, imitações infundadas, inspirações e transpirações vitais, enfim, projecções que variam do lúdico, passando pelo terapêutico, até a busca e o domínio de técnicas “novas”.

Procuramos nas instituições de direito, por uma Oficina de Criação Literária, talvez porque existem poucos professores de Literatura, nunca conseguimos encontrar uma em Angola, pois, privilegia-se mais os professores de Língua Portuguesa, mas o que a experiência tem demonstrado é que o objectivo mais explícito, daqueles que procuram por uma Oficina ou Curso de Criação Literária, procuram por, um estímulo para escrever e um olhar que lhe pontualize se “aquilo” que produziu até então é “literatura”. Na falta disso, esperam que o escritor que elegem para prefaciar a sua obra, tenha um olhar clínico que julgue ou valorize a sua literatura.

As hesitações, portanto, que levam os candidatos a essa postura, demonstram que a maioria vai em busca de um apoio, testemunho e uma espécie de garantia para a sua própria prática de produção textual. Nesta perspectiva, provavelmente, estejamos a perder um grande grupo que esbanja sensibilidade, curiosidade, defesa e até mesmo uma certa desconfiança – até que seja provado o contrário, ou melhor, até que os sucessivos encontros provem a inutilidade deste temor.

Se é então extremamente delicado transitar por área tão fluida do ponto de vista daquele que se identifica como “criador”, pensemos juntos na condição de quem, mesmo momentaneamente, pretende assumir a tarefa de levar os outros a exercerem e exercitarem a criação, a se outorgarem do poder da linguagem, da materialização dos próprios e alheios pensamentos. Estimular a criação é também criar – uma via de mão dupla, como nos lembra Clarice Lispector:“Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever,é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar à toda medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.[2]

Parece claro que a escritora aqui nos fala da relação intrínseca entre a educação familiar desde tenra idade e a sua aliança com a fala, a leitura e a escrita, dentre outras grandezas, da experiência como factor vital no exercício da escrita: criar acção. E é aqui, que nós angolanos encontramos os nossos desafios – o desafio de ler muito tarde, o de termos alguma “letargia” pela leitura e o medo de ler, ler e ler muito; pequenas, médias e grandes obras; obras angolanas, outras produções de outros mundos, obras universalizadas.

Não existe nenhum manual ordenado logicamente para adestrar o candidato a romancista, ou poeta, ou contista. E quando me refiro a não existência de manual, refiro-me àtotal inadequação de um guia acessível que trate, basicamente, da produção literária. Com todas as ambiguidades que a prática provoca, com toda a singularidade que cada sujeito constitui, com toda a insatisfação e alegria que o resultado pode – ou não – trazer ao seu “criador”, o grande desafio é orientar sem formatar, levar ao aprimoramento sem cortar, estimular sem mentir. “Especialmente porque, ao se relacionar mais profundamente consigo mesmo, ao garimpar as mazelas do seu texto, ao encontrar o ouro, separar o joio do trigo e às vezes optar pelo joio, o autor recém-nascido é obrigado a enfrentar o mundo, a diluir parte do seu “eu” e abrir-se à projecção alheia. A partir daí vai contracenar com o outro na virtualidade do texto literário[3].

O terreno é movediço, apoia e atraiçoa e, sabemos, a percepção desta duplicidade já deveria ser questão de senso comum, principalmente por ter sido levada a público diversas vezes. Mas muitas das belas reflexões dos literatos, infelizmente, não chegam ao conhecimento da maioria. Tal especificidade se restringe aos estudiosos do tema. Daí a importância do docente estar sempre atento e disposto a actualizar o déjà vu, a reabastecer ou desconsiderar o clichê e a trazer ou atrasar o novo – a exclusividade, mas também a fértil noção de simultaneidade mais típica das conjunções aditivas.

Quando Muanza, Soares e outros, escrevem o seu texto de literatura explicando “Como se lê um texto literário”, o objectivo é formalizar um método – comparativo – para aqueles que, analogamente a um biólogo, de facto queiram atingir um mais alto grau de conhecimento na matéria literária. A sua pretensão é clara: obviamente será ele quem vai apresentar a matéria-prima necessária àquele que deseja tornar-se um expert em literatura.

Interessa-nos aqui compreender que a comparação elogiosa de Francisco Soares à Abreu Paxe pressupõe um conhecimento prévio dos escritores mais representativos da literatura, os quais, no seu entendimento, são aqueles que mantêm a linguagem “eficiente”, isto é, a sua precisão e a sua clareza. Para tal, ele propõe “duas maneiras de ler a poesia” criando uma mini-antologia que vai de Ezra Pound, passando por José Luís Mendonça e David Mestre. Vale considerar a relevância que Pound atribui ao acervo literário da humanidade como um património que não deve ser ignorado, mas conhecido e organizado de maneira que os demais possam ir além do que já foi de facto trilhado pelos antepassados. A escolha dos componentes deste ou daquele texto seria daqueles que fazem “grande literatura”.

Com tão grande fascinação pelo processo criativo, ou ao descobrir como, a partir de uma ideia, uma imagem, um tema, o escritor constrói um universo. Como as peças da narrativa se articulam na linguagem, na estrutura, na construção das personagens, suscitam muitas indagações…

Como, entender o processo de criação de escritores do calibre de Hilda Hilst e Uanhenga Xitu, Florbela Espanca e Agostinho Neto, que são tão diferentes entre si e tão singulares nas suas obras. O que cria essa singularidade? Essa pergunta é o ponto de partida das crónicas da vida, que percorrem toda a escrita, que gira ao redor de uma questão sobre criação literária, leitura, vida e obra dos escritores, as suas angústias e descobertas. Anton Tcheckov, José Saramago, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Cordelina Fine, Kim Eduards, Flaubert, são alguns autores que estão no pensamento literário.

É interessante que pessoas ligadas à criação, mesmo de outras áreas, como teatro, música, dança, se identificam também com o livro. São inquietações e descobertas que elas têm também. Outro retorno saudável sobre o texto, objecto da Criação Literária é uma mistura de ensaio e ficção conduzidos pela crónica, como o que experimentei lendo, recentemente, uma crónica inicial do estudante de literatura, Teodoro Miguel, numa linguagem que permite que questões complexas sejam tratadas com simplicidade e leveza.

Ser escritor hoje, no sentido criativo, é desafiador também, porque as nossas estantes estão cheias de livros fascinantes, criativos, ousados, maravilhosos e assim, vive-se num constante embate entre a fricção, a tradição e a vanguarda, nossas heranças estéticas. O desafio do escritor nos tempos actuais é encontrar a sua voz narrativa, a sua visão literária, construir uma escrita original, própria, diante de tudo que já foi feito, e muito bem feito, em literatura.

 

 

[1] A amalgama ocorre quando se fundem duas ou mais palavras, sem motivação morfológica, isto é, de forma aleatória. Ex: imagináutica (imaginação náutica), desesfefiz (desespero feliz), cibernauta (cibernético astronauta), etc.

[2] “As três experiências”, Clarice Lispector. In: A descoberta do mundo.

[3] RIBAS, Maria Cristina – Criação Literária, p.109