Uma mulher cai do céu, e a sanzala desperta. Dá-se o ponto de partida d´O dia em que uma mulher caiu do ceú, do Colectivo Teatral Odeth Tavares, exibido a 4 de fevereiro de 2017, em Luanda.

Alguns de nós já, talvez, viram e ouviram estórias de mulheres a cair, umas enquanto caminham de saltos a espalhar vaidades, que é um motivo de risos, outras a cair das suas vestes morais ao, por exemplo, engravidarem, que é motivo de lamentações; mas quando uma mulher cai do céu, é uma ponte para diversas intervenções e indagações. Essas intervenções que a peça, uma adaptação do conto homónimo de Víctor Guerra, reúnem agentes da polícia, sobatos, médicos e padres e soma dos residentes.

A história decorre no Gulungo Alto, em contexto de guerra, quando, por um acidente ou simples acaso, uma mulher surge de parte incerta, e Lopes, o icónico agente da polícia, quase testemunha o acto, porque ainda não se fazia presente no posto, mas considerando-se em serviço, e vê o tumulto de gente perto do posto de saúde de Gulungo Alto.

A primeira adaptação de Francisco Júnior, director artístico do Colectivo Teatral Odeth Tavares, traz, como figura central, o chefe de posto Moisés, responsável pela atribuição da ordem sobre as decisões, mas este confronta-se com Kanjila, o soba da aldeia. Estas duas figuras fazem uma ilustração das divisões de poderes diante das autoridades tradicionais. Qual será o verdadeiro limite da soberania de um soba?

Há ainda o padre Silvério, um senhor que se apodera do sarcasmo para lançar seu interesse espiritual sobre o sucedido. Mas é com Lopes que a peça marca sua presença. A Paulo Mavueta fica o reconhecimento pelo belo desempenhado com este personagem; é a sua presença que faz os deslizes das cenas, atribui o humor que se faz presente na peça.

Os cenários simultâneos, divididos entre o posto de saúde, o posto policial e o quintal da Dona Antónia, outro personagem de relevo (igualmente, muito bem desempenhado pela Fátima Neide), que é o centro das tentativas de elucidação do que se estava a passar. No quintal de Dona Antónia, surge todas as possibilidades, afinal, talvez seja que Deus tire vida às pessoas erradas e quando se apercebe, devolve-as atirando do céu. Ou talvez, mesmo, seja uma bruxa “que perdeu a gasolina” no seu voo.

Na organização do espectáculo, a sonorização e sua respectiva trilha são aspectos verificáveis da peça. A música, possivelmente uma composição de Bach, tem sua relevância na abertura da peça ao exercer o efeito necessário, mas seu aparecimento posterior perde-se no contexto e no ambiente. O mesmo à música “Muxima” na versão de Waldemar Bastos que parece inapropriado para anunciar a chegada de um soba, atribuída de mistérios e reverências, por mais que a palavra Wanga (feitiço) esteja no tema central da música e dê para caracterizar o velho soba; talvez o som de um batuque fizesse jus a esta cena. As intermitências aos efeitos da iluminação talvez fossem ocorridas pelas condições do espaço.

Mas é à medida que as cenas se constroem, e que fica cada vez mais forte o questionamento do desfecho da peça, que, para já, é daquelas que merece alguma vénia. O intento da peça, para o director artístico, é demonstrar alternativas diante de situações de mistérios, independente de suas saídas. A peça volta em cartaz a 5 de Março, e será ainda apresentada em Minas Gerais, no Brasil.

Uma observação: as mulheres fazem-se mesmo sentir no teatro. Embora grande parte no público presente, a soma delas converte em um número significante. Foi assim no espectáculo que no ao início estava com aproximadamente 25 mulheres na sala, pouca diferença em relação a presença masculina.


Peça: O dia em que uma mulher caiu do céu
Grupo: Colectivo Teatral Odeth Tavares
Autor: Víctor Guerra, em “Contos do céu e da terra” (UEA, 2013)
Adaptação: Francisco Júnior
Direção: Francisco Júnior
Duração: 50 minutos
Genero: Comédia
Estreia: 3 de setembro de 2016