O diálogo sobre e em torno da cultura requer sempre uma certa ponderação e equilíbrio discursivo. Porque, a cultura por ser entendida também como a singularidade de cada povo é ainda a reserva identitária e moral dos mesmos. Assim sendo, entendemos que o conjunto da sua materialidade e imaterialidade faz com que a sua actuação ao nível do diálogo intercultural seja regido pelo princípio da reciprocidade. Logo, questionamos a razão de sermos exímios importadores relativamente à toponímia.

Por exemplo, em Luanda, no município de Viana, há uma tabuleta “Rua Guine- Bissau”. Pergunto-me se na Guine Bissau existe uma rua denominada “Angola”. Pretende-se um discurso filosófico e hipotético-dedutivo sem que se ponha em causa a legitimidade cultural de cada povo, mas perceber a razão de estarmos a ignorar o cancro que tem afligido a despersonalização da toponímia angolana. A nossa breve e curta comunicação cingir-se-á às esteiras da onomástica toponímica que compreende os nomes de lugares.

Desde os tempos mais antigos, os lugares sempre tiveram nomes como factor identificativo e valoração sociocultural. Pois que, para se chegar a qualquer ponto do mundo, tem de se saber o nome enquanto topónimo. Relativamente ao diálogo intercultural no campo da toponímia, o mesmo apresenta-se e serve-se da coabitação recíproca da funcionalidade histórica. Por isso, questionamos o motivo de ainda se ter uma avenida grafada “Ho chi mi”. 

É importante que, no diálogo intercultural se estabeleçam fronteiras e aproveitem-se ao máximo, antes, as valências internas ao nível da toponímia angolana, por duas razões basilares: seria uma forma de conservação da nossa história, como, por exemplo, Rua 4 de Fevereiro; transmissão do nosso legado cultural toponímico, como, por exemplo, Rua Rainha Njinga Mbande. Tais fronteiras poderão ser estabelecidas de forma arbitrária, mas definidas pelas políticas do Estado.

Contudo, a actuação do Estado, a prior, é fundamental por ser o órgão que define políticas e aprova-as, no sentido de salvaguardar o património cultural toponímico para que não sejamos meros telespectadores na dinâmica intercultural. Posteriormente, ter-se em conta o contributo e o juízo democrático dos académicos. O diálogo intercultural também é transversal à medida que mantém contacto com a história, falando concretamente do lugar de Cuba na história angolana.

Daí ser compreensível que se tenha uma Rua Fidel De Castro. Mas questionamos, tanto ao nível histórico como cultural, a Rua Salvador Allende que nada nos diz. Se, por um lado, o diálogo intercultural é recíproco, por outro não se tem tido em conta esta reciprocidade. Por ora e em momento algum, é nossa pretensão transparecer que, no diálogo intercultural, alguns dêem mais do que os outros nem que se aplique a lei da selva. Por exemplo, aquando da nomeação de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos da América, a TPA efectuou uma entrevista aos munícipes do Bairro Operário no sentido de inquirir, na altura, as possibilidades de se trocar o nome do bairro para Barack Obama.

Espera-se de todos intervenientes seriedade e respeito, pelo patriotismo toponímico, no sentido de que, no diálogo intercultural, não sejamos a continuidade da história toponímica alheia, enquanto temos uma rica e diversificada toponímia que precisa, e muito, de ser expandida e conhecida por todas as gerações vindouras. Aproveitamos, em forma de repto, para dizer que o Estado, enquanto colete à prova de bala da legitimação cultural, deve ser a vanguarda da toponímia angolana no diálogo intercultural. Esta vanguarda estende-se também à sociedade de forma genérica.