“Não acredito que um crítico não seja, antes,
um leitor encantado. Porque é depois
do encanto que vamos à procura dele.”
(Francisco Soares)

 

«Enviesada Rosa, Poesia Erótica Africana» é uma obra do escritor angolano Hélder Simbad, nascido em 1987, na província de Cabinda, de pseudónimo: Ybinda Kayambu. O poemário, composto por 39 poemas e vencedor do aclamado Prémio Literário António Jacinto, visa exaltar a pátria angolana, a mátria África, a mulher africana e, em particular, a mulher angolana.

O título chama-nos já à atenção, pois há nele a expressão “Poesia Erótica Africana” que, se for descodificada imediatamente, levará o alocutário a pensar logo em magia ou no sexo propriamente dito.
Em nosso entender, baseando-nos em outras visões, uma poesia erótica é aquela em que o poeta envolve nela um estado de paixão amoroso, sexualidade. Nos dizeres do Dicionário Electrônico Houaiss da Língua Portuguesa 2.0a (2007), a palavra «erotismo» deriva do item lexical francês «érotisme», que tem o significado de “desejo amoroso”. À luz dos nossos pensamentos, cremos que o poeta da Enviesada Rosa, ao decidir colocar a expressão “Poesia Erótica Africana” no título da sua obra, tinha a pretensão de explanar que o seu poemário teria como pano de fundo: a admiração que o mesmo tem à sua pátria e às mulheres angolanas e, em geral, às africanas.
No poemário, é exaltada a pátria angolana, senão mesmo a mátria África, a terra que tem visto os filhos que andaram no seu útero durante anos a se lhe negarem, a se lhe abandonarem para tomar residência nos outros continentes, onde há mais segurança, paz, tranquilidade, enfim, onde há melhores condições de vida. Atentemos: «Meu oxigénio/ Meu ganho/ Minha paz/ MinhÁfrica/ Acidental/É minha/É nossa/Enviesada rosa/Não parto para Pasárgada /A terra é esta/Não sou amigo de rei/Aqui sofro aqui rio/Aqui rio de loucos afluentes.»

Capa do livro Enviesada Rosa – Poesia erótica africana, obra vencedora do prémio António Jacinto, edição 2017

Nos versos supracitados, o eu-poético manifesta o amor e o orgulho que tem pelo seu continente e a ausência da vontade de emigrar para outros continentes, porquanto, embora não seja amigo de rei (governantes), é ali onde ele ri e onde ele sofre, é lá onde ele nasceu, na sua terra de “rios de loucos afluentes.” Por outra, cremos que, quando diz: “aqui rio de loucos afluentes”, o eu-lírico quis, longe da poética disc jockey (D.J), da kizomba, do remix, com os significados dos significantes, metaforizar a África, a África que tem sido o berço das riquezas que causam o bem-estar dos outros solos do mundo.

O poemário é, nas mais das profundidades semânticas, isto é, no seu imo, um santuário de amor à pátria, às mulheres africanas e aos segredos da libido. “Para que um escritor chegue a ser quase bem-sucedido em poesia, achamos, é necessário que permita que as palavras que serão colocadas na folha de papel saiam do seu âmago, partam dum ocaso da sua imaginação para desaguarem no papel” (João André, In “A Magia da Poesia”, revista Palavra&Arte, 2018). Assim, acreditamos que, quando um poemário é bem conseguido, se pode pegar em qualquer verso dele, unir com outros quase aleatórios, e o resultado será normalmente poético. Para tanto, fizemos uma poética disc jockey (termo e trabalho inicialmente proposto por Francisco Soares (?), inSem o Complexo de Fernando Pessoa”, posfácio à obra «DEGRAVATA», de Carmo Neto) para ilustrar essa nossa afirmação:

1.«Preta duma figa
Beijas-me como Nga Muturi
Tu entras e depois eu pela porta desejada.
Ó rosa de fogo metida à besta
Entre as pernas o paraíso
Propondo-me mil agre doce?»

2. «Ela chegava guerreando filosofias
Com olhar afundou teorias
Destruiu doutrinas
Das (suas) pernas nasciam paradisíacas propostas
Pregou EVAngelho de carícias
E mais um Adão fo(i)deu o mundo
Diante da cruz paixão chorar com ratos
E inventar outra mulher para amar.»

3. «Inventar nome para a loucura
Nos imundos esgotos da decepção
Livre segue o canto (de) obscena linguagem
No ápice da língua».

4. «Deus é mulher com argumentos na cintura
Bebendo florivolúpia, queria-nos nus
Cama sutra com hermético erotismo
No fogo da rosa inversa a saber lulas e morangos
Todo o pecado é perdoável».

5. «Essa mulher agarra-me com os olhos
Wavinga, aprecio quando dormes
E acordas fria mulher de fogos
Tão grega e tão angolana, referente do signo beleza
Génese 1993, inexistente capítulo dum curioso versículo
Por vezes tenho a impressão que és de vidro.»

6. «Mulheres cokwe, kianda, Egípcias e mukubais
Carne da mesma carne, reunidas cordas de desejos
A rolandar a língua chamada desejo.»

7. «Meu oxigénio
Minha paz/ MinhÁfrica
Acidental é minha
É nossa enviesada rosa
Não parto para Pasárgada
A terra é esta
Não sou amigo de rei
Aqui sofro aqui rio.»

Ao ler a obra, um viciado em leituras pensará em escritores como: Lopito Feijó, Paula Tavares, Helberto Hélder, Craveirinha, João Maimona, Conceição Cristóvão, etc., porque, no poemário, há marcas de intertextualidade: desfixação, neologismos nalguns temas.

Em verdade em verdade, «Enviesada Rosa» é uma obra que não se lê, mas sim que se sente, pois Hélder Simbad, bebendo dos kotas (entende-se escritores já conceituados), dos novos valores, exprimindo os seus contentamentos descontentes, as suas visões e dando azo ao que o Movimento Literário Litteragris, onde o mesmo poeta milita e onde se cultiva “agristética” (princípios estéticos desse movimento: desfixação, título no final do texto, recriação das lexias [?] …), trabalha as palavras qual mecânico, com erotismo e dedicação. Apreciemos: «Kizombandando surrealmente/ eu vinho de palmeira /ó mundo kwanzapitalista/ …todavia… toda a via é curta/ e me devora com fé Lina paixão». Porém, pondo de lado todo o sumo saudável do poemário, nem sempre essa desfixação e outros elementos “agristéticos” [?] caem bem nas estrofes dos poemas, como acontece em: «Ela vinha numa sanga/ eu vinho de palmeira ou de volúpia» e em «Solta teus tigres de sol/ e me devora com fé Lina paixão». Em nosso conceber, o poeta da «Enviesada Rosa» hiperboliza as representações mentais de algumas lexias da obra, mecaniza muito as conotações, e, por isso, aos olhos do leitor coetâneo ou retrógrado, nem sempre cairá bem a leitura de algumas das estrofes dos poemas que tecem o poemário, como poderá ocorrer nos primeiros versos dos textos das páginas 26 e 47: «Ela vinha numa sanga/ eu vinho de palmeira ou de volúpia (26)» e «Solta teus tigres de sol/ e me devora com fé Lina paixão (47)».
«Enviesada Rosa» é uma obra de palavras eróticas que faz pensar no corpo da mulher e na pátria como santuários, carrega no seu útero coisas telúricas, angolanidade, africanidade e algumas filosofias de gerações de escritores pretéritos, como a do M.N.I.A. (Movimento dos Novos Intelectuais de Angola) e dos membros da S.C.A. (Sociedade cultural de Angola), à guisa de conclusão.