A Língua Portuguesa tem regras muita chatas. Não necessariamente para mim. Mas me apercebo quando leio ou oiço os meus interlocutores ou um terceiro. Mas não estou aqui para censurar a ninguém, porque, no final, a principal função da língua se realiza: a comunicação. No final, isso é o que importa. Ainda não deixa de ser curioso a insistência dos falantes em usar regras que desconhecem ou que assimilaram mal. É que há regras que mesmo desobedecidas não beliscam a qualidade comunicativa. Então, senão a domina, para quê usar?

O uso da crase é uma daquelas regras que, em prática, poucas vezes pode alterar a informação intencional do locutor, isso na escrita. Qual seria a diferença, portanto, em escrever Não me dou com ela, por isso nada à ela dou, se Não me dou com ela, por isso nada a ela dou significa, na mesma, que és ambi? Se tem dúvida do uso do sinal grave, melhor é não usar, porque a informação não é alterada com ou sem ela: o teu interlocutor sempre vai perceber que és ambi, mão de vaca, agarrado e todos adjectivos semanticamente próximos àqueles. Por outra, em teoria, quem já se encontra no II Ciclo do ensino secundário (o insistente Ensino Médio) é obrigado a saber que crase é a união de duas vogais da mesma natureza, ou seja, ortográfica e fónica, neste caso, determinante artigo definido do género feminino (a) – acompanham nomes do género feminino – e a preposição simples (a) – palavra que relaciona dois termos da mesma oração em que o antecedente é que a pede. Em geral, esta é a regra. É chato falar disso! A minha ideia “mbora” é duma crónica satírica. Mas voltem ainda no primeiro exemplo:

Não me dou com ela, por isso nada à ela dou.

Este à ela diz-nos, segunda a regra chata de lá de cima, que temos a a ela, né!? Vê: o primeiro a é a preposição que a forma verbal dou pede (quem , alguma coisa a alguém), e o segundo é, ainda segundo a regra de lá de cima, o artigo definido no género feminino que só deve acompanhar os nomes também no género feminino – concordância. Isso quer dizer que ela é nome! Ham… ok! Então, se  ela é um nome no feminino, ele é no masculino. Vamos ainda trocar, na frase, ela por ele, lembrando que, se ela  admite o artigo a, ele admite o artigo definido masculino o:

Não me dou com ele, por isso nada ao ele dou.

Estamos a falar “gineira”, né!? Portanto, a que conclusão chegamos? Primeiro: de que ela e ele não são nomes e, por consequência, não admitem ou não são acompanhados por artigos. Segundo: em consequência do primeiro, não existe à ela nem ao ele.

Mas

Não me dou com a Joana, por isso nada à Joana dou.

Já é válido, porque Joana é nome próprio para nomear mulheres, embora não se saiba que, em qualquer parte dos quatro cantos do mundo Angola e fora dela, possa existir “os Joana”, aqueles cujo azar é, para mim, motivo de orgulho. E imaginando tal hipótese, seria um caso gravíssimo, de tal modo que a Língua Portuguesa teria sérios problemas em responder, já que não existe acento gravíssimo. Basta o acento grave que concorda com elas quanto à gravidade do mundo que as envolve.

Fui, e virem-se com acento grave, indicador da crase, que também é feminino.