7 de Maio de 2017

Elinga há muito que está sob ameaça de morte. E ele parece que se adiantou a esta morte e já vagueia com a sua alma pelos vazios dos cantos da cidade, engravidando tudo e todos que se sentem atraídos pela sua magia versificada por cada palco que recebera desde os remotos anos noventa. Agora fui eu convidado a carregá-lo na memória-ventre dos meus desejos, logo numa lua anterior a santa, envoltos em gemidos da guitarra cantada pelos dedos da ousadia que, ao meu lado, se confundia: vi-lhe mulher, mascarada de prazer que os meus olhos oscilavam na sua já conhecida intermitência de cores por segundo.

Mas ela cantava, se a guitarra ou ela, mas cantava, suspiros que me envolviam em abraços que dispensavam o corpo; voz e ouvido acasalavam-se e comentários viam-se para o mundo exterior, livre por cada nota, do Dó ao Dó com o Fá a servir-se como ponte da receptividade do alheio à minha volta. À nossa volta.        

A noite ia chorando chuva que não lagrimava. Ladrava cachorros que não acabaram por morder o jazz das nossas ansiedades compostas por uma voz, um violão, para centenas de almas. Eu era uma e ela era outra. E que alma a dela!

O Elinga era o coração dos oceanos do mundo, ela, um atlântico, a voz e o violão, a música sob a qual eu freestalizava nas ondas da sua alma, um atlântico. Que alma! Surfei por cima dessas ondas que mais parecia tsunami com rosto sereia e, quando menos esperava, estava eu que nem um submarino submerso e, sem me dar conta, as areias da costa me beijavam.

Elinga já é um imortal. Quem pode arrancar a vida de um imortal senão um imortal? Os genocidas não têm noção desta imortalidade de milhares de cabeças que são todas as cabeças que pensam a arte da voz sob a letra, do movimento sob a voz do batuque, das cores borradas nas paredes da cidade de Lua sempre cheia que sempre anda. Em mais uma noite. Este Elinga está na história da minha memória, da minha alma.

Cada nota do violão tocada pela ousadia forjava uma musa que, na hora, nos enchia de ideias flutuantes, que, mesmo depois do fim, nos sentíamos no insular da nossa imaginação, apontando os cinco dedos da mão contra a política do primeiro mundo neste mundo em que o Elinga se refugiava por direito.

Nossas memórias foram folhas sobre as quais descarregámos os caracteres resultantes da parceria entre a inspiração e nós.