A ideia de se analisar uma obra de arte com os valores culturais estéticos, morais e éticos de seu tempo tem-se constituído como um imperativo científico apregoado por muita boa gente comprometida com a ideia de democratização e liberdade artísticas. Tal suposição não pode, a meu ver, constituir-se como um axioma. As grandes obras de arte sobrevivem ao crivo do tempo, reinventam-se, constituem-se como protótipos de criação e, ademais, tudo pode e deve ser motivo de reflexão filosófica.

Gerilson Israel apresenta-nos uma composição musical que, do ponto de vista dos «Estudos Culturais», deve ser analisada dentro de um contexto específico, sob pena de se relegar à mais extrema pobreza uma obra que, como qualquer outra, possui, seguramente, alguns pontos fortes. Trata-se de uma música que reflecte o contexto actual em que o «capitalismo» converte até o que há de mais puro e sublime em mero objecto comercial, em que o apego pelas coisas se constitui como um estilo de vida. Como é visível, vivemos em estado de urgência. A pressa é uma das principais características do nosso tempo. Os cantores privilegiam composições que facilmente ficam nos ouvidos do consumidor. Tanto a música como o autor são criações sociais, construções humanas de um período cada vez mais incaracterístico em termos de valor, frutos da «cultura de massas» que procura, a todo o instante, consumidor activo.

A ideia de «cultura de massas» tem de ser necessariamente articulada ao capitalismo, esse monstro que transforma absolutamente tudo em mercadoria. O grande poeta Eliot (como citado em Vargas, 2013) informa que a cultura de massas procura:

Oferecer ao público mais amplo possível novidades acessíveis que sirvam de entretenimento à maior quantidade possível de consumidores. Sua intenção é divertir e dar prazer, possibilitar evasão fácil e acessível para todos, sem necessidade de formação alguma, sem referentes culturais concretos e eruditos.

Hoje, a música – senão as artes, de forma geral – foi rebaixada à categoria de mero produto, material equiparável ao mais caro relógio de marca «Rolex» ou ao mais barato «sabonete» – nalgumas vezes, valendo menos que este. Grande parte dos músicos anda mais preocupado com a venda do que com a expressão artística do produto que vai apresentar ou colocar no «mercado», termo que transformou a cultura numa indústria qualquer. A função da música passou a ser o «lucro». O conteúdo ou mensagem pouco importa. Canta-se hoje o que a maior parte das pessoas quer ouvir: obscenidade e ostentação.

Não me atreveria a tecer quaisquer comentários críticos a respeito da musicalidade da interpretação. Falta-me ciência para o efeito. Entretanto, não poderei negar que a voz de Gerilson Israel consegue ressoar eufonicamente no íntimo da maior parte dos ouvintes e, por isso mesmo, é um «hit». Torna-se necessário afirmar que a prática tem revelado que tal qualidade sonora, por vezes, dá-se pelo milagre da engenharia musical que é capaz de fazer com que a mais despreparada das pessoas, no que toca ao canto, consiga apresentar um vozeirão através de procedimentos tecnológicos cada vez mais refinados. Em vista disso, espero bem que a tal suposta bela voz do autor de «Minha Bêbada» não seja mais uma daquelas que, quando confrontada por uma banda, ao vivo, não se faz ouvir ou se revela em «gritos arranhados», expelidos por uma garganta sofrida como a de muitos cantorinhos da nossa praça.

A música «Minha Bébada» prega o «capitalismo» como um valor agregado ao modus vivendi de um sujeito que vive um dilema entre o material e o sentimental, entre a sua condição social e o desajustado comportamento de sua amada alcoólatra. Logo no o «intro», o autor dá-nos a conhecer a condição socioeconómica de um indivíduo que se apresenta como alguém de posses e, para evidenciar a sua ostentação, serve-se do principal instrumento do imperialismo norte-americano (a língua inglesa) para dizer que tem dinheiro, que usa roupas e assessórios de marcas (I have Money / have Gucci / Louis Vuiton), que tem carros de última geração e motorista (Mazzerati, / I have driver), que tem uma grande casa em Talatona (Big house in Talatona). Entretanto, ainda assim não é feliz porque lhe falta o elemento principal – o amor de Lena – que parece ter sido mais bem valorizado por outra figura, por isso clama pela sua devolução (mas não sou feliz sem ela /devolve a minha Lena)

A Lena fá-lo viver um dilema que o coloca entre a espada e a parede, entre a sua posição social de elevado extracto e a sua vida sentimental. É alguém que sofre de um mal que, quando incompreendido, se constitui como um dos principais agentes de desestruturação familiar: o alcoolismo – um problema de saúde pública que deveria preocupar qualquer governo. A sua amada padece de um transtorno mental induzido pela ingestão em demasia de álcool que se caracteriza, nos termos do DSM-5 – Associação Americana de Psiquiatria –, pelo «uso continuado de álcool, apesar dos problemas sociais ou interpessoais persistentes ou recorrentes causados ou exacerbados pelos seus efeitos», como o caso do rompimento da relação; «muito tempo é gasto em actividades necessárias para a obtenção de álcool, na utilização de álcool ou na recuperação de seus efeitos; Importantes actividades sociais, profissionais ou recreacionais são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso de álcool».

(Eu sei que ela é boa de copo /(Eu sei) / vai uma, vai duas, vai grade / todos sábados chega tarde)

À Lena, o álcool provoca atitudes socialmente condenáveis, porque, «quando ela chupa / desarruma party / às vezes dioga (vomita)».

Esta música tem os seus aspectos positivos. Leva-nos a reflectir sobre a questão do amor como ainda coisa deste mundo. Contudo, ele surge aqui como um elemento desestabilizador. O sujeito, com todas as condições materiais referidas, vê-se na obrigação, por força desse sentimento, de reclamar uma mulher que já não está na sua «posse». Além disso, apesar das «grades», Lena «também tem suas qualidades» e este antes «era feliz» com ela até que uma outra figura, que se pode deduzir como parente ou amante, a terá levado

Fazendo um paralelo com os parágrafos que aludiam o alcoolismo, pode-se deduzir – porque nada disso é objectivo ou real, apesar do seu carácter verosímil – que o seu apego pelas coisas materiais terá levado ou, pelo menos, agudizado o problema do alcoolismo de sua amada.

Não se pode deixar de referir a problemática da aculturação, uma tendência que enferma quase toda a sociedade angolana, e os músicos são os principais vectores ou também vítimas da ignorância generalizada. Gerilson começa a música em inglês, quebra e parte para o português, apresentando, subsequentemente, uma estrutura diglóssica (desarruma party) para depois retomar ao inglês. Um facto curioso é a recorrência do inglês para se aduzir o poder material do sujeito e momentos de euforia (party).

Apesar da predominância do inglês, torna-se importante dizer que, em termos antropológicos, essa música nos remete no espaço cultural angolano moderno. O autor usa uma linguagem não muito distante dos falares joviais do seu tempo. Expressões como «chupa» (ingestão de bebidas alcoólicas), «desarruma a party» (anima a festa ou concentra todos os olhares ao longo da festa por certa acção), «às vezes dioga» (por vezes vomita) são representações linguísticas do povo angolano, especialmente dos luandenses.

Em termos estéticos, não estamos diante duma composição que pode ser incluída na «alta cultura», carecendo de melhor elaboração estilística e padecendo de rigor em termos de coerência e coesão textuais. Logo na introdução, começa por citar uma marca de roupa e assessórios (have Gucci); depois, refere-se a uma marca de carro (Mazzerati) para, seguidamente, voltar a outra marca de roupa, calçado e assessórios (Louis Vuiton), revelando, assim, um estado psíquico de descoordenação, pressa, automatismo, etc.

BIBLIOGRAFIAS

Llosa, M. V. (2013). A civilização do espetáculo [recurso eletrônico]: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura (I. Benedetti, Trad.). Rio de Janeiro : Objetiva.

DSM-5 .(2014) Estatístico De Transtornos Mentais. Artmed..»