Com os melhores cumprimentos, editores!

Por uma, sabendo que o savoire-faire é o que os intelectuais procuram desde antanho, venho, por meio desta, aplaudir o trabalho que, em pouco tempo, têm feito, porquanto o acto de publicar obras literárias e não literárias é, também, um acto de patriotismo e coragem para deixar o mundo cada vez mais sano.

Por outra, ao fazerem a vossa faina em tempo de impostos de valores acrescentados, marimbondismo, pratos vazios, turismo presidencial e de «narrativas de espera» por parte do Novo Messias que diz estar a vir dentro de um avião turbulento, demonstram que não estão a utilizar a arte da palavra para – como acontece alhures deste esférico azul onde estamos todos situados – fazer lavagem de dinheiro. Assim, será menos um trabalho para o Pita Grãos, ups! Para a p.g.r.

O vosso trabalho é bom. Contudo, o que, recentemente, quase tem contribuído para a minha futura catarata é ver a forma como vocês maltrataram a palavra «musseque». Com essa moda que o país está a seguir de corrigir a história, o rosto do kwanza e de dar prémios artísticos e títulos de PhD aos defuntos e de provar que depois dos anos 80 ninguém mais nasceu para escrever, no vosso entender, o item lexical «musseque», agora, passou a ser grafado muceque, com «c» de cão, como diria um professor da reforma da educação.

Sabe-se lá se porque utilizaram os 14% de iva ao escrever a unidade lexical em causa, acabando com a duplicação do «s» e, depois, porque os capitalistas tornaram o mundo um mar de coisas fast, aplicaram mais os 5% de imposto de consumo, mesmo quando esse já estava morto de morte matada pela a.g.t.

Meus prezados, antes de agir assim, deveriam ter procurado a etimologia da palavra em questão. Ora, como dizia um lunático em pé lá, posso vos dar assessoria de favor. Vamos a isso então:

A palavra «musseque» é um empréstimo directo da língua kimbundu. Ao entrar na língua camoniana, sofreu uma ligeira mudança, para que não fosse um xenismo, empréstimo sem mudança na escrita e na pronúncia. Os primeiros lexicógrafos da então província ultramarina de Angola e os escritores nacionais e internacionais têm-na escrito com a duplicação do «s». No kimbundu, a localização, o aumento, o diminutivo, o singular e o plural fazem-se com algumas partituras conhecidas, linguisticamente, como prefixos nominais. Desta feita, se a unidade «seke» é-nos o equivalente de areia, em português, o prefixo nominal «mu-» será qual a preposição «de», que, em contracção com o artigo definido «a», dar-nos-ia um «da» [de+a]. Pelo que «museke» seria a representação de algo e/ou alguém ligado à terra, à areia, em oposição às cidades de betão.

Por ressemanticalização, o termo, na sociologia e nas artes, na literatura, na pintura e na sétima arte angolana em particular, representa o lugar onde (sobre)vivem as pessoas da baixa esfera. Ilustra ali onde o corte da energia é frequente; onde as ruas não têm saneamento básico condigno; onde há muita poluição sonora; onde nascem muitos kuduristas; onde acarreta-se água para beber de pureza e tratamento duvidoso; onde há poucos hospitais; escassas escolas; exíguos parques de diversão; quase nenhuma biblioteca; muitos kandongueiros, pouquíssimos transportes públicos, enfim, ali onde há Menos Pão Luz e Água.

Escrever é um acto de coragem também. Mas como vivemos todos cheios de urgências e a ciência exige paciência – que por causa do capitalismo quase já não nos há, resta-me dizer, mui respeitosamente, que os senhores editores e o escritor ainda vão a tempo de corrigir o que está mal. Saiam do muceque e vão para o musseque ou mesmo, como no savoire-être bantu pela palavra, ao MUSEKE (ligado à areia, ali onde o político só chega em leito oral).

Corrijam o que está mal, egrégios, escrevam mesmo: «SE OS MINISTROS MORASSEM NO MUSSEQUE OU NO MUSEKE», para tanto.

Post scriptum: se os ministros morassem no musseque, o musseque seria a cidade e a cidade seria o musseque, o lugar onde o asfalto acaba e começa a areia, os casebres e os castelos de lata.