Lília Momplé é um nome desconhecido para a maioria dos amantes de literatura. É, entretanto, uma das maiores referências da moderna literatura moçambicana. Contista e romancista, nasceu em 1935 na Ilha de Moçambique. Depois  de ter vivido em Portugal,  na Inglaterra e  no Brasil, regressou definitivamente a Moçambique em 1971. Foi Directora de Relações Internacionais do Ministério moçambicano da Cultura e tem representado o seu país em vários eventos internacionais. Integrou o conselho executivo da UNESCO em París e é membro de honra da Associação dos Escritores Moçambicanos onde já exerceu os cargos de Presidente e de Secretária Geral.

 

É esta atenta “mamana”   octogenária que aqui apresentamos aos nossos leitores transcrevendo esta, mais que condimentada, conversa mantida no Centro Cultural Brasil/Moçambique , em Maputo, num dia em que aconteceu mais uma das várias homenagens que lhe têm  prestado um pouco por toda a parte.  O seu passado. O presente e o futuro. Os livros, os escritores e as nossas literaturas são o mote do que se segue:    

 

L. F. – Como foi que tudo começou? O que é que a levou para a literatura?

L. M. – Vários motivos me levaram à literatura, e um deles foi o facto de ter nascido na Ilha de Moçambique. Tive lá uma infância muito feliz na medida em que fui muito livre. A minha casa ficava a dez metros da praia. Era uma Ilha muito mítica, e eu me lembro de olhar para aquela beleza toda e dizer  ou pensar em um dia escrever aquilo que via, e isso  foi o que me levou a querer abraçar uma arte qualquer. Podia ser pintura ou escultura. Algo que me ajudasse a preservar e divulgar aquela beleza da Ilha. Mas o mais importante ainda foi o facto da minha avó macua  ter tido o hábito de me adormecer a contar estórias tradicionais dos macuas.  Ela contava com muita vida, com muita alma, e eu adormecia ouvindo aqueles contos maravilhosos e fantásticos dos coelhos, dos leopardos, das princesas e etc. Tudo aquilo foi enchendo o meu imaginário de maneira que eu pensava sempre na possibilidade de poder escrever o que ela contava.  Escrever foi uma maneira de render uma homenagem a essa minha avó pelo facto de ela me ter aberto o imaginário para a vida.

 

Outra influência grande foi, sobretudo, de dois professores de português. Está a ver qual é a influência que um professor tem na vida futura dos alunos…? – um professor pode marcar um aluno para toda a vida. Eles elogiavam sempre as minhas redacções nas outras turmas. Mas apesar de eu sempre ter sido muito pouco atenta às minhas qualidades, era tal o apreço que esses professores tinham por aquilo que eu escrevia que eu me sentia muito bem quando o fazia.

 

Depois verifiquei que o que eu mais gostava de fazer era mesmo escrever. Escrever é como se fosse um parto. É um exercício penoso que depois nos dá uma certa alegria. É um exercício gratificante. Gosto de criar personagens com personalidade própria. Que não aceitam morrer ou que são mulheres que não aceitam ser parvas. A escrita é um jogo, e eu sempre gostei de jogar.

Infelizmente, os vossos livros não vêm cá e os poucos que vêm, às vezes, são muito caros e não há nenhum intercâmbio

L. F. – E quando é que começou a publicar as primeiras coisas?

 

L. M. – Quando comecei a publicar, eu já tinha cinquenta e quatro anos. Eu tirei o curso de assistente social em Lisboa, no Instituto Superior do Serviço Social, e a minha profissão requeria muito de mim. Ou eu era uma boa assistente social ou então não trabalhava nisso. Trabalhei no Brasil, em S. Paulo e quando regressei a Moçambique – já casada – não havia assistentes  sociais profissionais, e como sabia inglês, pois estive também um tempo na Inglaterra, fui trabalhar como professora  para a única escola secundária da Ilha de Moçambique  e, mais tarde quando se deu a independência, nomearam-me directora da escola. Eu era ainda miúda. Ainda tinha quase quarenta ou quarenta e poucos anos: Era Directora, professora e trabalhava de manhã, de tarde e de noite para fazer um trabalho, pelo menos, razoável e, então, escrevia muito mas nunca com a intenção de publicar… até quando vim para Maputo, já para o Ministério da Cultura.

 

L. F. – Agora gostaria que me fizesse uma pequena abordagem das suas relações com os escritores e com a literatura angolana.

 

L. M. – Infelizmente, não são aquelas que eu gostaria que fossem, porque eu admiro muito a vossa literatura.

 

Infelizmente, os vossos livros não vêm cá e os poucos que vêm, às vezes, são muito caros e não há nenhum intercâmbio. Mas também eu tenho viajado muito, e é possível que eu não tenha estado cá quando vêm os escritores angolanos, porque eu viajo muito, e a minha vida foi sempre uma vida de viagens e de bons hotéis.

 

Eu fui amiga da Gabriela Antunes. Fomos colegas de universidade e encontramo-nos aqui várias vezes, e até lembro-me que, quando ela vinha cá, me dizia: «ó Lília, leva-me ao cinema, porque em Luanda não temos cinema!»

 

Conheci também, numa dessas viagens que fiz a Angola pelo Ministério, a Ana Paula Tavares  que, depois, tornei a vê-la em Lisboa em várias ocasiões.

 

Os meus escritores de referência, porque não me foram dados a conhecer outros, são aqueles… os normais, quero dizer, o Pepetela, o Manuel Rui e poucos mais.

 

O relacionamento cultural e literário entre Moçambique e Angola tem muitas lacunas que devem ser vistas por quem é de direito, para sabermos o que é que se está a passar, porque, realmente, Moçambique e Angola são  tão próximos, têm raízes tão próximas que não se pode aceitar esse esfriamento.

 

Por exemplo, os macuas e vocês têm tanto em comum. A mulher macua, por exemplo, é tão asseiadíssima tal como a mulher angolana daquela zona mais próxima. Os hábitos, os costumes,  a culinária… são  tão próximos que eu não entendo por que razão havemos de estar de costas viradas. Os nossos embaixadores são muito amorfos.  Vão para Angola e vêm para cá e tratam de ter a sua vidinha, os seus parques, as suas coisas e não querem nada saber. Então, há qualquer coisa que tem que ser vista, porque só viria a beneficiar os dois povos. Infelizmente, isso não depende dos povos, mas de outras estruturas que estão lá, tão alto, e não querem nada saber. Estão cada vez mais distantes dos povos, mas isso não é característica nem dos moçambicanos nem dos angolanos. 

 

L. F. – Quero que nos fale um pouco do actual panorama feminino da literatura moçambicana.

 

L. M. – Essa batalha não consegui ganhar. Acontece que a literatura moçambicana contava com Noêmia de Sousa, que era um ícone da nossa literatura, e agora temos a Paulina Chiziane, mas  isso não chega,  pois não é com essa quantidade que se vai descobrir qualidade.

 

Quando fui Secretária Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, uma das minhas grandes batalhas era pôr as mulheres a escrever. Uma das coisas que eu me lembro de ter feito foi um concurso literário aberto e nem uma mulher concorreu. Resolvi então fazer, com o apoio da UNESCO, um outro concurso  só para mulheres de norte a sul de Moçambique, e concorreram doze. Então, eu perguntei por que não haviam concorrido no concurso anterior ao que me responderam dizendo que os homens sempre ganham tudo, portanto, não valia a pena. Vejam lá as mentalidades…

 

Houve até alguns trabalhos muito interessantes. Eu até tenho estórias para contar sobre os trabalhos destas mulheres e penso que valia a pena apostar, mas foi uma batalha perdida, porque depois houve umas que apareceram, mas só com aquele espírito de aparecer, fazendo «show off». Isso nunca leva a nada, porque não têm qualidade nenhuma.

 

Olha, eu com um conto chamado “Caniço”, participei de um concurso alusivo às festas da comemoração dos cem anos  da cidade de Maputo e, dentre sessenta concorrentes, fui a única mulher e eu ganhei. Por isso, eu digo-lhes sempre, experimentem…! Mas , provavelmente, por motivos ancestrais, nada fazem, pois, na verdade, aqui, se tu tens três filhos em que duas são raparigas e um é rapaz, este rapaz pode ser burríssimo, mas é ele quem vai para a escola, e não elas que são mais inteligentes. Isso acontece até mesmo agora. Até nos dias de hoje. Infelizmente. Estamos a perder grandes cabeças só por terem «a pouca sorte» de terem nascido mulheres.

 

L. F. – Tem ido a Angola?

 

L. M. – Já lá fui oito vezes, sobretudo em serviço, quando era Directora do Departamento de Relações Internacionais do Ministério da Cultura.

 

De Angola só conheço Luanda, mas como já tinha tido muitas colegas angolanas, o contacto lá era muito fácil e sempre gostei muito do convívio com os angolanos. Um povo alegre e solidário.

 

L. F. – A Lília é uma escritora muito telúrica…

 

L. M. – Isso quer dizer que, desde a minha infância, que convivo com gente muito humilde, gente muito pobre. Gente da terra. O meu pai era operário. Era mecânico. A minha mãe era costureira, e essa minha avó que teve uma influência «danada» em mim era macua de panos com aquele veneno que encantou o meu avó  que era cônsul da França.

 

Estou a dizer que eu sempre convivi com gente dos mais diversos extractos sociais  e depois eu falava perfeitamente macua. Tinha um domínio total e até aos sete anos era a única língua que eu falava. Lembro-me de uma vez o meu lavadeiro perguntar-me em português o que estava eu fazendo, ao que lhe respondi em macua deixando toda admirada a minha mãe pois tinha eu apenas sete anitos. A língua macua é uma língua muito saborosa e aqueles contos que a minha avó contava se fossem em português não teriam metade da graça, da ironia e do impacto que tiveram em mim. Eu conheço muito bem a culinária, os ritos e todas as tradições que depois se acabaram transferindo para os meus textos literários.

O livro é muito mais importante que a televisão. A televisão é uma torneira de qualquer coisa que a gente está ali a consumir assim passivamente ao contrário do livro. O livro não.

L. F. – Quais são as mais visíveis características da mulher macua?

 

L. M. – A mulher macua sofreu influências e uma evolução profunda nos últimos tempos. Mas houve uma guerra e, lá no norte, havia uma tal base da RENAMO onde as pessoas eram sujeitas a várias sevícias, e as mulheres dessa base, quando a guerra acabou,  fugiram todas para a Ilha de Moçambique. Portanto, houve uma aculturação negativa. Elas trouxeram hábitos de desleixo, como exemplo: andarem despenteadas ou andarem a achinelar. E isso tudo hoje nota-se, mas aquela que eu conheci antes da guerra era uma mulher que se distinguia pelo seu porte físico e pelo andar. A mulher macua anda parece que está a dançar. Havia aquelas correntes de prata que se punham nos tornozelos, e elas andavam muito ao som das correntes. Era verdadeiramente uma dança. Vestiam-se muito bem sempre com panos e nunca punham vestidos. Punham as capulanas e tinham uma maneira muito própria de amarrar o lenço que era mesmo de admirar. Eram todas muito cultas. A minha avó era analfabeta mas era muito culta. Sabia muita coisa!

 

L. F. – Podemos falar agora da relação entre o livro e a leitura?

                                

L. M. – É claro que sim! Sobre os livros há muita coisa para dizer. Para um estudante, o livro é a única coisa que dá ginástica mental. O livro e mesmo a literatura oral proporcionam ginástica mental.

 

Os livros , por exemplo, vacinaram-me contra a sedução do poder. Eu não sou nada apegada ao poder e uma das coisas que aprendi nas estórias que a minha avó contava era que os animais mais fracos sempre conseguiam vencer os animais mais fortes por causa da sua inteligência. É que naquela «fortaleza» dos fortes estava sempre mesclada um pouco de estupidez e isso sempre foi assim e continua sendo assim até hoje.

 

Veja que os nossos Ministros hoje são quase imortais ou pelo menos assim se sentem. E são as estórias e os livros que me fizeram estar sempre longe do poder e sem apetência para a ostentação, porque  os animais das estórias da minha avó eram sempre fracos mas acabavam por vencer os mais fortes pela sua inteligência.

 

A importância do livro é única. O livro é que nos dá a cultura geral que nos faz compreender seja lá o que for e, o nosso grande Ricardo Rangel dizia que «quem não lê não sabe o  que é a vida».

 

O livro é muito mais importante que a televisão. A televisão é uma torneira de qualquer coisa que a gente está ali a consumir assim passivamente ao contrário do livro. O livro não. Com o livro, temos que ser activos somos obrigados a ser activos. O livro obriga-nos a ir mais além e conseguir compreender o mundo, e, por isso, muitos cientistas são leitores compulsivos, porque foram ajudados através da leitura a querer saber muita coisa.

Lília Momplé

 

L. F. – …e a internet?

 

L. M .- A internet é outra torneira que só despeja. Na verdade, um aluno que não lê –livros! – é um aluno medíocre. Em matemática, um aluno tem de saber ler as equações. Pode até saber solucioná-las mas não o faz, porque não entende o que se lhe pede, e isto acaba por acontecer em todas as disciplinas.

 

Para aqueles jovens que querem escrever, a condição fundamental para escreverem é ler. A pessoa que não lê não pode escrever. Não pode. É impossível. É necessário que tenhamos diariamente contacto com os livros ou com algo que preenche o nosso imaginário como, por exemplo, a literatura oral.

 

Tenho imensa pena que este país dê pouca importância a literatura oral, pois está a deixar fugir tesouros que quando der por isso… já eles não estão cá.

 

L. F. – Ganhou um “Grande Prêmio” e vai sendo homenageada aqui e ali  quase oito décadas depois de ter nascido. O que diz?

 

L. M. – É muito gratificante mas não sou escritora de «prêmios», apesar de já ter ganho muitos até mesmo no estrangeiro. O único prêmio que eu prezo  é o do 1º centenário da cidade de Maputo, porque só daqui há cem anos é que outra pessoa vai ganhar. É preciso esclarecer que há muito escritor formidável que nunca ganhou prêmio nenhum e há muito escritor medíocre que já se fartou de ganhar prêmios. Por isso, os prêmios não me impressionam, mas ajudam sempre sobretudo quando são monetários, porque os escritores nunca enriquecem com a literatura. Prefiro os prêmios que privilegiam a carreira pessoal dos escritores.

 

Tenho apenas três livros e com estes três livros já conheci mais de vinte países falando, fazendo palestras e participando em congressos ou conferências, portanto, quando sou premiada ou homenageada, julgo que acontece não tanto pelo aspecto literário, mas mais pela minha carreira pessoal.

 

L. F. – Semte-se realizada e feliz?

L. M. – Em primeiro lugar, não me sinto feliz num país onde o escritor não é respeitado, não é valorizado nem reconhecido. Infelizmente, neste país, o escritor vale menos que uma artista que mostra as pernas e só canta coisas idiotas. Infelizmente, essa gente ganha muito mais e é mais valorizada do que uma pessoa que está ali dias e dias a escrever.

 

Não me posso sentir feliz por mim e pelos meus colegas. Tenho colegas que têm muito valor e uns até estão a enveredar por um caminho de desespero, porque não vêem a sua obra valorizada. As pessoas não compram os livros, porque, com esse dinheiro, têm que comprar o pão para os filhos. Muita miséria e todos estes problemas. Eu não me sinto feliz vivendo num ambiente destes.

 

Outra coisa é esta “business society” que se está a gerar. Ela faz com que o associativismo se vai perdendo e, infelizmente, é isso que está a acontecer. As pessoas querem é arranjar o seu dinheirinho e não querem saber dos outros.

Agora as pessoas querem é saber mais do “ter” e não do “ser”. Ninguém está preocupado com o SER. Ser Homem ou “ser” gente. Esta preocupação de “ser” hoje não existe. O Mais importante agora é “ter”… Ter cinco carros, ter quatro casas, ter seis mulheres e etc.

 

L. F. – Está a escrever?… Tem projetos para breve?

 

L. M. – Sim. Estou a escrever um livro que já está no meio, com mais de duzentas páginas, e que é justamente sobre esta sociedade que se está a gerar. Esta nossa “business society” em que nos vemos envolvidos. O titulo é «Os Fantoches de Aço». «Os Fantoches» porque são mesmo fantoches. Sem nada lá dentro e, ao mesmo tempo «De Aço», porque, quando se lhes toca, ferem pior que o aço!