O contacto entre povos e suas línguas é um processo inevitável na realidade humana. Assim, na realidade africana, o contacto entre os povos europeu e africano começou propriamente no século XV, com a chegada de Diogo Cão e a sua tripulação à foz do rio Zaire.

Considerar que, no caso do contacto existente entre o português e as línguas nacionais de Angola, o mesmo é permanente, tendo provocado algumas mudanças assinaláveis nalguns paradigmas gramaticais do Português, facto que conduziu ao ponto de se ter uma feição nitidamente angolana, sinal mais do que evidente da mudança linguística ou variação.

            Considerando o processo colonial em Angola, o português tornou-se a língua oficial da actual República de Angola como se pode conferir na Constituição da República de Angola no seu artigo 19º na alinha nº 1 quando afirma que “a língua oficial da Republica de Angola é o Português”. 

            É de salientar que o contacto do Kimbundu com o Português ou vice-versa fez com que surgissem vários fenómenos linguísticos e transformação na fala de muitos locutores das línguas bantu faladas em Angola e da Língua Portuguesa. Assim, os Ambundu (Sg, mumbundu) que são oriundos dos bantu e, por sua vez, os bantu dos proto-bantu, são os falantes desta língua. O significado de Ambundu é neve, nevoeiro, poeira ou negrura.

No território angolano, os Ambundu entraram pela parte norte e fixaram-se nas províncias de Malanje, Kwanza Norte, Luwanda, Bengu e no norte do Kwanza Sul como se pode conferir em Mingas (2000). Assim, segundo Fernandes e Zavoni (2002, p. 43), “O grupo vive numa grande extensão do território nacional, que se estende entre o mar e o rio Kwangu ultrapassando o curso deste para leste. O mesmo seguiu para o sul abrangendo o baixo e o médio Kwanza”.

É a segunda língua mais falada depois do Umbundu. Assim, de acordo com os dados apresentados pelo CENSO realizado em 2014, no país, podemos constatar os dados actualizados sobre o total de falantes das várias línguas de Angola, cujo 7,82% é referente à Kimbundu.

Esta língua faz fronteia com as seguintes línguas: ao norte, o Kikongo, ao sul Umbundu e este, o Cokwe segundo Fernandes e Zavoni (2002, p. 46),  partilhando, desta forma, a zona H, com a língua Kikongo. Segundo a classificação de  Malcolm Guthrie apresentada por Santiago (2013), coloca-se a língua Kimbundu na zona H20.

Nas línguas bantu e em particular o Kimbundu, as classes de prefixos constituem a categoria básica na qual as formas se encontram flexionadas. Numa língua bantu, cada substantivo situa-se dentro de uma série juntamente com os outros substantivos que compartilham o mesmo classificador que é um prefixo nominal (PN) eventualmente precedido por um aumento, e que rege a concordância das palavras dependentes (adjetivos, pronomes, verbos) através da repetição do classificador sob a forma de prefixos adjetivais (PA), pronominais (PP) ou infixos (IN). As classes agrupam-se duas a duas para expressar o singular e o plural sem esquecer a existência de outros sistemas (substantivos monoclássicos e pluriclássicos, etc.), ou seja, os prefixos nominais se repetem no decorrer de toda a frase para assim fazer a concordância com as outras palavras relacionadas a eles. Quanto ao número das classes, esse varia entre 10 e 20, segundo as línguas africanas, algumas línguas têm 10 classes, outras 18 , ou seja, isso varia de uma língua para outra, mas, normalmente, são 20 classes reconstruídas do proto-bantu que foram reduzidas devido as evoluções das línguas. Já a língua Kimbundu tem 18 classes, na qual 15 são prefixos nominais (PN) e outros 3 são locativos.

Classes nominais da língua Kimbundu

classesPNPPPAPV
1mu-mu-mu-mu-
2a-a-a-a-
3mu-mu-mu-mu-
4mi-mi-mi-mi-
5di-di-di-di-
6ma-ma-ma-ma-
7ki-ki-ki-ki-
8i-i-i-i-
9ØØØØ
10ji-ji-ji-ji-
11lu-lu-lu-lu-
12ka-ka-ka-ka-
13tu-tu-tu-tu-
14u-u-u-u-
15ku-ku-ku-ku-
16bhu-   
17ku-   
18mu-   

A classificação que usaremos basea-se no sistema de classificação tradicional estabelecido por Willian Bleck (1862), rotomado e desenvolvido por vários linguistas como Mueussem (1967).

 Sistema foi fundado na repartição de nomes em classes na base de emparelhamento singular/plural. Nesse emparelhamento que determina o número atribuído a cada classe, atribui-se geralmente os números ímpares às classes do singular e os números pares às classes do plural. Cada classe plural recebe o número par, segundo o número da classe singular a qual ela responde. Mas é preciso prestarmos bastante atenção à classe 14 que forma o seu plural com a classe 2 ou 6, e à classe 15 que representa o prefixo verbal (PV) que, quando se refere ao sujeito, cria o plural com a classe 6.

Sendo assim,  o prefixos “ka” quando juntado ao substantivo ganha a função de  diminuir o grau do substantivo de acordo às regras gramaticais da língua Kimbundu.

EX.1:

kapaís

/ka- país/

/PN12+país/

(país pequeno)

Kapão

/ka- pão/

/PN12+pão/

(pão pequeno)

Kacasa

/ka- casa/

/PN12+casa)

(casa pequena)

Já o prefixo “ki” quando juntado ao substantivo ganha a função de aumentar o grau do substantivo de acordo às regras gramaticais da língua Kimbundu.

Ex.2:

Kimulher

/ki – mulher/

/PN7+mulher/

( grande mulher)

Kipacaça

/ki – pacaça/

/PN7+pacaça/

(Pacaça grande)

Kicarro

/ki – carro/

/PN7+carro/

(carro grande)

Portanto, pela influência que o português sofre da língua Kimbundu, e pelos exemplos referidos nos parágrafos anteriores, estes prefixos (ka e ki) são muitas vezes utilizados no português falado em Angola com o mesmo valor morfológico.

Referências bibliográficas

Bleek, W. H. I. (1862). Comparative grammar of south african languages, 1862-1869.

Fernandes, J. & zavoni, Nt. (2002). Angola povo e línguas. Luanda: Editora Nzila

Mingas, A. A. (2000). Interferência do Kimbundu no Português falado em Luwanda. Luanda: Caxinde Editora e Livraria.

Meeussen, A. E. (1967). Bantu grammatical reconstructions.Tervuren

Santiago, J. L. (2013). Zoonomia Histórico-comparativa Bantu. Revista eletrônica língua viva, número 5. Acesso em 30 de Maio de 2020 de http://­invalid.invalid/