Fernando amava a literatura e inspirava todos, ao seu redor, à leitura. Além da galeria de livros que adornava a sua sala de estar, tinha jornais dos anos 70, 80 e 90, assim como vários destaques em recortes de revistas dessa época. Quer fosse pela excelência das matérias ou pela descrição dos próprios temas, dos livros ou dos artigos, reafirmava que, a par da consistência na abordagem dos assuntos, era a inerrância que elevava o prazer da leitura. Assim, muitos, pelos seus conselhos, se fizeram grandes leitores e, dentre tantos que incentivou, até um ou outro deu em escritor. Aos livros designava, “fonte segura de bem escrever” e aos jornais, “meio rápido e prático para se ganhar o hábito de ler”. Sendo eu um dos seus instruendos, ouvia e assim fazia. Lia o que me aparecia a frente e não só. E assim, como ele, mais tarde viria a tornar-me grande apreciador de livros e um viciado em leitura.

“Ler é fonte de saber”, dizia Fernando. No entanto, se hoje ele estivesse vivo, ao ler o “meio rápido e prático de ganhar o hábito de ler”, que chega a milhares de leitores pelo país adentro, e mais ainda com as publicações digitais, decerto mergulharia num incómodo desmedido, pois, se não fosse pela futilidade nos conteúdos, seria pela constante insistência em erros que ele bem dizia “de palmatória”. No mesmo diapasão, andam alguns livros, em que as gralhas surgem logo na capa ou no desdobrar das primeiras páginas. Mas, vendo bem, talvez Fernando estaria errado, pois as coisas andam em constante evolução e já não é surpresa um diário de notícias atirar à cara de toda a gente “domingo-feira”.

Se Fernando estivesse vivo, ao ver tais descalabros linguísticos, perguntaria, decerto, o que se passa com a literatura nesse país?, mesmo ciente de que ninguém haveria de lhe responder de forma convincente. Perguntaria sem pensar duas vezes, sem se importar, se soaria a ofensa a quem não quer saber, nem sequer pensa em ouvir falar de que a literatura está na base da construção de uma sociedade e preservação da identidade e, por isso, tem que ser bem tratada. Se fosse para mudar alguma coisa, com certeza que ele faria tal pergunta, mesmo que a primeira resposta, se tivessem que a dar, tivesse alguma coisa a ver com alguma crise. Pois então, como ele mesmo diria, quando essa crise atingir realmente a literatura, até as letras pegarão as suas coisas e voarão para longe de Angola, atravessando a fronteira ou o oceano e bazar pra o lado de lá, onde, essa crise, seja ela de que tipo for, não mora e quiçá nenhuma outra. Nesse dia, as letras vão escapulir-se para aquelas bandas onde as pessoas as abracem e não as ignorem como se faz descaradamente por aqui. Aqui, onde a crise mais verdadeira é a da vontade de dar valor às coisas que realmente importam. Por isso, falta desde o lápis ao papel, não falta computadores porque fica bem mostrar, mas, certamente, falta os tinteiros pra imprimir as verdades sobre o que mata aos poucos o intelecto da sociedade. As editoras antigas vêem abraçadas as suas portas por cadeados e correntes, livrarias conhecidas transaccionam a outrem os seus espaços, deixando os amantes da leitura desesperados por, cada vez mais, verem obstruídos os seus ensejos de leitura. É nisso que devia constar a preocupação para uma possível crise que vise atingir o âmago da literatura.

Pelo descarrilar da carruagem, não tarda, soltar-se-ão, com furor, nas últimas letras de sangue e fel, legiões de escritos embarrados e que, pela inutilidade que lhes são atribuídas, mais valerá largá-las ao vento. Magníficas matérias, belas histórias, fantásticos contos, maravilhosos livros, indescritíveis, lições que, infelizmente, por não expelirem um mísero de valor económico ou por não caberem no bolso de ninguém, serão obrigadas a seguir um rumo caótico. E quando alguma crise daqui, seja ela qual for, conseguir matar a literatura, nesse dia, as letras hão-de seguir, para bem longe. Com as vontades impulsionadas pela ignorância, atravessarão simplesmente o oceano, irão pra algum lugar onde talvez venham a dar-lhes mais importância e, assim, as doces prosas poderão criar novas raízes. Quanto às obsoletas letras que restarão, ficarão pra fazer libertar, numa última crónica, a enorme saudade das inesquecíveis, prazerosas e felizes leituras desde os tempos em que Fernando ainda estava vivo.