Apesar de a inexistência da História da Crítica Literária Angolana não constituir nosso objecto de estudo, achámos imperioso tecer algumas considerações sobre a figura de Filinto Elísio de Menezes.

Quem, afinal de contas, foi esta personalidade e que motivo haverá que se fale de uma personalidade excluída do processo de legitimação da literatura angolana?

A abordagem sobre estas e outras questões exige, antes de tudo, uma incursão ao artigo de Luís Kandjimbo, “Mário Pinto de Andrade e a crítica literária angolana do século XX”, publicado a 30 de Março de 2018 no Semanário Vanguarda.

No texto em referência, o crítico literário assinala o empenho de Mário Pinto de Andrade na formulação de um discurso crítico que visava legitimar a existência da literatura angolana.

Afigura-se-nos que tal discurso fora constituído parcialmente por três ensaios de Mário Pinto de Andrade, nomeadamente, “Questões de linguística bantu – Da posição do ‘Kimbundu’ nas línguas de Angola” (1951-1952), “A Literatura Negra e os seus Problemas” (1951) e “O Problema Linguístico Negro-Africano” (1952), publicados, respectivamente, nas revistas Mensagem (nº 1, 2/4) da ANANGOLA, Tribuna e Vértice. As duas primeiras revistas eram divulgadas em Luanda, ao passo que a última circulava em Coimbra.[1]

Os textos citados constituem, conforme salienta o escritor (KANDJIMBO, 2018), “o dealbar de um discurso crítico autónomo que pretende ocupar-se da construção de um cânone literário cuja validação ocorrerá apenas na primeira década dos anos 70, após as independências políticas das antigas colónias portuguesas”.

Continuando, o ensaísta angolano diz tratar-se “de um pensamento seminal que é, ao mesmo tempo, um dos momentos genéticos do processo de disciplinarização das literaturas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, também conhecidas pela denominação generalista de literaturas africanas de língua portuguesa”.

A indicação de Mário de Andrade, apologista do “enraizamento cultural e totalizante” em todas as comunidades etnolinguísticas existentes em Angola, como pressuposto a para a criação da literatura angolana, tende a conferir apenas a este intelectual angolano o pioneirismo na legitimação da literatura angolana, em particular, e na de outros países africanos de língua portuguesa, em geral. Será que os intelectuais de outras colónias portuguesas, como Cabo Verde, estiveram alheios a este processo?

De cima para baixo e da direita para a esquerda: Nuno Álves de Miranda, Franklin Lisboa Santos, Silvestre Pinheiro de Faria, Tomaz Dantas Martins, Aleixo Miranda, António Firmino, Guilherme Rocheteau, José Martins Fonseca, Filinto Elísio de Menezes, José Mateus Spencer, Eduíno Brito Silva, Mário Lima e José Euclides de Menezes. Fotografia reproduzida no artigo de Mário Lima intitulado “Reflexões” (Artiletra. 24. Praia. Jan.-Jul. 1997)

Filinto Elísio de Menezes, é um poeta cabo-verdiano que esteve ligado a revista literária Certeza (1944) na qual haviam sido analisados os factores impeditivos da afirmação da literatura cabo-verdiana, a saber: o apego à arte metropolitana de épocas anteriores pelos intelectuais cabo-verdianos e o desconhecimento dos autores cabo-verdianos empenhados com a formação da literatura cabo-verdiana.

Tendo chegado em 1948 em Angola – um ano após a criação do Jornal Cultura (I) -, onde viria a permanecer até 1975, o ensaísta constatou uma situação idêntica com a prevalecente em Cabo Verde, e afirmava que, na época, a literatura angolana era desconhecida.

De acordo com Filinto Elísio de Menezes (2008:263), a dominação de um povo ocorre no momento em que os seus dirigentes, na sua insignificância, e em número reduzido, não cultivam o gosto pelas belas-artes. Por outras palavras, o povo que não sobrevaloriza a sua cultura arrisca-se a depender de outros povos, em todos os domínios, e, por conseguinte, a perder a sua independência cultural.

No seu ensaio, Apontamentos sobre a poesia de Angola – Maurício Gomes e Viriato da Cruz[2] (1949)[3], o autor reflectia sobre a realidade cultural do povo como fonte de inspiração da criação da literatura. Ademais, sustenta que a literatura de um povo torna-se independente quando os motivos que “a ocupam possuem características próprias, e se os temas das suas criações traduzem alguma coisa que se identifique com as realidades do povo que a detém” (MENEZES apud OLIVEIRA 1997:341).

Este princípio aplicado na análise dos pressupostos da criação das literaturas africanas de língua portuguesa, incluindo a literatura angolana, será reafirmado por Eugénio Ferreira e Mário Pinto de Andrade que se refere ao “enraizamento cultural totalizante nas comunidades humanas” existentes em Angola como pressuposto para a criação da literatura angolana.

Relativamente à poesia angolana, o autor definia-a como sendo a “afirmação das nossas forças emotivas e criadoras, e ao mesmo tempo […] intérprete dos nossos anseios, dos nossos dramas e realizações”. O autor acrescenta que a poesia angolana  “é um valiosíssimo inquérito à vida do povo”, “aquecida pelo sol quente dos nossos campos, matizada pelas paisagens que nos cerca e encharcada pelo suor do nosso povo”.

A nacionalidade não constituía, para o ensaísta cabo-verdiano, critério para que determinado autor de uma obra fosse considerado angolano. Pelo contrário, considerava-se como tal, o autor cuja obra estivesse imersa na cultura angolana.

O texto de Filinto Elísio de Menezes veio a lume numa época (1949) em que a poesia colonial atingia o seu esplendor com a publicação do poema Colono, inserido na obra de Tomás Vieira Cruz, Cazumbi – Poesia de Angola, que recebera o prémio de Literatura Colonial organizado pela Agência Geral do Ultramar.

O ensaísta encontrava na poética de Viriato da Cruz a expressão da poesia angolana na sua plenitude e no referido poeta o seu representante principal.

O poeta angolano, esclarece Filinto Elísio de Menezes (apud OLIVEIRA 1997:343), restaura, na sua poesia, o Negro como “um ser normal, sem os mistérios psicológicos, absolutamente idêntico aos outros homens. [Viriato] não mistifica; como artista que é, em busca do belo e da verdade, observa a sua raça, indica caminhos, aponta-lhe soluções, mas sempre que necessário, vergasta-lhe as costas […]”.

A respeito do papel desempenhado por Filinto Elísio de Menezes, Mário António (1997:390-391), é enfático ao afirmar que “[…] fora [o ensaísta cabo-verdiano] quem propugnara a ideia da criação de uma literatura nova em Angola e apresentava os seus iniciadores era Maurício Gomes e Viriato da Cruz”.

Haverá algum exagero nesta afirmação? Se a resposta for positiva, o mesmo não se pode dizer acerca do posicionamento de Carlos Serrano que considera o “artigo” do ensaísta cabo-verdiano “um marco na história das letras angolanas”.

Eugénio Ferreira (1983:106) refere que o ensaio de Filinto Elísio de Menezes fora apresentado inicialmente numa palestra sobre “temas angolanos” (difundida pela Rádioclube) que suscitou grande interesse, motivo pelo qual o autor fora “convidado a repeti-la em colóquio, na sede do centro da SCA, tendo originado largo e frutífero debate […]”.

Acrescenta que “o conhecimento [deste texto] é imprescindível para o estudo da literatura angolana”.

Se considerarmos que os esforços tendentes à legitimação das literaturas dos países africanos de língua oficial portuguesa tiveram início no período de luta pela conquista da independência política e cultural África; e se atendermos para o facto de que os intelectuais nascidos nas ex-colónias portuguesas não estiveram alheios a este processo; e tendo em conta a cronologia dos factos (vide abaixo), chegar-se-á à conclusão de que Filinto Elísio de Menezes antecede a Mário de Andrade na formulação de um discurso crítico que objectivava a autonomização e a legitimação das literaturas africanas de língua portuguesa, em geral, e da literatura angolana, em particular.


[1] Desconhece-se os motivos pelos quais Luís Kandjimbo tenha afirmado que um dos ensaios de Mário de Andrade foi publicado no boletim Mensagem da Casa dos Estudantes do Império (Lisboa) quando as fontes nos informam e nos indicam a revista Tribuna. Cf. ANDRADE (2009:123).

[2] Luís Kandjimbo (2018) cita, no artigo a que nos referimos, a Sociedade Cultural de Angola e a sua ‹‹revista». No entanto, mantêm no esquecimento o ensaísta caboverdiano, Filinto Elísio de Menezes, que no Rádio Clube de Angola apresentou este texto enquanto decorria uma palestra organizada pela referida associação cultural com a qual estaria ligado.

[3] O texto de Filinto Elísio de Menezes difundido, inicialmente, ao vivo pelo Rádio Clube e, posteriormente, publicado, em opúsculo, em 1950, pela Sociedade Cultural de Angola, antecede a publicação de qualquer um dos três textos de Mário de Andrade citados por Luís Kandjimbo. “Literatura e Nacionalismo”, outro ensaio de Mário de Andrade, foi publicado apenas em 1962 na revista Présence Africaine.


Bibliografia

ANDRADE, Henda Pinto de (Coor), Mário Pinto de Andrade – Um Olhar Íntimo. Luanda: Chá de Caxinde/Henda Pinto de Andrade, 2009.

FERREIRA, Eugénio M., FERREIRA, Carlos M., Eugénio Ferreira – Um Cabouqueiro da Angolanidade. Lisboa: Mercado de Letras, 2008, pp. 260-264. Esta obra contém vários artigos e ensaios de Eugénio Ferreira, os testemunhos dos seus correligionários e o texto de Filinto Elísio de Menezes, citado por nós, radiodifundido pela Rádio Clube e editado em 1950 em opúsculo pela Sociedade Cultural de Angola.

KANDJIMBO, Luís, “Mário Pinto de Andrade e a crítica literária angolana do século XX”. Luanda: Semanário Vanguarda, 30 de Março de 2018.

OLIVEIRA, Mário A. F. de, A Formação da Literatura Angolana (1851-1956). S/L, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1997.