Em “Sabedoria Popular do Muxicongo” , Henrique Guerra (1958) define os provérbios como “fórmulas rígidas […] de carácter mais ou menos persuasiv[o] no sentido de orientar o procedimento do homem […] de maneira a atingir o máximo de felicidade e tranquilidade na sua vida de relação”.

Reflexo da vida intelectual de um povo, os provérbios possuem uma dimensão pedagógica assente nos ensinamentos retirados da vida. Eles dão conta da observação de uma variedade de fenómenos, dentre os quais se destaca a incapacidade de o homem guardar o segredo que lhe foi revelado ainda que se esforce para tal.

A dado momento da sua vida, o homem não resiste a tentação de ‹‹libertar-se do peso enorme que carrega na sua língua» e pensava poder suportá-lo. Por este motivo, “bate com a língua nos dentes”.
Esta ideia “resulta […] da observação psicológica do homem preocupado com um segredo. O homem que guarda ciosamente um segredo apresenta externamente um aspecto preocupado, despertando imediatamente a atenção e curiosidade das pessoas circundantes que não descansarão enquanto lhe não descobrirem a causa da preocupação” (GUERRA 1958).

Pelo que se aconselha o indivíduo para que evite partilhar certos segredos com o seu melhor amigo ou ainda com a esposa. Porque, tanto esta como aquele hão-de o revelar logo na primeira ocasião.
Como toda ” arte oral”, os provérbios “têm uma inten[ç]ão predominantemente normativa, e […] a forma de efabulação é a que melhor convém ao narrador, pois fazendo recurso das qualidades estéticas e sentimentais, melhor impressiona quem o escuta […]” (GUERRA 1958).

Henrique Guerra sustenta, no entanto, que a efabulação retira elementos necessários à compreensão do micro-texto, “o que faz com que seja necessária uma explicação complementar”, conforme o exemplo que se segue:

Nkentu kuenda mu kiana
Mpitxika ndioko diandudi
– Okubu kemetomangako?
– Eki dia inki?

Se, de um lado, o narrador “teria de explicar que a primeira pergunta foi feita pelo marido e a segunda pela mulher”, do outro lado, a construção da quadra em apreço assenta na associação de imagens e na transferência do significado do primeiro signo para o segundo.

Do texto retira-se a ideia que se resume no seguinte: à semelhança do homem que traga a mandioca, não se importando com o seu sabor amargo, devem os pais amar os seus filhos, seja qual for o carácter que eles possam ter.

Os provérbios veiculam normas morais assentes nos usos, costumes e tradições transmitidos de geração à geração. Ademais, reflectem o modo de vida das sociedades tradicionais africanas, em particular, assente no espírito solidário (Ribas, 2009:184) .

Com efeito, nas sociedades africanas os assuntos relacionados ao indivíduo mobilizam a comunidade que os resolve através dos makotas. Incumbidos de zelar pelo cumprimento das normas costumeiras, a eles compete a responsabilidade de julgar as infracções que se registam no seio da comunidade. O Conselho dos Anciãos constitui a “opinião pública”, e como tal, nunca se mostra indiferente aos acontecimentos mais importantes que se ocorrem na comunidade.

Diz-se então que
seke dia batuko ntu, didila meyembe nkama

Uma vez que o homem come apenas aquilo que é importante, semelhantemente todo o facto relevante, que desperta atenção pública, será comentado por todos.

Alguns destes textos reflectem as relações de poder e de subordinação e o comportamento que se espera que os subordinados tenham diante dos seus superiores:
“Ekyna kina um zulu obakaki”

A imagem coloca em paralelo duas realidades da qual se retira a ideia de que os chefes assemelham-se aos passáros. Se é verdade que estes se tornam inalcançáveis enquanto voam, não deixa de ser verdade que a autoridade representada e exercida por aqueles deriva da posição elevada que ocupam e abaixo da qual se encontra a maioria das pessoas. Logo, os subordinados devem respeitá-los.

Nas sociedades ágrafas, estes micro-textos sintetizam factos ocorridos e através deles mantém-se viva a memória dos acontecimentos. Quando estes “estiverem enterrados na sepultura do tempo, os desocupados entreter-se-ão a desenterrá-los, perpetuando a sua memória. Então os avisados dirão: ‘Os ramos da palmeira vão, mas as pedras ficam’.

Significa que, apesar do carácter efémero dos acontecimentos, a sua memória resiste ao tempo.

De acordo com Jan Vansina (2010:166), “o valor maior das tradições [orais] reside [na] sua explicação [a respeito] das mudanças históricas no interior de uma sociedade”.

A asserção pode ser confirmada em alguns provérbios nos quais está subjacente a noção de aculturação – fenómeno que, no período colonial, colocava os povos africanos em contacto com a cultura portuguesa.

Ora, a política colonial portuguesa implantada em Angola, no referido período, forçava a adopção da cultura portuguesa e, particularmente, a assimilação da língua portuguesa, como pressuposto para a aquisição da cidadania portuguesa.
Este processo de elevação do “indígena” à condição de cidadão, era tão dificil, de maneira que apenas uma parte insignificante da população angolana apresentava os requísitos exigidos – dentre os quais o domínio da língua portuguesa – para que pudesse usufruir do estatuto de assimilada.

O muxicongo reconhece a dificuldade que o processo de assimilação da cultura portuguesa, e particularmente da língua portuguesa, representa para si quando afirma o seguinte: ” ngiele mukongo, basongele um Diaki”.

O ovo simboliza o mistério, alguma coisa (como a língua portuguesa) que, apesar da sua utilidade, não pode ser usada pelo indivíduo que desconhece o seu funcionamento e não a domina.

A aculturação – fenómeno de que nenhuma sociedade está isenta – produz resultados positivos quando não se registam tentativas forçadas de assimilação ou de imposição de determinada cultura. Porém, o contrário também acontece. O provérbio assim o diz: “ngidia ndende ia-di-sokolela, ia kuhongonona ikuama um kiala”. Ou seja, “o que é forçado, dá mau resultado” (Ribas, 2009:184).

Apesar do seu carácter intemporal e da falta de cronologia, admite-se que alguns provérbios terão sido criados no período pré-colonial e outros, como pudemos ver, no período colonial no qual o africano reflectia sobre os condicionalismos impostos pelo sistema colonial.
O pessimismo derivado dos sucessivos insucessos e do dilema com que o africano (o colonizado) se confrontava no processo de assimilação, levam-no a expressar o seu conformismo. O provérbio confirma-o: “Kialenguluka, m’o nzo ié: m’o nzo is mukuenu, kianemena”.

A língua testifica as experiências de um povo. É o meio pelo qual são satisfeitas as suas necessidades de comunicação. A utilização da língua portuguesa, tal como acontece com as demais, implica (va) o domínio das suas regras. Estas, no entanto, eram desconhecidas pelos angolanos.

Daí que se afirme que “só o próprio [neste caso o português] dispõe facilmente do que é seu” (Ribas, 2009:184).
Deste modo, o homem reflecte sobre si e a dificuldade de apropriar-se e dominar os elementos culturais exógenos decorrentes da aculturação.

Bibliografia
GUERRA, Henrique (1958), ‹‹Sabedoria Popular do Muxicongo». In: MARQUES, Irene, Ferreira, Carlos (Org.), O Boletim Cultura e a Sociedade Cultural de Angola. Recolha e Pesquisa. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2013, pp.120, 122.
RIBAS, Óscar, Missosso. Literatura Tradicional Angolana I. Luanda: Instituto Nacional do Livro e do Disco, 2009.
VANSINA, Jan, ‹‹A Tradição Oral e sua Metodologia. In: KI-ZERBO (ed.), História Geral de África. Metodologia e Pré-História. Brasília: Ministério da Educação do Brasil/UNESCO, vol. I, 2010, pp. 139-66.