Parto do pressuposto que a Fotografia em si é uma Arte. É a arte de escrever com a luz.  Posto isto, convém diferenciar e catalogar as variadas formas de expressão através da fotografia.

Fotografia de arte, fotografia artística ou fotografia fine art são termos ou referências actuais que se fundem no seu todo, no seu conceito global.

Dado que a maior parte dos curadores e os concursos internacionais usam a terminologia Fine Art, adoptei também para mim este termo.

O Fine Art representa uma visão criativa do artista enquanto fotógrafo. Seja essa visão encenada ou “ready made” permite um olhar subjectivo sobre o sujeito ao contrário do Fotojornalismo, que tem como missão a realidade objectiva, documentar a realidade.  Já no caso da fotografia comercial., o foco principal está no apresentar e divulgar o produto em questão. Dentro destes géneros, podemos incluir alguns subgéneros,  por exemplo, a categoria Fotojornalismo pode ser dividida em Notícias, Vida Quotidiana, Retratos, Desporto, Reportagem, etc.

Out of Box Angola, Luanda Salao Beleza

Uma das fronteiras/barreiras mais antigas entre estes géneros fotográficos era a de que somente a Fine Art seria digna de exposição, o que deixou de acontecer nos dias de hoje, em que tanto o fotojornalismo, a fotografia comercial ou até mesmo de casamentos e baptizados  conseguiram o seu próprio espaço e é comum encontramos exposições e festivais dedicados a estes géneros.

É comum também afirmar-se que a fotografia Fine Art é aquela que é produzida com intenção de venda, ao contrário do fotojornalismo em geral, que noticia/informa e da fotografia comercial, que pressupõe uma encomenda prévia.

Outra grande diferença entre esses géneros baseia-se no facto da reprodução limitada/ilimitada das fotografias. Enquanto no Fine Art se tem por hábito de limitar a reprodução das obras, nos outros géneros é precisamente o inverso. Uma boa fotografia comercial ou de fotojornalismo tem, necessariamente, uma reprodução ilimitada e uma exposição universal.

Em qualquer um destes géneros fotográficos e como em quase tudo na vida, é possível incutir o seu “quê” artístico ou criativo, e é comum ter ideias para criações artísticas em plena reportagem, bem como ideias de reportagem em pleno acto criativo.

A fotografia encenada, quer seja em estúdio quer seja na rua, tem, como particularidades principais, a luz cuidada, os elementos colocados no seu devido lugar numa composição pensada e definida enquanto no “ready made” são os elementos que chamam a atenção ao artista, como que o convidando à  interacção.  Um projecto fotográfico pode nascer das duas formas, seja ele pensado e executado como tal ou acumulativo, no sentido de ir acumulando séries de fotografias que transmitam o mesmo sentido ou conceito.

Dentro do “ready made”, tive oportunidade de apreciar recentemente a última grande exposição do artista  angolano António Ole, a retrospectiva que esteve patente na Gulbenkian em Lisboa, onde me deliciei com as suas fotografias.

Dos meus projectos pessoais, destaco o projecto Out of Box, que ainda está em curso e que foi recentemente exibido no Camões-Centro Cultural Português. E ainda uma residência artística em Vila Nova de Cerveira que culminou na selecção de duas obras para exibição na Bienal de Cerveira de 2015 e que contou também com a presença do angolano Marco Kabenda com uma das suas obras.

O Salto – Tripico Cerveira 1

Mas vamos ao que pode ser uma dimensão absolutamente única, excepcionalmente única, da fotografia enquanto obra de arte criada e pensada como tal.

É comum ouvir e ler que aquilo que realmente é ou foi excepcional perdura no tempo, vence a barreira do esquecimento, vê o mundo a erguer-se e a refazer-se diariamente à sua volta, contribuindo para esta metamorfose, mais do que fazer parte dela…  Se se fizer o exercício de pedir a um cidadão com mediana cultura que pense numa imagem que tenha marcado uma época, que tenha protagonizado um momento único e no qual, o que somos hoje como humanidade, provavelmente ouvir-se-á mais vezes o nome de um fotógrafo do que o de um pintor ou o de um ilustrador.

Vamos arriscar

E é aqui que chego ao ponto em que mais arrisco, apesar de não ser um olhar novo sobre este universo.

Uma fotografia de puro fotojornalismo pode transformar-se em arte, num momento de ruptura genial com o que tínhamos visto até então, como a fotografia da “menina napalm”, de Nick Ut, no Vietname, ou o inverso, em que aquilo que parece criado para obter um efeito estético se transforma numa poderosa imagem que informa, como o “desavergonhado” marinheiro que, no dia em que termina a II Guerra Mundial, toma nos braços uma enfermeira e a beija sofregamente, com o momento a ser eternizado pelo fotógrafo Alfred Eisenstaed.

Dificilmente consigo compreender a criação artística, seja na fotografia ou numa outra ferramenta de construção do novo, sem determinação para alcançar o nunca visto, mesmo que esse seja o Santo Graal que todos os criadores procuram e poucos alcançam.

Esta razão pela qual entendo que um fotógrafo criativo, como, de resto, já digo em cima, está permanentemente em busca da oportunidade para congelar, em forma de luz, um momento excepcional ou porque o constrói a partir do seu universo pessoal e referencial, ou está sempre preparado para não o deixar fugir se com ele se deparar casualmente. Porque nem sempre a arte nasce de um momento de genialidade criativa, a arte pode muito bem vir ao nosso encontro e a genialidade está, quando assim é, em não nos esquecermos da câmera fotográfica em casa.

Dois séculos de luz

Há quase 200 anos que a fotografia faz o seu caminho de luz, iluminando a humanidade, seja num canto da casa mais humilde, dentro de uma moldura antiga, seja na mais reluzente e sofisticada sala de Paris, Nova Iorque ou Tóquio.

Já muito, senão tudo o que é possível, foi dito sobre o que é a fotografia, nas suas variadas afirmações estéticas ou utilitárias, mas não será desajustado pensar que “não há regras de boas fotografias, existem apenas boas fotografias” (Ansel Adams), ou que “se uma foto não está suficiente boa, é porque não se aproximou o suficiente” (Robert Cappa), mas convém não esquecer que “a câmera fotográfica é um espelho dotado de memória, porém incapaz de pensar” (Arnold Newmann) até porque “você não fotografa com a sua câmera, você fotografa com toda sua cultura” (Sebastião Salgado), sabendo nós que ajuda também ter em consideração que “a fotografia é a poesia da imobilidade: é através da fotografia que os instantes se deixam ver tal como são” (Peter Urmenyi).

Eu gosto de pensar enquanto fotógrafo, que são as fotografias que nos procuram e que se não estiver com a minha câmera, se não estiver sempre e humildemente à procura, a grande fotografia não vai saber que é a mim que quer encontrar.

E que as minhas fotografias, a forma como a fotografia me permite olhar o mundo, fizeram de mim melhor pessoa, e que a fotografia fez e faz bem à humanidade, como Arte e como a arte de viver de click em click até à imagem definitiva, onde o mundo pára com a luz exacta e se deixa ver como ele é, afinal…